Uniformes

terça-feira, 17 de novembro de 2009 | Published in | 1 comentários

Não, não vou entrar aqui em qualquer discussão sobre roupas ou fazer um discurso longo sobre a uniformização do pensamento que insiste em ocorrer hoje em dia. O assunto de hoje é mais prosaico (adoro usar essa palavra, que bom que tive a oportunidade).
Uniformes, do título, faz referência a uma música do Kid Abelha, uma das faixas do disco Educação Sentimental, de 1985, e ouvir essa música me traz uma boa lembrança de algo que me aconteceu, ou melhor, de uma pessoa que me aconteceu.
No meu último ano do segundo grau eu conheci uma pessoa pra lá de especial. Essa pessoa era minha professora de química orgânica. Se me perguntar se eu lembro algo da matéria eu sou obrigado a responder que não. Acho que química orgânica foi algo que eu aprendi apenas no segundo grau e nunca mais usei, mas acabei que desenvolvi uma certa amizade com a professora. De minha parte era claramente um affair, da parte dela eu sou obrigado a admitir que, na época, eu não fazia a menor idéia, mas na minha cabeça de adolescente eu me sentia correspondido. Mas enfim, eu não realizei a fantasia de 90% dos jovens de ficar com uma professora, que diga-se de passagem a R. (claro que vou usar apenas uma referência, não vou dizer o nome dela aqui) era linda, e ficava ainda mais charmosa quando estava de óculos.
Mas nada aconteceu, pelo menos não naquela época. Os anos passaram, veio a faculdade, e eu lembro que eu tinha acabado de me formar quando uma amiga minha me chamou pra ir numa festa. Sem muita coisa pra fazer, acabei indo nessa festa, sem esperar muita coisa, porém essa festa me trouxe boas surpresas.
Logo no começo da festa uma mulher veio falar comigo, juro que não a reconheci a primeira vista, mas a achei muito bonita. Com menos de um minuto de conversa eu a reconheci, era R. a minha antiga professora de química orgânica, e que continuava linda, ou melhor, estava até mesmo mais bonita. Conversamos bastante naquela noite, trocamos telefones e um tempo depois combinamos de sair. O mais engraçado foi os motivos dessa “saída”... Saímos para tocar violão, ou melhor, pra ela tocar violão, pois eu sou uma negação com esse instrumento. Sim, por mais estranho que pareça, foi isso, meu primeiro encontro com ela, foi para ela tocar violão pra mim, e “Uniformes” foi a primeira música que ela tocou.
Foi uma noite ótima, ela sempre foi simpática e divertida, e me ganhou ao me fazer uma serenata. Tivemos um breve relacionamento a partir dessa noite, e apesar da nossa diferença de idade (eu tinha 24 e ela tinha 39) naquela época, pra mim, isso era o que menos importava.
Com o tempo nos afastamos, mas todas as vezes que ouço “Uniformes” eu não consigo deixar de me lembrar das ótimas noites que passei ao lado da minha professora e do belo sorriso que ela me dava quando tocava violão pra mim.

Guias - Segunda Parte

quinta-feira, 12 de novembro de 2009 | Published in | 0 comentários

Peço desculpas pela demora em postar. Férias e alguns problemas pessoais (resumindo, falta de saco também). Segue abaixo mais um trecho da história que comecei a um tempo atrás.
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O tempo passa para a nossa personagem assim como para qualquer outra pessoa. O peso dos anos nos torna aos poucos diferentes... O primeiro namorado, a primeira relação sexual, as primeiras decepções. Ao abrir o coração para outro ser humano nos expomos e com isso um leve sofrimento passa a nos acompanhar, mesmo que esse leve sofrimento esteja sempre ao lado de uma alegria.

A aranha gigante ainda acompanhava nossa personagem nos primeiros anos de faculdade. Os olhares desconfiados que existiam no segundo grau passaram a não mais importar, a opinião dos outros passou a não mais importar, afinal a aranha gigante dava confiança para que essa jovem cuja história eu estou narrando enfrentasse qualquer coisa. No emaranhado de suas próprias teias nossa personagem era a rainha e ao seu redor nada mais importava. A aranha ao seu lado era a melhor companhia que ela poderia ter, afinal ninguém mais via a criatura ao seu lado e todos estranhavam quando ela se fechava sozinha no quarto, ou melhor, nem tão sozinha assim.

A faculdade veio, como já disse acima. O curso? Bem, essa é outra coisa que não importa no momento, só precisamos lembrar que o gosto por ficar sozinha ainda era presente nessa garota, que nesse momento já devemos chamar de mulher. O problema, é que mesmo para os que gostam de ficar sozinhos, uma turma cheia de alunos nos obriga a ter um contato maior com outras pessoas. E desse contato veio uma característica diferente, que nossa personagem até o momento achava que não tinha, uma agressividade e uma capacidade para se impor que assustava algumas pessoas. Era como se, nos momento que fosse necessário, ela atacasse com uma tremenda fúria para defender seus interesses, e devemos sentir pena dos que tentavam ficar pelo caminho.

Essa transformação não foi brusca. Ou melhor, não houve transformação. Apenas em um outro momento da vida, uma característica inata aparece mais do que em outros momentos, e nesta altura da vida, essa característica que acabei de descrever se sobrepôs as outras. E devido a isso, o diálogo que transcrevo abaixo ocorreu numa noite de lua cheia igual a da primeira vez que elas se viram:

- Deixe-me olhar pra vc. Levante-se... – disse a aranha com voz suave. E continuou:

- Você está diferente agora, parece que não mais se esconde ou prefere ficar a sós comigo. Agora você anda altiva, como se ninguém mais pudesse te atacar, impondo sua vontade.

- O tempo passa e temos que aprender a reagir de outras formas em diferentes situações. Não mais podia deixar os outros de lado, tive que começar a me impor. – disse a nossa personagem.

- Eu sei, e sei também o quanto isso lhe faz bem... Só lamento que por causa disso eu tenho que ir embora...

- Mas por quê? Disse a garota, ou melhor, a mulher, num tom de voz choroso e com lágrimas começando a saltar aos olhos.

- Eu ainda sou parte de você, mas não mais sou a sua principal. Não chore, a vida é assim, já aconteceu antes e ainda acontecerá de novo. Durma, e amanhã acorde para uma nova vida.

E triste, nossa personagem resolveu dormir, e uma última vez tocou nos pelos grossos da aranha e encarou aqueles olhos que piscaram em sinal de satisfação. Ela fechou os olhos, enxugou as lágrimas e por fim disse adeus a sua melhor amiga.

No dia seguinte nossa personagem acordou com um tremendo sentimento de perda latejando fundo em seu peito. Mas esse sentimento não durou muito, afinal ela pode ver um enorme tubarão branco que parecia nadar pelo céu sobre sua cama piscar seus profundos olhos totalmente negros e dizer numa voz estridente, que mais parecia dentes cortando aço, mas ainda feminina:

- Bom dia...

Girls Along The Road

domingo, 4 de outubro de 2009 | Published in | 1 comentários

Um breve intervalo na história que estou a contar apenas para contar outra história. O álcool que percorre meu sangue é a única coisa que me mantém lúcido o suficiente para poder destilar com todo o ódio que habita em mim os acontecimentos dessa noite. E antes de entrar em maiores detalhes da desgraça, sou obrigado a dizer que o único alvo de todo o ódio que sinto nesse momento é apenas uma pessoa: eu mesmo.
Num determinado show que ocorreu nesta cidade eu encontrei com uma mulher com a qual já tinha ficado mas que ainda conseguia mexer comigo. O simples sorriso que ela me deu serviu para que as semanas seguintes fossem diferentes, pois sempre me lembrava dela com uma alegre, e idiota, expressão de felicidade em meu rosto. Devido a essa expressão eu tomei a coragem de voltar a manter contato com ela, fazendo com que aquele antigo endereço de MSN, a muito esquecido voltasse a ser utilizado. A semana foi ótima, com uma longa troca de e-mails e algumas conversas interessantes. E falar com ela me fez bem, pois a simples possibilidade de encontrá-la alegrou meu fim de semana.
Antes de encontrar com essa mulher me vi envolvido numa festa de família. E esta de festa de família me causou extrema agonia, pois o tempo não passava e a vontade de ver essa mulher me corria por dentro. Sai as pressas dessa festa, com o único intuito de ver a mulher dos cabelos vermelhos num bar dessa cidade. No carro fui ensaiando o que falar pra ela e podia já sentir os lábios dela tocando nos meus. Mas infelizmente o mundo não é perfeito e eu muito menos, assim que vi essa mulher que mexeu tanto comigo eu tive a mais inesperada das reações: eu travei! Não conseguia falar com ela direito, não conseguia me expressar, e somente tinha poucas frases desconexas balbuciadas ao tentar impressioná-la. Eu não conseguia ser eu mesmo e tudo isso devido a apenas um sorriso que ela me deu, um sorriso que me desmontou e me transformou num outro ser cujo dom da fala fora negado.
Eu somente podia olhar pra ela e sentir meu peito quase explodindo com as batidas do meu coração. Todas as frases ensaiadas foram esquecidas em instantes. Eu conseguia conversar com os meus amigos, conseguia dar cantadas na moça do bar, conseguia até mesmo “alugar” uma completa desconhecida, mas não conseguia falar diretamente com a mulher que me fez atravessar a cidade só para vê-la.
E assim terminou a noite, eu despejando cantadas baratas numa mulher que eu nuca tinha visto, que estava a turistar por Brasília, enquanto que a única pessoa com quem eu realmente queria estar, estava do meu lado, vendo a cena acima descrita e com ela eu mal conseguia falar. Alguém que me despertou uma profunda paixão me deixou mudo, e uma mulher qualquer ouviu tudo que eu queria ter dito para outra pessoa.
Nessas horas eu penso o quanto eu detesto realmente gostar de alguém, pois os caminhos qu eu sigo nessas horas são sempre os mais errados possíveis. Parece que meu subconsciente me sabota, apenas para não me ver mais feliz. E assim, mais uma vez, eu suponho que perdi alguém que eu poderia ter amado. Mais uma mulher passou pela estrada da minha vida e não foi aquela que eu queria.

Guias - Primeira Parte

sexta-feira, 11 de setembro de 2009 | Published in | 0 comentários

Existe algo de muito estranho no que eu escrevo, e quando digo estranho me refiro ao fato de que raramente batizo meus personagens. A explicação pra isso é simples, afinal espero um certo tipo de identificação com meus personagens, e a partir desse momento eu não os batizo para que cada pessoa possa inserir seu próprio nome na lacuna deixada por esse vazio. Na presente história não poderia ser diferente, e por mais bizarra que ela pareça a princípio, espero dessa vez conseguir algum tipo de identificação por menor que esta seja. Mas essas conversas com os leitores não contribuem em nada para o desenrolar da história e justamente por isso, não me alongo demais nesse “bate-papo” e sigo com meu objetivo principal que é contar histórias.

E dizia-se que ela passava muito tempo sozinha. Mas não era sozinha, sozinha como esperamos que seja o significado de ficar sozinha, como se ela fosse excluída ou como se ela fosse uma solteirona, encalhada ou feia. Na verdade quem se excluía era ela, pois o silêncio lhe era agradável e a maioria das pessoas, falando o tempo todo, sempre alto e sempre sem parar doía, incomodava, por esse motivo ela preferia ficar sozinha. Por essas razões a hora do dia que ela mais gostava era a noite, pois era a hora que no escuro ela poderia ficar quieta no quarto, sentindo o silêncio e apreciando essa paz que somente a escuridão poderia trazer

Nessas horas em que ficava a sós consigo mesma, ela sempre se sentia confortável. Era quase como se houvesse alguém em meio a escuridão que, silenciosamente, lhe fazia companhia. E o mais interessante era que essa companhia era extremamente agradável. Desde criança ela sentia essa companhia quando ficava sozinha, como se um amigo tivesse sempre de olho nela, vendo se tudo estaria certo e agradável pra ela, isso tudo sem nunca dizer uma palavra.

O grande problema disso tudo é que essa simples sensação, que ela encarou como a sua resposta ao silêncio não era nada do que ela pensava, mas isso ela só descobriu quando já estava na adolescência. O tempo passa, crescemos, as companhias alegres da família aos poucos parecem chatas e entediantes quando se entra nessa fase, sempre acompanhada de contestação e fúria, mas para alguém como nossa personagem, que sempre preferiu ficar sozinha, a adolescência veio acompanhada de receios de outras jovens e de outros jovens e não se sabe muito bem os motivos para isso, se era pela roupa preta, pelo espírito contestador ou se apenas pelo fato de que se interessava por coisas diferentes demais da maioria. Somente se sabia que a solidão agradável dos anos de criança, ainda era agradável nos anos de adolescência, mas que agora possuía um sabor mais amargo, um leve ponta de solidão que, dessa vez, poderia ser compreendido no sentido estrito (e mais cruel) da palavra solidão.

Numa noite solitária, onde um coração se sentia frio como montanhas cobertas de neve, foi que aconteceu. Silêncio... ela tinha uns 15 anos pelo que se lembra e o dia tinha sido excepcionalmente ruim. Hoje lembrar os motivos pelos quais o dia tinha sido ruim não são mais relevantes, e acho que ela nem mais se lembra, deveria ser algo relacionado a falsas amigas, a olhares discriminatórios devido ao jeito de ser, qualquer preconceito que um adolescente fora do padrão sofre, mas ao certo não há como saber. Naquele dia excepcional a solidão e o silêncio e a escuridão serviam para aplacar a dor e o peso em seu coração, e justamente, no momento em que uma única lágrima furtiva escorria pelo seu rosto ela viu o reflexo da luz da lua entrando pela janela em oito bolas negras que fixamente olhavam pra ela.

Ao perceber a tais “bolas negras”, foi como se estas piscassem, com uma leve expressão de perplexidade. A nossa personagem teve um breve susto, aceitável até, por não saber o que era aquilo ou o que estava acontecendo. Após respirar fundo ela se levantou de sua cama procurando acender a luz, e antes mesmo que pudesse colocar o primeiro pé no chão ela ouviu uma voz, feminina, lhe dizer suavemente:
- Por favor, não.

Com toda certeza, agora ela poderia ter certeza de que havia algo ou alguém com ela e que esse alguém era responsável pelas pequenas bolas negras que ela via soltas no ar e que brilhavam ao reflexo da luz da lua que entrava pelas frestas da cortina. Mas apesar dessa certeza, a voz que ouviu lhe confortou ao ponto do susto ter ido embora, e uma estranha sensação de paz tomar conta dela. Nesse momento ela ouviu a mesma voz lhe dizer:
- A luz costuma me incomodar, por isso não acenda.
E mais uma vez pareceu que as bolinhas negras piscavam pra ela.

A nossa personagem, com certa, naturalidade, ao invés de perguntar um “quem é você?” ou um “o que você faz aqui”, preferiu como primeira pergunta apenas dizer:
- Deixe-me olhar para você.

E ainda sentada em sua cama, a garota pode perceber uma haste negra com pêlos afastar as cortinas e deixar que toda a claridade da luz entrasse no quarto. Ela pode ver, sob a pálida luz da lua, que na verdade as bolas negras olhavam para ela de verdade pois eram olhos, e que na verdade eram oito bolas negras/olhos e que a haste que abriu as cortinas eram uma enorme pata com pêlos negros. Ela estava diante de uma aranha, negra e com pêlos negros tão negros quanto seus olhos, patas longas que faziam com que a aranha tivesse quase um metro de altura, e ela era monstruosa e linda aos olhos da nossa personagem.

Ela, a garota, não sentiu medo, apenas esboçou um leve sorriso, sentindo dentro de si uma felicidade estranha e uma sensação de amizade como ela nunca havia antes sentido. A nossa garota se limitou a olhar para a aranha e dizer com calma:
- Agora que eu te vi, eu não preciso perguntar quem você é. Eu sei exatamente quem você mas não consigo explicar com palavras, apenas sei e isso é que importa, e me sinto feliz de poder te ver. Quero apenas que me diga se era você das outras vezes.
E a aranha respondeu:
- Na maioria das vezes sim, houve outro antes de mim, mas foi por pouco tempo.

E ambas, a garota e a aranha, ficaram em silêncio novamente. Sentiam que não precisavam, e nem queriam, conversar, mas apenas a presença de uma já fazia bem a outra e fazia com que o sentimento de solidão se dissipasse.

Estações

quarta-feira, 2 de setembro de 2009 | Published in | 0 comentários

Existe um problema sério com relação a estações que infelizmente é difícil de ser resolvido. Não, não estou falando de estações do ano, mas sim das estações pessoais. OK, isso ta começando a ficar confuso, vou explicar melhor: assim como o ano, as pessoas também possuem diferentes estações, sendo que algumas possuem mais do que primavera, verão, outono e inverno. Ainda confuso? Tá bom, explico mais ainda, as vezes uma determinada pessoa está passando por uma época na qual fica apaixonada mais fácil, ou que as vezes fica mais distante, e essas alterações de humor não tem nenhuma relação com problemas pessoais, a pessoa simplesmente está numa outra estação, num período em que ela reage de forma diferente ao que o mundo lhe mostra e lhe faz passar.
As vezes tudo se resumo a estação em que você se encontra. As reações a um problema que hoje foi difícil de resolver, numa outra época teria sido mais fácil. As vezes algo que você não liga hoje, pode faze com que você se importe depois de um tempo e mais pra frente ainda voltar a não se importar. E isso é muito interessante de se observar, o problema é quando se começa a observar isso nos relacionamentos e um evento dessa semana me fez refletir muito sobre isso.
A alguns meses estive numa festa em um bar, uma banda de alguns grandes amigos iria tocar e aproveitei a oportunidade pra ouvir boa música e rever pessoas que tinha um certo tempo que eu não via. Cheguei por lá por volta das 11 e meia da noite, tinha apenas tomado um banho frio no parque da cidade depois de um treino de Kung Fu Wyng Tjun (das 19:30 as 21:00) e de um treino de rugby (das 21:00 as 23:00). Aqui cabe um pequeno a parte: eu realmente tenho gostos estranhos e sei que aqueles que me lêem agora vão concordar depois dessa breve relato das minhas atividades. A música estava ótima, cerveja gelada, bons amigos... mas foi outra coisa que marcou essa noite pra mim.
Eu a vi de longe, vestido branco e laranja, dançando ao som da banda, cabelos na altura dos ombros, vermelhos. Como os que me lêem por aqui sabem, eu tenho um fraco por essa cor. Cheguei mais perto para vê-la, queria poder ver seu rosto afinal, e a achei linda. Mas tudo isso não foi o que me chamou mais atenção, pois ao passar do seu lado eu vi que ela era apenas um pouco mais baixa que eu, e pra mim com os meus 1,90 era difícil ver uma mulher tão alta. Sei que passei a noite toda olhando pra ela, mas não tive coragem de chegar, afinal, eu me sentia sujo e fedendo depois das atividades que já mencionei, mas pude vê-la conversando com uma amiga minha e isso foi excelente para o que veio a seguir.
Passei um tempo longo enchendo o saco dessa amiga minha para saber quem era a “ruiva alta daquele dia”. Troquei algumas informações com conhecidos e em pouco tempo já sabia o nome dela e a simples possibilidade de encontrar com ela já me fazia sair de casa.
Um tempo depois a encontrei numa festa, em outro bar. Mais pro fim da noite, olhei pra ela, tomei aquele último gole de cerveja e fui falar com ela. Foi divertido, ela foi simpática, alegre e eu adorei cada minuto. Tê-la beijado nesse dia deixou meu fim de semana mais alegre, até mesmo mandar uma mensagem de celular, as 04:30 da manhã pra um amigo que sabia dessa história toda, comentando que tinha ficado com a “ruiva alta” eu mandei, só pra perceber o nível de euforia que fiquei.
Mas infelizmente, quando nos encontramos pouco tempo depois, não sei por que motivo, mas acho que foi justamente por causa da estação em que me encontrava naquela época, não consegui botar pra fora e conversar com ela direito e expor como eu me sentia. Queria ter ficado com ela novamente, mas não sei os motivos ao certo, algo em mim não estava na estação certa. E a oportunidade passou e não mais senti os lábios dela nos meus.
O tempo passou, pessoas entraram e saíram da minha vida, e essa semana vi algo que me fez pensar nessa história toda. Através de uma dessas mídias sociais, (mais precisamente Orkut e aquele trocinho chamado “buddy poke” o qual eu nunca vi graça até então) eu pude ver que ela colocou a seguinte mensagem: “procurando por um amor”. Ao ver isso, a única coisa que eu pude pensar foi que gostaria de estar na mesma estação que ela quando nos beijamos, pois dessa forma poderia ter começado uma bela história.

Roxo

quarta-feira, 26 de agosto de 2009 | Published in | 1 comentários

Eu não consigo nem mesmo fantasiar com mulheres que não estão ao meu alcance. Ao olhar a capa de uma revista masculina, o primeiro pensamento que me vem a mente é que falta algo... Está lá, uma mulher estonteante, perfeita, mas que não sabe meu nome e que jamais saberá, e justamente por isso é que falta algo: saber que nunca a conhecerei, saber que ela nunca nem mesmo saberá o meu nome corta totalmente qualquer tesão que eu venha a ter por ela. E esse é o motivo pelo qual eu não gosto de revistas masculinas (vulgarmente conhecidas como “de mulé pelada”) muito menos de modelos de anúncios publicitários.

Sou mais fã da beleza real, essa encontrada nas ruas. A beleza verdadeira, onde cada defeito integra uma pequena parte de um todo perfeito. E foi por pensar assim que tudo aconteceu. Essa história já tem alguns anos, mas merece ser lembrada. Eu a vi pela primeira e última vez. Sentado numa parada de ônibus, eu a vi... A primeira coisa que me chamou a atenção foi o tênis all star roxo (diga-se de passagem ,essa cor não é muito comum, mesmo para tênis all star). As meias brancas davam um belo contraste, subi o olhar pelas longas pernas brancas que há muito não viam sol e me detive na saia marrom já meio desbotada. O olhar continuava a subir e percebi a blusa preta e branca listrada bem agarrada ao corpo, os cabelos pretos um tanto quanto mal cuidados desciam até o meio das costas. E eu estava ali, esperando meu ônibus e implorando em meus pensamentos para que ela se virasse e eu pudesse ver o seu rosto. E minhas preces foram atendidas, a pele do rosto muito branca chocava com os cabelos pretos que eu já havia reparado. Não era bela como as modelos das revistas, mas tinha aquela beleza real que todas as mulheres possuem. Propositadamente estava com uma roupa surrada, despojada, e justamente por isso parecia mais bonita ainda. Se a colocassem num vestido ou numa roupa diferente, com toda certeza el não seria capaz de chamar a atenção por onde andasse, mas para mim aquele visual é que a deixava deslumbrante. E ao mesmo instante que vi essa beleza eu senti uma onda que me invadiu o peito.

Era estranho, a primeira vista parecia que eu estava apaixonado a primeira vista. E fiquei em conflito comigo mesmo, tentando criar a coragem para me levantar e ir direção dela, tentando ao menos um telefone para um encontro mais tarde. As pernas adormeceram e eu não conseguia reunir a coragem para me levantar e ir até ela. Timidez, vergonha ou mera covardia... não sabia qual desses me segurava ao duro banco da parada de ônibus enquanto eu desejava ardentemente aquela anônima na minha frente.

Meu ônibus passou, e eu fiquei sentado ao banco esperando o ônibus dela passar. Quem sabe eu poderia pegar o mesmo ônibus e tentar uma conversa insossa, ou ao menos um olhar eu poderia tentar conseguir antes de me aproximar. E mais uma vez plantado fiquei no meu lugar, olhando para ela e vendo os seus cabelos negros, suas longas e grossas pernas brancas e seu all star roxo.

Ela se moveu lentamente em minha direção, me arrepiei pensando do que se tratava, e que talvez viesse para falar comigo. Estava enganado, ela só andou em direção ao seu ônibus que acabara de chegar, e a mim faltou coragem para pegar o mesmo ônibus. Ela se foi e eu fiquei para trás com tudo que sentia.

Eu a amei desesperadamente durante aqueles poucos minutos. Ela se foi, levando consigo o all star roxo que primeiramente me chamou a atenção e eu fiquei em pedaços para trás, me repreendendo por não ter a coragem de ir falar com ela. E durante o resto daquele dia e dos dias seguintes a paixão ainda existia e a imagem do all star persistiu em minha mente, e quando eu fechava os olhos eu ainda via: roxo. Mas essa mesma paixão, que me percorreu durante poucos minutos e que me seguiu durante alguns dias foi embora. Anos depois reli a primeira parte deste texto e nem mais me lembrava da bela garota de all star roxo que eu amei desesperadamente por poucos minutos, e assim descubro que meus sentimentos são de extremos, são como um fogo que arde forte e que depois apaga sem nem mesmo deixar cinzas como lembranças fazendo com que um amor se extinga como o ponto final que termina esta frase.

O Vento

segunda-feira, 10 de agosto de 2009 | Published in | 0 comentários

O tempo que fiquei sem postar nada foi um breve luto pela morte de um amigo querido. Voltemos a programação normal deste blog.

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O Vento

Numa estrada de terra, durante o fim de um dia frio, um andarilho seguia seu caminho. Em suas costas carregava uma velha sacola de couro pendurada em um dos ombros, nela carregava antigas lembranças de coisas boas e ruins. O peso era visto em seu rosto, que em cada ruga poderia se ver cada lágrima que já derramou e cada sorriso que um dia dera.

Seguia relembrando as cidades pelas quais já havia passado e as pessoas que tinha encontrado pelo caminho e deixado para trás. Tais pensamentos apenas aumentavam o peso da sacola em seu ombro.

O vento soprava frio e forte em suas costas, levantando a poeira da estrada, formando riachos de pó ao redor de seus pés com pequenos redemoinhos de pó vermelho a sua frente.

A estrada já estava lá, e ele apenas a seguia. O caminho já estava feito e era o mais fácil a fazer. Seguir o caminho determinado, mesmo que ele seja feio e sujo, era mais fácil que fazer sua própria trilha, e seguir um caminho pré-determinado era o que prendia seus tornozelos a grilhões invisíveis que foram arrastados por toda uma vida.

O vento soprava cada vez mais forte e frio, o peso em sua sacola de lembranças era cada vez maior, as marcas em seu rosto cada vez mais profundas... O cansaço era evidente e mesmo o vento frio não impedia gostas de suor escorrerem pelo rosto como se fossem lágrimas que não mais seriam derramadas.

Cheiro de chuva era cada vez mais forte e o vento varria a poeira da estrada com o sol se pondo ao fundo. O vento corria livre, sem os grilhões que prendiam o andarilho a sua estrada.

A dor no peito, a sensação de solidão mesmo sabendo que vários andarilhos se encontravam na estrada, a vontade de morrer, o cheiro de poeira e o vento cortante se misturavam aos pensamentos do andarilho e a imensidão da estrada. O andarilho seguiu toda a sua estrada atrás de uma liberdade que nunca iria conseguir, preso aos grilhões que não conseguia ver. E em meio aos pensamentos sobre a estrada, o cansaço, o peso da sacola em seu ombro e o vento que corria, o andarilho apenas parou olhando o sol se pondo, sentindo o vento cortar-lhe levemente o rosto. Deixou a sacola cair no meio da estrada empoeirada e abriu os braços sentindo o vento entrar em suas roupas, e assim ele saltou para acompanhar o vento em sua corrida louca sem direção, deixou para trás velhos grilhões e uma sacola de lembranças boas e ruins que não mais serviam para coisa alguma e assim finalmente pode se sentir livre.

Amigos

segunda-feira, 20 de julho de 2009 | Published in | 0 comentários

Aproveito o assim chamado "Dia do Amigo" para essa postagem.


_____________________________________________________________________________________ Lembro de uma noite regada a muito uísque onde eu ouvi uma história de um amigo meu. Esse amigo meu é tio de um outro grande amigo, e regularmente nos encontramos, os três, para algumas doses de uísque e uma noite de conversa de bêbado. Numa dessas conversas, esse “tio amigo” nos contou a história do seu casamento e do fim deste. O que mais chamava a atenção era que ele falava que somente havia se casado porque todos os outros amigos estavam casados, com filhos pequenos e não mais se encontravam para tomar cerveja ou coisas assim, ele encontrava com os amigos em festas de criança e tomando refrigerante. No fim das contas ele dizia que somente havia se casado pra poder continuar a ter coisas em comum com os amigos.

Quando ele terminou de contar essa história, eu fiquei pensando que isso era um motivo pra lá de idiota pra um casamento. Passei uma semana pensando nisso e, indignado, não conseguia entender porque alguém se casava por motivo tão fútil, e ficava pensando... Enfim, não conseguia entender os motivos dele ter se casado e a idiotice do ato em si.

Não conseguia entender mesmo, até este fim de semana que se passou. Fui convidado para um chá de fraldas de uma amiga minha e um grupo de amigos que se conhecem a mais de 10 anos se reuniu. Todos, mas todos mesmo, estavam casados ou com namoros estáveis de vários anos. Confesso que eu me senti completamente deslocado no meio deles, todos falavam sobre assuntos relacionados a vida à dois, a terem filhos ou sobre como estavam com os filhos pequenos. Eu via no jeito deles de agir que até mesmo o comportamento mudava, pareciam preferir ficar correndo atrás das crianças do que conversar, e qualquer um deles que passava muito tempo longe da companheira, imediatamente era chamado de volta pra perto dela e assim se encerrava os papos puramente masculinos que antes teriam durado horas.

Eu acabei indo embora mais cedo e enquanto dirigia de volta pra casa, pude perceber os motivos que fizeram o “tio amigo” se casar. Depois desse chá de fralda, os motivos dele não mais pareciam tão idiotas assim. Eu provavelmente acabaria fazendo a mesma merda se não tivesse ouvido a história antes, e é triste constatar que o tempo passa e que os objetivos seus e de seus amigos se divergem.

Como Falar com Garotas

sexta-feira, 17 de julho de 2009 | Published in | 2 comentários

Esse é um conto do Neil Gaiman. Essa simples frase já diz muito sobre o texto abaixo e garanto a todos que se derem ao trabalho de ler que é uma história excelente e impressionante. A tradução do original foi feita pelo blog Vida Ordinária (http://vidaordinaria.com/).

Os desenhos que aqui aparecem são Jouni Koponen

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“Vamos lá,” disse Vic. “Vai ser ótimo.”

“Não, não vai,” eu respondi, embora já tivesse perdido essa briga horas atrás, e eu sabia disso.

“Vai ser demais,” disse Vic, pela centésima vez. “Garotas! Garotas! Garotas!” Ele sorriu com dentes brancos.

Nós dois estudávamos em uma escola só para rapazes no sul de Londres. E embora fosse uma mentira dizer que não tínhamos experiência nenhuma com garotas - Vic parecia ter tido várias namoradas, enquanto eu havia beijado três amigas da minha irmã - seria, creio eu, perfeitamente verdadeiro dizer que nós dois só conversávamos, interagíamos e realmente conseguíamos nos relacionar, basicamente, com outros garotos. Bem, pelo menos eu. É complicado falar por outra pessoa, e eu não vejo Vic faz 30 anos. E não tenho certeza se eu saberia o que dizer a ele agora se o visse.

Estávamos andando pelos becos que costumavam ficar embaçados pela névoa espessa atrás da estação de East Croydon - um amigo havia contada a Vic sobre uma festa, e Vic estava determinado a ir queira eu gostasse ou não. E eu não gostava. Mas meus pais estavam fora naquela semana para uma conferência e eu era hóspede na casa de Vic, então estava tendo que acompanhá-lo.

“Vai ser como sempre é,” eu disse. “Depois de uma hora você vai estar em algum canto se agarrando com a garota mais gata da festa e eu vou estar na cozinha ouvindo a mãe de alguém falando sobre política, poesia ou coisa assim.”

“Você só precisa conversar com elas,” ele disse. “Eu acho que é provavelmente aquela rua ali no fim”. Ele gesticulou alegremente, balançando a sacola onde estava a garrafa.

“Você não sabe onde é?”

” A Allison me explicou como chegar e eu escrevi num pedaço de papel, mas eu deixei na mesinha do corredor. Mas não tem problema, eu consigo encontrar.”

“Como?” A esperança começou a crescer lentamente dentro de mim.

“A gente desce a rua,” disse ele, como se estivesse falando com uma criança idiota. ” E procuramos pela festa. Fácil.”

Eu procurei, mas não vi festa alguma: apenas casas estreitas com carros ou bicicletas enferrujando nos quintais de concreto, e bancas de jornal com vidro empoeirado, que cheiravam a temperos estrangeiros e vendiam de tudo, de cartões de aniversário e gibis de segunda mão até revistas tão pornográficas que eram vendidas ainda seladas no plástico. Eu havia estado lá quando Vic me passou uma daquelas revistas por debaixo do seu suéter, mas o jornaleiro o pegou na calçada e o fez devolver.

Chegamos ao final da rua e viramos em uma ruazinha estreita de casas com terraço. Tudo parecia muito parado e vazio naquela noite de verão. “Pra você tudo bem,” eu disse. “Elas gostam de você. Você não precisa nem falar pra valer com elas”. Era verdade: um sorrisinho do Vic e ele poderia escolher quem quisesse no salão.

“Nah, não é assim. Você só precisa conversar.”

Nas vezes em que eu havia beijado as amigas da minha irmã, não havia falado com elas. Elas estavam por ali enquanto minha irmã estava fazendo alguma coisa em outro lugar, e foram atraídas até a minha órbita, então as beijei. Não me lembro de nenhuma conversa. Eu não sabia o que dizer a garotas, e disse isso a ele.

“São apenas garotas,” disse Vic. “Elas não vêm de outro planeta.”

Enquanto contornávamos a curva da rua seguinte, minhas esperanças de que a festa se provasse impossível de encontrar começaram a desaparecer: um baixo ruído pulsante, de música abafada por paredes e portas, podia ser ouvido de uma casa um pouco a frente. Eram oito da noite, não tão cedo assim se você ainda não tem nem 16 anos, e nós não tínhamos. Não mesmo.

Eu tinha pais que gostavam de saber onde eu estava, mas não acho que os pais do Vic se importavam muito. Ele era o mais novo de cinco rapazes. Isso por si só parecia mágico para mim: eu apenas tive duas irmãs, ambas mais novas que eu, e sempre me senti tanto único quanto solitário. Eu quis um irmão desde que consigo me lembrar. Quando fiz treze anos, parei de desejar para estrelas cadente ou para a primeira estrela do céu, mas na época em que eu fazia isso, um irmão era tudo que eu tinha desejado.

Nós atravessamos o caminho do jardim, que nos levava ao largo de uma cerca viva e uma solitária roseira até uma entrada. Tocamos a campainha e a porta foi aberta por uma garota. Eu não poderia dizer quantos anos ela tinha, o que era uma das coisas a respeito de garotas que eu havia começado a odiar: quando somos crianças, somos apenas meninos e meninas, atravessando o tempo na mesma velocidade. E todos temos cinco, ou sete, ou onze anos juntos. Até que um dia acontece uma guinada e as garotas meio que disparam para o futuro na nossa frente, e elas sabem sobre tudo, e elas tem menstruação e seios e maquiagens e sabe-Deus-o-que-mais - porque eu, certamente, não sabia. Os diagramas nos livros de biologia não representavam, num sentido realmente verdadeiro, jovens adultos. E as meninas de nossa idade sim.

Vic e eu não éramos jovens adultos, e eu estava começando a suspeitar que mesmo quando eu precisasse me barbear diariamente, em vez de a cada duas semanas, eu ainda estaria bem atrás.

A garota atendeu com um tom interrogativo. “Oi?”

Vic disse, “Nós somos amigos da Alison.” Havíamos conhecido Alison, sardenta de cabelos laranja e um sorriso safado, em Hamburgo, em um intercâmbio na Alemanha. Os organizadores do intercâmbio enviaram algumas garotas conosco, de um colégio local para meninas, afim de distribuir melhor os gêneros. As garotas, mais ou menos da nossa idade, eram bagunceiras e divertidas, e tinha namorados quase adultos, com carros, motos, empregos e - no caso de uma garota com dente torto e um casaco de guaxinim, que falou meio triste sobre isso comigo no fim de uma festa em Hamburgo, obviamente na cozinha - até esposa e filhos.

“Ela não está aqui,” disse a garota da porta. “Nada de Alison.”

“Não tem problema,” disse o Vic, com um sorrisinho. “Eu sou Vic. Esse é o Enn.” Em um instante a garota já sorria de volta para ele. Vic tinha uma garrafa de vinho branco na sacola plástica, roubada do bar dos pais dele. “Onde a gente coloca isso então?”

Ela abriu espaço para que a gente entrasse. “Tem uma cozinha lá atrás”, ela disse. “Coloca lá na mesa, junto das outras garrafas.” Ela tinha um cabelo dourado ondulado, e era absolutamente linda. O corredor estava meio escuro, mas dava pra perceber que ela era linda.

“Qual o seu nome?” perguntou Vic.

Ela disse que era Stella, e ele sorriu seu sorriso de dentes tortos e disse a ela que aquele deveria ser o nome mais bonito que ele já havia ouvido. Filho da mãe bajulador. E o pior era que ele falava como se realmente achasse aquilo.

Vic foi deixar o vinho na cozinha e eu olhei para a sala maior, de onde a música estava vindo. Tinha gente dançando lá. Stella entrou e começou a dançar, se movendo ao som da música sozinha, e eu a olhava.

Isso aconteceu nos primeiros dias do punk. Nas nossas vitrolas nós tocaríamos Adverts and the Jam, os Stranglers, The Clash e Sex Pistols. Nas festas de outras pessoas você ouviria ELO ou 10cc ou ainda Roxy Music. Talvez um pouco de Bowie, se tivesse sorte. Durante o intercâmbio na Alemanha, o único LP que todos gostavam em comum era o Harvest, do Neil Young, e sua canção “Heart of Gold” rolou durante a viagem como um refrão: “Eu atravessei o oceano por um coração de ouro…”

A música que tocava na sala não era nada que eu reconhecesse.

Soava um pouco como um grupo alemão de pop eletrônico chamado Kraftwerk, e um pouco como um LP que me deram no meu último aniversário, com uns sons esquisitos feitos pela Oficina Radiofônica da BBC. A música tinha uma batida e, embora meia dúzia de garotas naquela sala estivessem se movendo gentilmente junto dela, eu só conseguia olhar para Stella. Ela brilhava.

Vic me empurrou, entrando na sala. Ele segurava uma lata de cerveja. “Tem birita lá na cozinha,” me falou. Foi até Stella e começou a conversar com ela. Não consegui ouvir o que eles falavam por causa da música, mas sabia bem que não havia lugar para mim naquele papo.

Eu não gostava de cerveja. Não naquela época. Saí para ver se achava algo que eu quisesse beber. Na mesa da cozinha tinha uma garrafa de Coca-Cola e eu me servi em um copo descartável, sem ousar falar nada para as duas garotas que estavam conversando em um canto pouco iluminado. Elas estavam animadas e absolutamente adoráveis. Cada uma delas tinha a pele bem escura e cabelo brilhoso e roupas como as de estrelas de cinema, e tinham sotaque estrangeiro, e ambas eram muita areia pro meu caminhãozinho.

Saí andando com a Coca na mão.

A casa era maior do que parecia, e mais complexa do que a arquitetura que eu tinha imaginado. Os cômodos tinham pouca iluminação - duvido que houvesse alguma lâmpada com mais de 40 watts na casa - e cada um deles em que entrei tinha gente: na minha memória, apenas garotas. Não fui ao segundo andar.

Uma garota era a única ocupante da sala de música. Seus cabelo de tão loiro chegava a ser branco, e era longo e liso. E ela sentava em uma mesa com tampo de vidro, com as mãos apertadas uma na outra, olhando para o jardim lá fora, na névoa. Ela parecia ansiosa.

“Você se incomoda se eu sentar aqui?” perguntei, gesticulando com meu copo. Ela assentiu com a cabeça e em seguida encolheu os ombros, indicando que para ela tanto fazia. Eu sentei.

Vic passou perto da porta das ala de música. Estava falando com Stella, mas olhou para mim, sentado naquela mesa cheio de timidez e constrangimento, e fez um sinal abrindo e fechando sua mão, para que eu falasse com ela. Conversar. Tudo bem.

“Você é de algum lugar por aqui?” perguntei à garota.

Ela balançou a cabeça. Ela estava com um decote, e tentei não ficar encarando os peitos dela.

Eu perguntei, “Qual o seu nome? Me chamo Enn.”

“Wain da Wain” ela respondeu, ou algo que soou como isso. “Eu sou uma segunda.”

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“Isso é, hm, isso é um nome diferente.”

Ela me encarou, com olhar inconstante. “Isso indica que minha progenitora também se chamava Wain, e que eu sou obrigada a me reportar a ela. Eu talvez não procrie.”

“Ah. Bem, é meio cedo para isso, de qualquer forma. Não é?”

Ela soltou as mãos, levantou acima da mesa e esticou os dedos. “Você vê?”

O mindinho da sua mão esquerda estava meio torto e bifurcado no alto, se dividindo em duas pequenas pontas do dedo. Uma pequena deformidade. “Quando eu fui concluída, uma decisão foi necessária. Seria eu mantida ou eliminada? Eu tive sorte que a decisão era por minha conta. Agora eu viajo, enquanto minhas irmãs mais perfeitas continuam em casa, em inércia. Elas eram primeiras. Eu sou uma segunda. Em breve devo retornar à Wain e contra a ela tudo que vi. Todas as minhas impressões desse seu lugar.”

“Eu não moro de verdade aqui em Croydon”, eu disse. “Eu não vendo daqui.” Eu estava imaginando se ela era americana. Não tinha a menor idéia do que ela estava falando.

“Como você diz,” ela concordou, “nenhum de nós vem daqui.” Ela dobrou sua mão esquerda, a de 6 dedos, por trás da direita, como se estivesse tirando de vista. “Eu esperava que fosse maior, mais limpo e mais colorido. Mas ainda assim, é uma jóia.”

Ela bocejou e cobriu a boca com a mão direita, apenas por um instante, antes de colocar na mesa novamente. “Eu estou cansando de viajar, e às vezes gostaria que isso acabasse. Numa rua do Rio durante o Carnaval, e os vi em uma ponte, dourados e altos, com olhos de inseto e asas, e eu quase corri alegre para saudá-los, até que eu vi que eram apenas pessoas fantasiadas. E perguntei à Hola Colt, ‘Por que eles tentam tanto parecer como a gente?’ e ela respondeu, ‘Porque eles odeiam a si próprios, todas as tonalidades de rosa e marrom, tão pequenas.’ É o que reparo, até mesmo eu, que não sou crescida. É como um mundo de crianças, ou de elfos.” Aí ela sorriu e disse, ” Foi uma coisa boa que nenhum deles pudesse ver Hola Colt.”

“Hm,” eu disse, “você quer dançar?”

Ela balançou a cabeça imediatamente. “Não é permitido,” disse. “Eu não posso fazer nada que possa causar danos à propriedade. Eu sou uma Wain.”

“Quer beber alguma coisa, então?”

“Água,” ela disse.

Eu voltei à cozinha e me servi com mais Coca, e enchi um copo com água do filtro. Da cozinha até o corredor, e de lá até a sala de música, que agora estava vazia.

Imaginei se a garota tinha ido ao banheiro, e se ela mudaria de idéia sobre dançar mais tarde. Fui de volta ao salão principal e o encarei. O lugar estava enchendo. Havia mais garotas dançando, e vários rapazes que eu não conhecia e que pareciam alguns anos mais velhos que eu e Vic. Os rapazes e garotas mantinham uma certa distância, mas Vic estava segurando a mão de Stella enquanto dançavam, e quando a música terminou, ele colocou o braço em volta dela, quase como se fosse sua propriedade, para ter certeza que ninguém interferiria.

Me perguntei se a garota com quem conversei na sala de música estaria agora no segundo andar, já que ela parecia não estar no térreo.

Fui até a sala de estar, que era do outro lado do corredor, e sentei no sofá. Já havia uma menina sentada lá. Ela tinha cabelo escuro, curto e meio espetado, e um jeito meio nervoso.

Conversar, eu pensei. “Hm, esse copo está sobrando”, eu disse a ela, “se você quiser…” Ela assentiu e esticou a mão para pegar o copo, com muito cuidado, como se não estivesse acostumada a pegar coisas, e como se não confiasse nem em sua visão nem em suas mãos.

“Eu adoro ser uma turista,” ela disse, e sorriu hesitante. Ela tinha uma fenda entre os dois dentes da frente, e bebeu a água em pequenos goles, como se fosse um adulto tomando um vinho fino.

“Na última excursão, fomos até o sol, e nadamos no fogo solar com as baleias. Ouvimos suas histórias e nos arrepiamos com o frio dos lugares distantes, e aí nadamos mais para o fundo, onde o calor nos aqueceu e confortou. Eu queria voltar. Dessa vez, eu queria. Tinha tanta coisa que eu não havia visto. Mas em vez disso, viemos para esse mundo. Você gosta?”

“Gosto do que?”

Ela gesticulou vagamente para o cômodo - o sofá, as poltronas, cortinas, lamparinas.

“É legal, eu acho.”

“Eu disse a eles que não queria visitar esse mundo,” ela falou. “Meu pai-professor não se comoveu. ‘Você tem muito a aprender,’ disse. Eu falei, ‘Poderia aprender mais no sol, de novo. Ou nas profundezas. Jessa teceu redes entre galáxias. Eu queria fazer isso.’ Mas não havia discussão, e acabei vindo para o mundo. Pai- professor me cercou e aqui eu estava, incorporada nessa maçaroca de carne pendurada em uma moldura do cálcio. Assim que eu encarnei, senti coisas bem dentro de mim, fluindo e bombando e esguichando. Foi minha primeira experiência empurrando ar pela boca vibrando as cordas bocas no percurso, e eu costumava dizer ao pai-professor que desejava que eu tivesse morrido, o que era uma conhecida estratégia de saída desse mundo.”

Haviam pulseiras de contas enroladas no pulso dela, e ela brincava com elas enquanto falava. “Mas existe conhecimento lá, na carne,” disse, “e eu resolvi aprender com ela.”

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Nós estávamos sentados próximos no centro do sofá agora. Eu decidi que devia colocar o braço ao redor dela, mas casualmente. Estenderia o braço pelas costas do sofá e eventualmente o baixaria, quase imperceptivelmente, até tocá-la. Ela disse, “Aquela coisa com o líquido nos olhos, quando o mundo fica borrada. Ninguém me explicou, e eu não entendo. Eu toquei as dobras do Sussuro e pulsei e flutuei com os cisnes de Tachyon, e ainda assim não entendo.”

Ela não era a menina mais bonita ali, mas parecia ajeitada o suficiente, e era uma garota, de qualquer forma. Eu deixei meu braço deslizar um pouco, cuidadosamente, de forma que eu fizesse contato com seu ombro e ela não me dissesse para tirar.

Vic me chamou naquela hora, da porta. Ele estava em pé com o braço em torno de Stella, acenando para mim. Eu tentei fazê-lo perceber, balançando minha cabeça, que eu estava no meio de algo, mas ele chamou meu nome e eu, relutantemente, levantei do sofá e fui até a porta. “O que foi?”

“Err… olha. A festa,” disse Vic, em tom de desculpa. “Não é a que eu achei que fosse. Eu estava conversando com Stella e cheguei a essa conclusão. Bem, ela meio que explicou pra mim. Nós estamos em uma festa diferente.”

“Caramba. E estamos ferrados? Vamos ter que ir embora?”

Stella negou com a cabeça. Ele reclinou e a beijou, gentilmente, nos lábios. “Você está apenas feliz de me ter aqui, não está, querida?”

“Você sabe que estou”, ela respondeu.

Ele olhou das costas dela até mim, e sorriu seu sorriso branco: inescrupuloso, adoráveis, meio Artful Dodger, com uma pitada de Príncipe Encantado. “Não se preocupe. Elas são todas turistas aqui de qualquer forma. Um intercâmbio estrangeiro, saca? Como da vez que fomos todos pra Alemanha.”

“Ah, é?”

“Enn, você precisa falar com elas. E isso significa que precisa ouvi-las também. Você entendeu?”

“Eu entendi. E já conversei com duas delas.”

“Está chegando a algum lugar?”

“Eu estava, até você me chamar.”

“Foi mal por isso.Olha, eu só queria te inteirar das coisas. Tudo bem?”

E deu um tapinha no meu braço, se afastando com Stella. Aí, juntos, os dois subiram as escadas.

Entenda, todas as garotas da festa, à meia-luz, eram adoráveis; tinham rostos perfeitos, mas, mais importante que isso, tinham uma certa proporção de estranheza, uma esquisitice ou humanidade que tornam uma beleza maior do que a de um manequim.

Stella era a mais bonita de todas, mas ela, claro, era do Vic, e eles estavam subindo juntos, e isso era simplesmente como as coisas sempre seriam.

Haviam vários pessoas sentadas no sofá agora, conversando com a garota com abertura no dente.

Alguém contou uma piada e todos riram. Eu teria que forçar a barra para sentar do lado dela novamente, e não parecia que ela estivesse me esperando de volta, ou se importasse que eu tivesse saído, e então eu vaguei de volta até o corredor. Espiei as pessoas dançando e me peguei imaginando de onde a música estava vindo. Eu não conseguia ver nenhuma vitrola ou caixas de som.

De lá voltei à cozinha.

Cozinhas são sempre uma boa em festas. Você nunca precisa de uma desculpa para estar ali e, no lado positivo, nessa festa não havia nenhum sinal de alguma mãe presente. Eu dei uma olhada em várias garrafas e latas na mesa, e me servi com dois dedos de Pernod no copo plástico, o qual completei com Coca. Botei mais dois cubos de gelo e tomei um gole, saboreando o doce acentuado da bebida.

“O que você está bebendo?” Era uma voz de garota.

“É Pernod,” eu contei. “Tem gosto de anis, só que alcoólico.” Eu não disse que só experimentei porque ouvir alguém na multidão pedir por um Pernod num LP ao vivo do Velvet Underground.

“Posso tomar um?” Eu servi outro Pernod com Coca e passei a ela.

Seu cabelo era um ruivo cobreado, e caía em cachos por sua cabeça. Não é um penteado que você vê muito hoje em dia, mas era bem comum naquela época.

“Qual seu nome?” perguntei.

“Triolet,” ela respondeu.

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“Nome bonito,” eu disse a ela, embora não tivesse certeza de que fosse. Mas ela era bonita, no entanto,

“É uma estrofe,” ela disse orgulhosa. “Como eu.”

“Você é um poema?”

Ela sorriu e olhou para baixo e para os lados, talvez tímida. O perfil dela era quase reto - um nariz perfeitamente grego, que desceu de sua testa em uma linha reta. Nós fizemos Antígona no teatro do colégio no ano anterior. Eu era o mensageiro que levava a Creonte as notícias da morte de Antígona. Usávamos máscaras que nos fazia parecer assim. Eu lembrei da peça, olhando para o rosto dela, na cozinha, e também lembrei dos desenhos femininos de Barry Smith nos gibis do Conan: cinco anos depois eu teria pensado em Pré-Rafaelitas, em Jane Morris e Lizzie Siddal. Mas eu só tinha quinze anos ali.

“Você é um poema?” repeti.

Ela mordeu seu lábio inferior. “Se você quiser, eu sou um poema, ou sou um padrão, ou uma corrida de pessoas cujo mundo foi tragado pelo mar.”

“Não é difícil ser três coisas ao mesmo tempo?”

“Qual o seu nome?

“Enn”

“Então você é Enn,” ela disse. “E você é macho. E você é bípede. Não é difícil ser três coisas ao mesmo tempo?”

“Mas não são coisas diferentes. Quer dizer, não são coisas contraditórias.” Era uma palavra que eu havia lido várias vezes, mas nunca tinha dito em voz alta antes daquela noite, e eu coloquei ênfase nas sílabas erradas. Contraditório.

Ela usava um vestido fino feito de um tecido branco sedoso. Os olhos eram de um verde pálido, uma cor que me faria agora pensar em lentes de contatos; mas isso foi trinta anos atrás; as coisas eram diferentes então. Eu lembro de imaginar sobre Vic e Stella, lá em cima. A essa hora, tinha certeza que estavam em um dos quartos, e eu invejei tanto Vic que quase doía.

Ainda assim, eu estava conversando com essa garota, e mesmo que estivéssemos falando baboseiras, e mesmo que o nome dela não fosse realmente Triolet (minha geração não tinha nomes hippies: todos os Arcos-íris, Raios-de-Sol e Luas tinham apenas seis, sete ou oito anos naquela época).

Ela disse, “Nós sabíamos que acabaria logo, então colocamos tudo em um poema, para contar ao universo sobre quem fomos, e porque estivemos aqui, e o que dissemos e fizemos e pensamos e sonhamos e ansiamos. Embrulhamos nossos sonhos em palavras e padrões de palavras de forma que eles vivessem para sempre, inesquecíveis. E aí enviamos o poema como um padrão de fluxo, para esperar no coração de uma estrela, irradiando a mensagem em pulsos e explosões e ondas ao redor do espectro eletromagnético, até a hora em que, em mundos a mil sóis de distância, o padrão seria decodificado e lido, e se tornaria um poema uma vez mais.”

“E o que aconteceu?”

Ela me olhou com os olhos verdes, e era como se me encarasse a partir da sua máscara de Antígona; mas como se seus olhos verdes pálidos fossem diferente, mais profundos, parte da máscara. “Você não pode ouvir um poema sem que ele mude você,” disse. “Eles ouviram, e ele os colonizou. Os herdou e os habitou, com seu ritmo se tornando parte da forma como eles pensavam; suas imagens permanentemente transformando suas metáforas; seus versos, sua perspectiva e suas aspirações se tornando suas vidas. Em uma geração seus filhos nasceram já sabendo o poema, e cedo ou tarde, como as coisas são, não haviam mais crianças para nascendo. Isso não era necessário, não mais. Havia apenas o poema, que tomou forma e andou e se esticou através da vastidão do conhecimento.”

Eu me aproximei bem dela, de forma que podia sentir minha perna pressionando a dela.

Ela parecia receptiva a isso: colocou sua mão no meu braço, afetivamente, e eu senti um sorriso se alargando em meu rosto.

“Existem lugares onde somos bem-vindas,” disse Triolet, “e lugares onde somos consideradas ervas daninhas, ou doenças, ou algo que deve ficar em quarentena e ser eliminado. Mas onde o contágio termina e a arte começa?”

“Não sei”, eu disse, ainda sorrindo. Eu conseguia ouvir a música estranha enquanto pulsava, dispersava e estourava no salão.

Ela se inclinou até mim e - suponho que fosse um beijo… suponho. Ela pressionou seus lábios nos meus lábios, de qualquer forma, e aí, satisfeita, recuou, como se tivesse me marcado como seu.

“Você gostaria de ouvir?” perguntou, e eu assenti, incerto do que ela estava me oferecendo, mas com a certeza de que eu precisava de qualquer coisa que ela estivesse disposta a me dar.

Ela começou a sussurrar algo no meu ouvido. É a coisa mais estranha a respeito de poesia - você consegue notar que é poesia até mesmo se você não fala o idioma. Pode ouvir a Ilíada de Homero sem entender uma única palavra, e ainda assim sabe que é poesia. Já ouvira poesia polonesa e poesia esquimó. E eu sabia o que era, sem saber na verdade. O sussurro dela era como isso. Eu não conhecia a língua, mas as palavras mergulhavam através de mim perfeitamente, e na minha mente eu vi torres de cristal e diamante/ e pessoas com olhos do verde mais pálido; e, sem parar, por trás de cada sílaba, eu podia sentir o implacável avanço do oceano. Talvez eu a tenha beijado adequadamente. Não lembro. Só sei que eu quis.

E aí Vic estava me sacudindo violentamente. “Vamos lá!” ele estava gritando. “Rápido. Vamos lá!”

Na minha cabeça, comecei a voltar de milhares de quilômetros de distância.

“Seu idiota, vamos lá. Vamos andando logo,” ele disse, e me xingou. Havia fúria na sua voz.

Pela primeira vez naquela noite, eu reconheci uma das músicas tocadas no salão principal. Um lamento triste no saxofone seguido de uma sequência de corda e uma voz de homem cantando uma letra sobre os filhos da era silenciosa. Eu queria ficar e ouvir a música.

Ela disse, “Eu não terminei. Ainda tem mais de mim.”

“Desculpa, amor,” disse Vic, mas ele não sorria mais. “Vai ter outra hora,” e me agarrou pelo ombro e me puxou, me forçando para fora do cômodo. Não resisti. Eu sabia por experiência própria que Vic poderia me espancar se colocasse isso na cabeça. Ele não o faria a menos que estivesse chateado ou emputecido, mas ele estava bem puto agora.

Corredor da frente. Enquanto Vic puxava a porta para abrir, olhei para trás uma última vez, por cima do ombro, esperando ver Triolet na porta da cozinha, mas ela não estava lá. Vi Stella, no entanto, no alto das escadas. Ela estava olhando para Vic, e eu vi seu rosto.

Isso tudo aconteceu trinta anos atrás. Eu esqueci de muita coisa, e vou esquecer de ainda mais, e no fim vou esquecer de tudo; no entanto, se eu tenho qualquer certeza sobre a vida após a morte, tudo se resume não a salmos ou hinos, mas apenas nessa coisa: eu não posso acreditar que eu algum dia esquecerei esse momento, ou esquecerei a expressão no rosto de Stella enquanto ela via Vic se apressando para longe dela. Até na morte eu lembrarei disso.

Suas roupas estavam dessarumadas, e tinha a maquiagem manchada pela face, e seus olhos -

Você não gostaria de deixar um univers0 bravo. E eu aposto que um universo bravo olharia você com olhos assim.

Nós corremos então, eu e Vic, para longe da festa dos turistas e da escuridão. Corremos como se uma tempestade de raios estivesse atrás da gente, como se uma houvesse uma grande confusão nas ruas, atravessando um labirinto, e não olhamos para trás, e não paramos até que não pudéssemos respirar; e aí paramos e tomamos fôlego, incapazes de correr mais. Estávamos com dor. Nos seguramos em um muro e Vic vomitou, bastante e por muito tempo, na sarjeta.

Ele limpou sua boca.

“Ela não era uma- ” Ele parou.

Balançou a cabeça.

E aí disse, “Você sabe… eu acho que tem uma coisa. Quando você vai até onde você ousa. E se você vai um pouco além, você não é mais você mesmo? Você é a pessoa que fez aquilo? Os lugares onde você simplesmente não pode ir… Eu acho que isso aconteceu comigo essa noite.”

Eu acho que sabia do que ele estava falando. “Comer ela, você diz?” eu falei.

Ele me socou com força na têmpora, e rodei violentamente. Me indaguei se teria que brigar com ele - e perder - mas depois de um momento, ele baixou a mão e se afastou de mim, fazendo um barulho baixo, engolindo a seco.

Eu olhei para ele curioso, e percebi que estava chorando: seu rosto estava vermelho, com ranho e lágrimas rolando pelas bochechas. Vic estava soluçando na rua, como um garotinho desprotegido e de coração partido.

Ele se afastou de mim então, com ombros pesando, e se apressou pela rua de forma que ele estivesse bem a frente e eu não pudesse mais ver seu rosto. Me indaguei do que pudesse ter acontecido naquele quarto lá em cima para fazê-lo agir assim, para assustá-lo tanto, e não tinha a menor idéia de por onde começar a imaginar.

As luzes da rua se acenderam, uma a uma; Vic tropeçava a frente, enquanto eu andava devagar atrás dele no anoitecer, minhas passadas seguindo a métrica do poema que, por mais que eu tentasse, não poderia lembrar propriamente, e jamais seria capaz de repetir.

Colorido

segunda-feira, 6 de julho de 2009 | Published in | 1 comentários

Quando uma amiga minha me falou desse produto eu não quis acreditar. Era surreal demais para ser verdade, mas o problema dessas coisas muito absurdas é que na maioria das vezes elas são reais, e a realidade dá medo. E o pior não é só dar medo, o pior é mesmo está no fato de que eu sou curioso por natureza, e foi só ouvir falar desse produto que a curiosidade cresceu ao ponto de eu não mais me segurar e sair rondando a internet em busca da veracidade da história que foi narrada. A veracidade foi confirmada e eu passei a amaldiçoar com toda a minha força essa maldita curiosidade que me persegue:

http://www.prazeressecretos.com.br/produtos_descricao.asp?lang=pt_BR&codigo_produto=401

Para aqueles que sentiram preguiça de entrar no link acima, eu explico: tratam-se de comprimidos que, se tomados antes da relação sexual, fazem com que o homem tenha uma ... uma... uma.. ok, vamos usar os termos mais polidos da língua portuguesa, faz com que o homem tenha uma ejaculação colorida. Ao me deparar com esse produto um único pensamento se passa na minha cabeça: pra que?

Sério mesmo, eu fico pensando nos motivos que levam um homem a querer gozar de alguma outra cor (ok, lá se vai o politicamente correto). Não faz sentido que um cientista, porque precisaria de um cientista pra bolar um produto desses, tenha gasto tempo e neurônios para criar algo que faz com que um homem goze colorido e florescente! A única utilidade pra isso seria durante uma sessão de Bukkake (crianças, se vocês não sabem o que é um bukkake, nem pensem em procurar no Google. Será melhor para a sanidade de vocês não saber o que é isso).

Enfim, me falta imaginação pra saber os usos desse novo produto erótico. Somado a isso o que acontece se o cara tomar mais de um comprimido? Ele vai gozar um arco-íris? Não... melhor nem pensar nessas coisas, minha imaginação pode ir a lugares que eu não gostaria que ela fosse.

Mas ainda tem coisas piores, bem piores. Ao comentar sobre esse produto com uma amiga minha, esta me solta a pérola: “algo para mudar a cor eu acho inútil, mas deveriam bolar algo para mudar o gosto”. Eu sei que (quase) todas as mulheres compartilham desse pensamento, mas depois dessa, eu prefiro parar por aqui, os desdobramentos dessa discussão podem ser perturbadores.

MORPHINE

terça-feira, 30 de junho de 2009 | Published in | 1 comentários

Eu tentei, mas não resisti. ME senti obrigado a fazer o meu post obrigatório semanal. Nessa semana, um texto sobre uma banda que eu gosto muito.
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Eu sou baixista. Não sou um músico muito bom, mas eu tenho uma fixação quase que doentia por esse instrumento, quando ouço uma banda que tem uma linha de baixo legal ou que exalte esse instrumento (que sempre é deixado de lado pelas bandas e pelos ouvintes) eu faço questão de ouvir. E foi assim que eu descobri uma das minhas bandas favoritas: MORPHINE.

Não dá pra falar dessa banda sem falar um pouco sobre o baixista/vocalista/letrista/fundador da banda Mark Sandman. Ele era um cara apaixonado pela noite e que inventava desculpas para curti-la, e isso acabou por influenciar bastante o som do Morphine. Ele nasceu em Cambridge, mas depois que caiu na noite, nunca mais teve residência fixa, apesar de manter Boston como sua base de operação. Ele já foi taxista, trabalhou num pesqueiro no Alasca, e falava português fluentemente devido ao ano em que morou no Rio de Janeiro (além disso ele era um amante da música brasileira, a bossa nova é evidente em algumas músicas dele).
E foi esse cara que, misturando rock, jazz e blues, criou um som absurdamente simples e diferente do que estamos acostumados.
No vocal e no baixo vc tinha Mark Sandman, com a sua voz grave e suas letras que falavam sempre de trsiteza, ser um perdedor ou de sexo (muito sexo). Uma observação deve ser feita aqui, o baixo dele era adaptado, ele tinha somente duas cordas. Isso mesmo duas cordas! A banda ainda tinha Dana Colley tocando sax, que conseguia algo que eu considero uma façanha: ele tocava dois sax ao mesmo tempo. No primeiro disco tinha Jerome Dupré na bateria, nos outros discos da banda ele foi substituído por Billy Conway. E só, nada mais. A grande maioria das pessoas estranha essa formação, afinal eles tocavam sem guitarra, algo quase impensável para uma banda que se diz de rock, mas ao ouvir o som do Morphine vocÊ descobre que a guitarra não faz a menor falta.
Dos cinco discos da banda [Good (1992), Cure for Pain (1993), Yes (1995), Like Swimming (1997), B-Sides & Otherwise (1997), The Night (2000)] e duas coletâneas [Bootleg Detroit - live (2000), The Best of Morphine: 1992-1995 (2003)], vou recomendar o que eu considero o melhor disco dessa banda: “Cure for Pain”.
Esse foi o segundo disco do Morphine, o primeiro disco Good (1992), é muito bom, mas possui um som diferente demais para os ouvidos menos acostumados, por isso é segundo disco é o melhor para se começar a ouvir essa banda. Tem uma levada mais pop e menos underground que os demais.
Depois de uma introdução instrumental altamente sensual chamada “Dawna”, o disco engata logo com “Buena”, que é realmente uma música boa com sua introdução de baixo bem característica e a voz grave de Mark, os sax entram somente no hora do refrão. Em seguida vem “I’m free now”, a melhor música pra se ouvir depois de um fim de namoro com a sua bela introdução de sax e bateria e a letra que já começa dizendo a que veio e com um refrão fantástico que gruda na mente (“Honest I swear the last thing I want to do Is ever cause your pain”). Em seguida vem “All wrong” , uma música cujo o solo do final me espanta sempre que eu ouço, pois nunca tinha ouvida uma distorção quá-quá (aquela distorção típica de funk geralmente feita com guitarras) só que ligada no sax.
Depois temos “Candy”, uma música romântica com letra bem realista, uma levada calma que te dá vontade de chorar pela beleza da música. A seguir vem “A head with wings” , onde se pode ouvir o tanto que o Dana Colley é bom, tocando dois sax juntos. “In Spite of me”, uma música com um dedilhado de violão, só pra mudar o ambiente causado pelo disco. “Thursday” vem em seguida acho que é a faixa mais experimental do disco, que causa estranheza quando se ouve pela primeira vez, mas depois de acostumar os ouvidos vc começa a viajar na música. Enfim a faixa título, “Cure for pain” realmente merece esse nome, a música leva a dor embora a medida que se ouve, transmitindo uma paz que não se costuma sentir com música, uma tranqüilidade melancólica, e como é dito no refrão (Someday, there will be a cure for pain). “Mary won’t call my name” é a faixa mais animada do disco, dá vontade de sair dançando ao ouvi-la, e tenho de admitir que muitas vezes fiz isso. “Let1s take a trip together” uma música bem ambiente , do tipo que agente gostaria de ouvir ao lado de uma bela garota saboreando um copo de alguma bebida. E por último temos “Sheila”, pra fechar com chave de ouro, a música transmite sensualidade pra quem ouve, basta ouvir o refrão dessa música que eu tenho vontade de realmente virar para uma garota e dizer “I´m yours to command”

Enfim, é um excelente disco que justifica o seu nome, é realmente uma cura para a dor.

VERMELHO

segunda-feira, 22 de junho de 2009 | Published in | 2 comentários

Um grande amigo meu sempre repete quando estamos conversando: “o vermelho não é algo natural. O vermelho é sobrenatural”. Eu sou obrigado a concordar com ele nessa afirmação, poucas coisas chamam mais atenção do que o vermelho, essa cor me fascina e faz com que eu não consiga desviar meus olhos dela. É óbvio que não estou aqui falando de qualquer vermelho, até mesmo a frase acima de autoria desse meu amigo é sempre utilizada num contexto específico. O vermelho que tanto nos fascina é aquele vermelho que emoldura o rosto de algumas mulheres.

Isso mesmo. Desde o início, esta é uma história sobre cabelos vermelhos, ruivas para ser mais exato. Não sei o que elas possuem, mas basta ver cabelos vermelhos que meus olhos irão seguir a portadora dos mesmos, seja ela quem for. É um estranho e comum fetiche, sem explicação e que surgiu em minha vida sabe-se lá como. Não consigo mais nem mesmo me lembrar da primeira vez que ruivas me chamaram atenção, muito provavelmente foi numa revista em quadrinhos (e não, e nunca fui apaixonado pela Jean Grey. A minha ruiva era outra). Pelo menos essa é a minha lembrança mais antiga sobre uma ruiva. E desde então, para o bem e para o mal, essa cor desperta meu desejo.

Já cheguei a momentos estranhos desse vício (sim, posso dizer que é quase um vício controlado, por assim dizer). Exemplo clássico está no fato de eu que comecei a ouvir Garbage e Auf der Maur somente para pdoer admirar as vocalistas (Shirley Manson e Melissa Auf Der Maur, respectivamente).

Enfim, não preciso mais ficar me repetindo sobre esse meu fetiche, afinal esse assunto já deve estar ficando chato para quem me lê neste momento. Vou encerrar por aqui antes que comece a falar sobre meu fetiche com mulheres de óculos, mas aí eu vou invariavelmente entrar no assunto envolvendo “ruivas de óculos”, e aí esse texto acabará ficando longo demais.

Festas Juninas

segunda-feira, 15 de junho de 2009 | Published in | 1 comentários

Meio do ano, mês de junho. Isso possui apenas um significado em qualquer lugar do país, significam festas juninas. Mudam a forma, mudam alguns costumes, mas no fim das contas festas juninas se espalham pelo país inteiro, seja grandes festas com shows e artistas ditos famosos ou pequenas festas em quadras, todos os cantos tem sempre uma festa junina sendo realizada durante todo o mês de junho (constatação meio óbvia, porém necessária para o andamento deste texto).

Sou obrigado a dizer, festas juninas são legais, comida boa, festas divertidas (algumas). Mas o estranho sobre isso tudo é que festas juninas somente passaram a me agradar depois de eu já ter virado adulto. Durante toda minha infância e adolescência eu tinha verdadeira repulsa a festas juninas. Poucas coisas me irritavam mais do que essas festas.

Não foi um único motivo que me levou a ter esse ódio irracional e ridículo (se bem que todo o ódio por si só é irracional e ridículo). Talvez o primeiro deles tenha sido o fato de ter nascido no dia de São João, um dos santos homenageados nestas festas. Meus primeiro aniversários sempre tiveram temática de festas junina comigo usando uma fantasia ridícula só par algumas tias velhas babarem. Lembro que com somente 5 anos eu tive que brigar com a minha mãe pra não ter uma festa de temática junina. Chorei e esperneei, e contrariada, minha mãe me deu minha festa dos Thundercats (ok, sou nerd, sem qualquer sombra de dúvida).

Mas ocorre que na minha vida a festa junina sempre foi uma época de traumas e problemas. Não só aniversários me traumatizavam, mas a minha escola contribuía bastante. No colégio onde estudei quando pequeno nos fantasiam com aquelas roupinhas meio ridículas (e forçadas) de “caipiras” (mais uma vez as fantasias...) e a participação numa dança de quadrilha era obrigatória, mais para agradar país que utilizam rolos e mais rolos de filmes fotográficos ( alguém aí ainda se lembra disso?) do que para agradar as pequenas crianças que tinham muito pouco idéia do que acontecia de verdade.

E eu me lembro que pior do que dançar a quadrilha na escola, eram os ensaios. Tudo Sempre começava com a escolha dos pares, e eu nunca conseguia dançar com a menina com a qual eu queria. Não me lembro de uma época a qual o rótulo de “nerd” não me era imposto, e quando criança era pior (pra não dizer engraçado) pois sempre me sobrava para dançar a menina que não tinha par. Era pior do que no futebol, onde eu sempre era o último a ser escolhido. Lembro de uma vez na qual a menina mais bonita da turma (isso na época de uma primeira ou segunda série) havia faltado e eu havia sobrado na escolha de pares. No dia seguinte ela acabou tendo que dançar comigo, fato este que me causou uma alegria de apenas alguns minutos, pois ao saber que ela dançaria comigo, essa mesma menina conseguiu (não sei como) trocar de par e mais uma vez eu sobrei pra dançar com sabe-se lá que outra menina havia sobrado.

Passado esse primeiro momento de trauma, vinham mais um mês de ensaios chatos, sempre com a mesma música e sempre durante muito mais tempo do que qualquer ensaio deveria durar, afinal paciência crianças nunca são duas coisas que combinam muito.
E destas festas, lembro que a mais feliz foi o ano no qual minha parceira havia faltado a festa por estar doente. Ainda tentaram improvisar e me arrumar outro par, mas o que nunca contei pra ninguém é que me senti aliviado com a falta da menina, e assim escapei da quadrilha, escapei da dança e escapei do mal que aquilo me fazia.

Enfim, as festas juninas me traumatizaram. O tempo passou, superei esses traumas e hoje são festas que eu gosto, como já disse acima. Deixei esses problemas no passado, mas como tudo que passa deixa uma marca, ainda sinto resquícios desses antigos problemas, afinal até hoje, sempre que tento organizar uma festa de aniversário, eu preciso ter uma longa conversa com a minha mãe para que ela não tente colocar algumas bandeirinhas de papel espalhadas pelo local.

Alergia ao século XXI

segunda-feira, 8 de junho de 2009 | Published in | 1 comentários

Não sou muito de fazer breves introduções ao que eu escrevo, mas dessa vez achei necessário. Um texto um tanto quanto infantil, mas de forma proposital. Espero que aqueles que lerem esta curta introdução tenham percebido meu sarcamo.

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Era uma vez um homem. Ele era um cara comum, como todos os outros, mas tinha algo nele que o tornava diferente: o mundo ao seu redor parecia feri-lo de alguma maneira. Ele se sentia sempre com um frio no estomago que não sumia por mais que ele tentasse, uma sensação de vazio que nunca ia embora mesmo se ele estivesse perto de pessoas que ele amava. Não era as pessoas do mundo que o deixavam assim, afinal existiam pessoas boas e pessoas más, era o mundo em si que o machucava, e fazia com que ele nunca se sentisse bem em lugar nenhum. Todos esses problemas o fizeram procurar um médico, e este médico não soube responder a fatídica pergunta: O que aquele homem tinha? Outros médicos foram procurados e todos não souberam dizer qual a doença que aquele homem tinha. Ele até mesmo apareceu num famoso programa de televisão procurando ajuda e não conseguiu descobrir o que tinha. Foi preciso que um famoso médico fosse trazido diretamente da Europa para avaliar o problema. Depois de meses de estudo o médico chegou a uma conclusão taxativa: aquele homem tinha alergia ao século XXI. A princípio todos ficaram espantados, como alguém podia ser alérgico ao tão esperado, aclamado e, até mesmo, quase ficcional século XXI? Mas para aquele homem, a resposta parecia fazer muito sentido. Ele, como todo mundo, ficava maravilhado com o século XXI e suas novidades. Ele admirava a expansão do conhecimento e a quebra de barreiras proporcionada pela internet no início do século XXI, mas não entendia como as pessoas preferiam conversar por e-mail do que pessoalmente, mesmo sendo vizinhas. Ele admirava a revolução sexual que acontecia e a quebra de preconceitos, mas não entendia como quanto mais os tabus sexuais eram quebrados menos se valorizava o amor. Ele admirava como os relacionamentos podiam ser tão diferentes, mas não entendia como as pessoas passavam menos tempo com uma pessoa só. Ele admirava as inúmeras tentativas de paz, mas não entendia como a paz podia ser um instrumento de guerra. Enfim, ele realmente acreditou no diagnóstico do médico, ele realmente tinha alergia ao século XXI, estava tudo explicado. Numa tentativa de viver sem os seus problemas alérgicos, esse homem se mudou para uma distante montanha afastada da sociedade, e lá viveu por muitos anos. Ele viveu muito mais do que qualquer outro ser humano, pois no alto da montanha não precisava se preocupar com o que as pessoas iriam achar dele, não via hipocrisia, não tinha stress, vivia em paz consigo mesmo e nunca mais sentiu aquele frio no estomago de novo. Ele estava curado.

E o tempo passou, no mundo sem aquele homem as pessoas mudaram, e depois de muito tempo perdido em brigas e discussões, em preocupações que em nada levavam, em valores falsos que não ajudavam a ninguém, elas perceberam que também faltava algo nelas, uma sensação de vazio que nunca ia embora, um frio no estomago que não sumia. Grandes cientistas pesquisaram o estranho fenômeno e nada descobriram, mas alguém se lembrou do velho homem que tinha esses mesmos problemas e que há muito tempo havia abandonado a sociedade. Todas as pessoas do mundo se juntaram e foram atrás daquele homem, e todos ficaram espantados ao verem que ele ainda estava vivo depois de tantos anos. Eles pararam e falaram para aquele homem tudo que sentiam e o homem olhava para eles como se olha para alguém que tem o mesmo problema que você e que por isso te entende. O homem contou para todo mundo como ele se sentia na sociedade e como os problemas dele acabaram quando ele foi viver nas montanhas. As pessoas ouviram e voltaram para suas casas e começaram a deixar de lado os falsos valores que defendiam e começaram a olhar nos olhos umas das outras sem mais desconfiar, valorizando mais o ser do que o ter ou parecer. Graças a isso o mundo havia mudado mais ainda, e a hipocrisia havia sido varrida da face da Terra, assim como o egoísmo e a destruição, o amor passou a ser cada vez mais celebrado e o ser humano não mais tinha preconceitos. Tudo isso por causa do homem que tinha alergia ao século XXI, por tudo isso as pessoas do mundo o chamaram para sair de sua montanha e ver o que ele havia feito, e o homem aceitou. Desceu de sua montanha e viu a sociedade que havia surgido, ficou espantado e feliz, pela primeira vez ele não se sentia incomodado no meio das pessoas, parecia que sua alergia havia acabado, era o primeiro dia do século XXII.
CHOCOLATE

Hoje foi um dia que eu acordei com uma idéia fixa percorrendo minha mente desde o amanhecer: comer chocolate. Mas não era qualquer chocolate, tinha que ser um talento, como castanhas do Pará dentro, e sim, eu estava disposto a pagar três reais numa simples barrinha de chocolate, era tudo o que eu queria pra passar o dia. E no ônibus indo pra aula da pós-graduação, fiquei me lembrando dos camelôs vendendo doces nas paradas da W3 Sul, afinal eles sempre tem talento pra vender, e eu ia satisfazer esse meu desejo fácil fácil.
Cheguei na aula, coloquei meu material na carteira e fui beber uma água, mas o pensamento no maldito chocolate me perseguia. Eu podia sentir o gosto doce na minha boca, o aroma... tudo. Nem mesmo consegui prestar atenção na aula, apenas pensando no chocolate...
Tomei a decisão óbvia que se podia fazer numa situação dessas: desisti da aula e fui atrás do meu querido chocolate, ou melhor, tenho que falar a verdade, desisti da aula porque o professor era ruim e eu tinha muito trabalho pra fazer no escritório (sou advogado e de vez em quando eu realmente tenho muito o que fazer), mas no caminho com certeza eu ia encontrar alguém vendendo o talento que eu tanto queria. Infelizmente, estava enganado, nem nos camelôs das paradas nem em canto nenhum tinha esse chocolate, eu ainda consegui encontrar uma única banca que vendia aqueles talentos pequenos, mas me recusei a comprar, queria um dos grandes (além disso, o dessa banquinha tava meio estranho, parecia que alguém tinha pisado na embalagem...).
No trabalho, a idéia do doce não saiu da minha cabeça, eu babava pensando no sabor do doce e a minha concentração ia embora...
Na hora do almoço eu resolvi voltar pra casa, tinha que tomar um banho e boto o paletó e a gravata, tinha uma audiência as duas da tarde, mas a vontade de comer o chocolate não tinha passado. No caminho pra parada fui parando de lanchonete em lanchonete pra ver se eles tinham a droga desse maldito chocolate... e nada!
De tarde, hora de pegar a moto, sair, ia pra minha audiência, depois correr de fórum em fórum, e tudo isso com aquela, já maldita depois de tanto tempo, vontade de devorar uma enorme barra de talento. E ao final do dia, ainda não tinha encontrado o meu tão sonhado talento.
Em caso depois de um dia de trabalho, de noite, após ter jantado, eu não resisti. Foi mais forte do que eu. Eu peguei o carro e dirigi até a padaria mais próxima. A essa hora o chocolate já era necessidade, eu realmente precisava de uma boa dose. E por milagre, pela primeira vez no dia, eu encontrei o tão sonhado chocolate, ele estava lá, como esperando por mim. Tirar a embalagem foi como tirar a roupa de uma bela mulher, a preliminar de um momento onde eu desfrutaria do prazer do doce que me foi privado durante todo o dia. Comer toda aquela barra foi como ter um pequeno orgasmo, um orgasminho por assim dizer (orgasminho? Acho que essa foi a palavra mais feia que já usei na vida). E naquele momento, pós-chocolate, ainda meio ofegante, com uma enorme vontade de fumar um cigarro, comecei a pensar comigo mesmo algumas coisas:
A primeira coisa que lembrei foi que uma vez eu admiti num grupo de amigos que eu sou viciado em chocolate. Eu realmente não consigo passar mais do que uma semana sem comer esse maldito derivado de cacau, acho que é por isso que me dá tantas sensações bizarras. A outra coisa que lembrei foi o que um amigo meu me falou após essa confissão. Ele me disse: “Thiago, mulheres é que são viciadas em chocolate. Homens não gostam de doces. Se você gosta de chocolate e é viciado assim, então você é uma mulher”, e pensando nisso eu fiquei imaginando que eu realmente devo ser mulher, afinal se esse meu amigo estiver certo, eu prefiro ser taxado de mulher do que ser privado de chocolate...
Mas esse último pensamento me trouxe a outro. Eu gosto muito de mulheres, adoro mulheres, acho mulheres lindas, e sou apaixonado por todas elas, e se eu posso ser considerada uma “mulher” e se eu gosto tanto assim de mulheres, bem, eu obviamente devo ser lésbica... Oh, eu sou lésbica! É uma estranha descoberta, não quero nem imaginar como minha família pode reagir a isso. E no fim desses pensamento resolvi tomar uma decisão, vou procurar uma associação de lésbicas e ver se elas me aceitam, afinal, eu acabei de sair do armário.

Perfume

segunda-feira, 25 de maio de 2009 | Published in | 1 comentários

A vida como advogado tem algumas vantagens. Uma delas são as visitas aos fóruns, não que isso seja divertido ou prazeroso em si, mas por um motivo muito mais mundano: podermos ver algumas belas advogadas quase desfilando pelo fórum.
A pouco tempo aconteceu algo assim, que me chamou atenção. A minha audiência havia acabado de terminar e eu me dirigia ao meu carro pensando na pilha de processos que me esperava. Saindo do fórum eu vi algo que alegrou o dia frio de Brasília. Ela estava usando um terninho preto risca de giz, exatamente com a mesma estampa que o meu terno. Parecia que ela também tinha terminado uma audiência e se dirigia para o seu carro. Eu olhei para ela e vi a pele branca, e ao mesmo tempo que vi seu rosto pude sentir o cheiro de seu perfume que praticamente me enebriou ao ponto de me fazer fechar os olhos por uns instantes e apenas me concentrar naquele cheiro.
Ela seguiu seu caminho e eu a olhava alguns passos atrás. Devido ao vento, todo o cheiro do perfume dela vinha direto sobre mim ao ponto de que quando cheguei ao escritório ainda podia sentir aquele perfume em minha pele. O sol batendo nos cabelos castanhos, levemente vermelhos, somente servia pra me entorpecer mais ainda. Eu a via andar de forma desajeitada tentado adaptar o salta a calçada acidentada e as vezes se virava e dava pequenos pulinhos para evitar buracos, nestas horas eu podia ver seu rosto quando se virava, e os óculos de armação bem fina deixavam-na mais bonita.
Caminhamos por um pequeno espaço de tempo, somente da saída do fórum até o estacionamento, cerca de 50 metros, que se tornaram um dos 50 metros mais prazerosos que vivi. Ela sempre em frente comigo logo atrás. No fundo da minha mente eu a admirava intensamente, ela possuía aquela lascívia que as mulheres possuem somente quando não pretendem seduzir, afinal ela estava vestida para o trabalho e mesmo assim fez com que eu não visse mais nada, apenas a advogada de terninho listrado a minha frente. Por mim o mundo poderia ter acabada ali mesmo e chegaria no inferno sorrindo apenas com a lembrança dela e o seu perfume impregnado em mim.
Por fim, como era de se esperar, ela chegou ao carro dela e minha longa caminhada a admirando tinha chegado ao final. Passei por ela, ainda sentindo o seu perfume, e não resisti, olhei para trás, diretamente nos olhos dela. Nessa hora, ela me sorriu, e com aquele sorriso ela me disse que sabia que eu a estava observando, com aquele simples sorriso ela entendeu tudo que se passava na minha mente, tudo que eu não disse e o tudo que se passou. Eu apenas sorri de volta, ainda meio bobo e ainda meio tonto, sem saber o que fazer. No fim, apenas me virei, segui meu caminho e entrei no meu carro para voltar pro escritório. Contudo, após ter visto aquele simples sorriso eu podia ter certeza de que aquele seria um ótimo dia.