Como Falar com Garotas

sexta-feira, 17 de julho de 2009 | Published in | 2 comentários

Esse é um conto do Neil Gaiman. Essa simples frase já diz muito sobre o texto abaixo e garanto a todos que se derem ao trabalho de ler que é uma história excelente e impressionante. A tradução do original foi feita pelo blog Vida Ordinária (http://vidaordinaria.com/).

Os desenhos que aqui aparecem são Jouni Koponen

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“Vamos lá,” disse Vic. “Vai ser ótimo.”

“Não, não vai,” eu respondi, embora já tivesse perdido essa briga horas atrás, e eu sabia disso.

“Vai ser demais,” disse Vic, pela centésima vez. “Garotas! Garotas! Garotas!” Ele sorriu com dentes brancos.

Nós dois estudávamos em uma escola só para rapazes no sul de Londres. E embora fosse uma mentira dizer que não tínhamos experiência nenhuma com garotas - Vic parecia ter tido várias namoradas, enquanto eu havia beijado três amigas da minha irmã - seria, creio eu, perfeitamente verdadeiro dizer que nós dois só conversávamos, interagíamos e realmente conseguíamos nos relacionar, basicamente, com outros garotos. Bem, pelo menos eu. É complicado falar por outra pessoa, e eu não vejo Vic faz 30 anos. E não tenho certeza se eu saberia o que dizer a ele agora se o visse.

Estávamos andando pelos becos que costumavam ficar embaçados pela névoa espessa atrás da estação de East Croydon - um amigo havia contada a Vic sobre uma festa, e Vic estava determinado a ir queira eu gostasse ou não. E eu não gostava. Mas meus pais estavam fora naquela semana para uma conferência e eu era hóspede na casa de Vic, então estava tendo que acompanhá-lo.

“Vai ser como sempre é,” eu disse. “Depois de uma hora você vai estar em algum canto se agarrando com a garota mais gata da festa e eu vou estar na cozinha ouvindo a mãe de alguém falando sobre política, poesia ou coisa assim.”

“Você só precisa conversar com elas,” ele disse. “Eu acho que é provavelmente aquela rua ali no fim”. Ele gesticulou alegremente, balançando a sacola onde estava a garrafa.

“Você não sabe onde é?”

” A Allison me explicou como chegar e eu escrevi num pedaço de papel, mas eu deixei na mesinha do corredor. Mas não tem problema, eu consigo encontrar.”

“Como?” A esperança começou a crescer lentamente dentro de mim.

“A gente desce a rua,” disse ele, como se estivesse falando com uma criança idiota. ” E procuramos pela festa. Fácil.”

Eu procurei, mas não vi festa alguma: apenas casas estreitas com carros ou bicicletas enferrujando nos quintais de concreto, e bancas de jornal com vidro empoeirado, que cheiravam a temperos estrangeiros e vendiam de tudo, de cartões de aniversário e gibis de segunda mão até revistas tão pornográficas que eram vendidas ainda seladas no plástico. Eu havia estado lá quando Vic me passou uma daquelas revistas por debaixo do seu suéter, mas o jornaleiro o pegou na calçada e o fez devolver.

Chegamos ao final da rua e viramos em uma ruazinha estreita de casas com terraço. Tudo parecia muito parado e vazio naquela noite de verão. “Pra você tudo bem,” eu disse. “Elas gostam de você. Você não precisa nem falar pra valer com elas”. Era verdade: um sorrisinho do Vic e ele poderia escolher quem quisesse no salão.

“Nah, não é assim. Você só precisa conversar.”

Nas vezes em que eu havia beijado as amigas da minha irmã, não havia falado com elas. Elas estavam por ali enquanto minha irmã estava fazendo alguma coisa em outro lugar, e foram atraídas até a minha órbita, então as beijei. Não me lembro de nenhuma conversa. Eu não sabia o que dizer a garotas, e disse isso a ele.

“São apenas garotas,” disse Vic. “Elas não vêm de outro planeta.”

Enquanto contornávamos a curva da rua seguinte, minhas esperanças de que a festa se provasse impossível de encontrar começaram a desaparecer: um baixo ruído pulsante, de música abafada por paredes e portas, podia ser ouvido de uma casa um pouco a frente. Eram oito da noite, não tão cedo assim se você ainda não tem nem 16 anos, e nós não tínhamos. Não mesmo.

Eu tinha pais que gostavam de saber onde eu estava, mas não acho que os pais do Vic se importavam muito. Ele era o mais novo de cinco rapazes. Isso por si só parecia mágico para mim: eu apenas tive duas irmãs, ambas mais novas que eu, e sempre me senti tanto único quanto solitário. Eu quis um irmão desde que consigo me lembrar. Quando fiz treze anos, parei de desejar para estrelas cadente ou para a primeira estrela do céu, mas na época em que eu fazia isso, um irmão era tudo que eu tinha desejado.

Nós atravessamos o caminho do jardim, que nos levava ao largo de uma cerca viva e uma solitária roseira até uma entrada. Tocamos a campainha e a porta foi aberta por uma garota. Eu não poderia dizer quantos anos ela tinha, o que era uma das coisas a respeito de garotas que eu havia começado a odiar: quando somos crianças, somos apenas meninos e meninas, atravessando o tempo na mesma velocidade. E todos temos cinco, ou sete, ou onze anos juntos. Até que um dia acontece uma guinada e as garotas meio que disparam para o futuro na nossa frente, e elas sabem sobre tudo, e elas tem menstruação e seios e maquiagens e sabe-Deus-o-que-mais - porque eu, certamente, não sabia. Os diagramas nos livros de biologia não representavam, num sentido realmente verdadeiro, jovens adultos. E as meninas de nossa idade sim.

Vic e eu não éramos jovens adultos, e eu estava começando a suspeitar que mesmo quando eu precisasse me barbear diariamente, em vez de a cada duas semanas, eu ainda estaria bem atrás.

A garota atendeu com um tom interrogativo. “Oi?”

Vic disse, “Nós somos amigos da Alison.” Havíamos conhecido Alison, sardenta de cabelos laranja e um sorriso safado, em Hamburgo, em um intercâmbio na Alemanha. Os organizadores do intercâmbio enviaram algumas garotas conosco, de um colégio local para meninas, afim de distribuir melhor os gêneros. As garotas, mais ou menos da nossa idade, eram bagunceiras e divertidas, e tinha namorados quase adultos, com carros, motos, empregos e - no caso de uma garota com dente torto e um casaco de guaxinim, que falou meio triste sobre isso comigo no fim de uma festa em Hamburgo, obviamente na cozinha - até esposa e filhos.

“Ela não está aqui,” disse a garota da porta. “Nada de Alison.”

“Não tem problema,” disse o Vic, com um sorrisinho. “Eu sou Vic. Esse é o Enn.” Em um instante a garota já sorria de volta para ele. Vic tinha uma garrafa de vinho branco na sacola plástica, roubada do bar dos pais dele. “Onde a gente coloca isso então?”

Ela abriu espaço para que a gente entrasse. “Tem uma cozinha lá atrás”, ela disse. “Coloca lá na mesa, junto das outras garrafas.” Ela tinha um cabelo dourado ondulado, e era absolutamente linda. O corredor estava meio escuro, mas dava pra perceber que ela era linda.

“Qual o seu nome?” perguntou Vic.

Ela disse que era Stella, e ele sorriu seu sorriso de dentes tortos e disse a ela que aquele deveria ser o nome mais bonito que ele já havia ouvido. Filho da mãe bajulador. E o pior era que ele falava como se realmente achasse aquilo.

Vic foi deixar o vinho na cozinha e eu olhei para a sala maior, de onde a música estava vindo. Tinha gente dançando lá. Stella entrou e começou a dançar, se movendo ao som da música sozinha, e eu a olhava.

Isso aconteceu nos primeiros dias do punk. Nas nossas vitrolas nós tocaríamos Adverts and the Jam, os Stranglers, The Clash e Sex Pistols. Nas festas de outras pessoas você ouviria ELO ou 10cc ou ainda Roxy Music. Talvez um pouco de Bowie, se tivesse sorte. Durante o intercâmbio na Alemanha, o único LP que todos gostavam em comum era o Harvest, do Neil Young, e sua canção “Heart of Gold” rolou durante a viagem como um refrão: “Eu atravessei o oceano por um coração de ouro…”

A música que tocava na sala não era nada que eu reconhecesse.

Soava um pouco como um grupo alemão de pop eletrônico chamado Kraftwerk, e um pouco como um LP que me deram no meu último aniversário, com uns sons esquisitos feitos pela Oficina Radiofônica da BBC. A música tinha uma batida e, embora meia dúzia de garotas naquela sala estivessem se movendo gentilmente junto dela, eu só conseguia olhar para Stella. Ela brilhava.

Vic me empurrou, entrando na sala. Ele segurava uma lata de cerveja. “Tem birita lá na cozinha,” me falou. Foi até Stella e começou a conversar com ela. Não consegui ouvir o que eles falavam por causa da música, mas sabia bem que não havia lugar para mim naquele papo.

Eu não gostava de cerveja. Não naquela época. Saí para ver se achava algo que eu quisesse beber. Na mesa da cozinha tinha uma garrafa de Coca-Cola e eu me servi em um copo descartável, sem ousar falar nada para as duas garotas que estavam conversando em um canto pouco iluminado. Elas estavam animadas e absolutamente adoráveis. Cada uma delas tinha a pele bem escura e cabelo brilhoso e roupas como as de estrelas de cinema, e tinham sotaque estrangeiro, e ambas eram muita areia pro meu caminhãozinho.

Saí andando com a Coca na mão.

A casa era maior do que parecia, e mais complexa do que a arquitetura que eu tinha imaginado. Os cômodos tinham pouca iluminação - duvido que houvesse alguma lâmpada com mais de 40 watts na casa - e cada um deles em que entrei tinha gente: na minha memória, apenas garotas. Não fui ao segundo andar.

Uma garota era a única ocupante da sala de música. Seus cabelo de tão loiro chegava a ser branco, e era longo e liso. E ela sentava em uma mesa com tampo de vidro, com as mãos apertadas uma na outra, olhando para o jardim lá fora, na névoa. Ela parecia ansiosa.

“Você se incomoda se eu sentar aqui?” perguntei, gesticulando com meu copo. Ela assentiu com a cabeça e em seguida encolheu os ombros, indicando que para ela tanto fazia. Eu sentei.

Vic passou perto da porta das ala de música. Estava falando com Stella, mas olhou para mim, sentado naquela mesa cheio de timidez e constrangimento, e fez um sinal abrindo e fechando sua mão, para que eu falasse com ela. Conversar. Tudo bem.

“Você é de algum lugar por aqui?” perguntei à garota.

Ela balançou a cabeça. Ela estava com um decote, e tentei não ficar encarando os peitos dela.

Eu perguntei, “Qual o seu nome? Me chamo Enn.”

“Wain da Wain” ela respondeu, ou algo que soou como isso. “Eu sou uma segunda.”

http://vidaordinaria.files.wordpress.com/2009/07/wain.jpg

“Isso é, hm, isso é um nome diferente.”

Ela me encarou, com olhar inconstante. “Isso indica que minha progenitora também se chamava Wain, e que eu sou obrigada a me reportar a ela. Eu talvez não procrie.”

“Ah. Bem, é meio cedo para isso, de qualquer forma. Não é?”

Ela soltou as mãos, levantou acima da mesa e esticou os dedos. “Você vê?”

O mindinho da sua mão esquerda estava meio torto e bifurcado no alto, se dividindo em duas pequenas pontas do dedo. Uma pequena deformidade. “Quando eu fui concluída, uma decisão foi necessária. Seria eu mantida ou eliminada? Eu tive sorte que a decisão era por minha conta. Agora eu viajo, enquanto minhas irmãs mais perfeitas continuam em casa, em inércia. Elas eram primeiras. Eu sou uma segunda. Em breve devo retornar à Wain e contra a ela tudo que vi. Todas as minhas impressões desse seu lugar.”

“Eu não moro de verdade aqui em Croydon”, eu disse. “Eu não vendo daqui.” Eu estava imaginando se ela era americana. Não tinha a menor idéia do que ela estava falando.

“Como você diz,” ela concordou, “nenhum de nós vem daqui.” Ela dobrou sua mão esquerda, a de 6 dedos, por trás da direita, como se estivesse tirando de vista. “Eu esperava que fosse maior, mais limpo e mais colorido. Mas ainda assim, é uma jóia.”

Ela bocejou e cobriu a boca com a mão direita, apenas por um instante, antes de colocar na mesa novamente. “Eu estou cansando de viajar, e às vezes gostaria que isso acabasse. Numa rua do Rio durante o Carnaval, e os vi em uma ponte, dourados e altos, com olhos de inseto e asas, e eu quase corri alegre para saudá-los, até que eu vi que eram apenas pessoas fantasiadas. E perguntei à Hola Colt, ‘Por que eles tentam tanto parecer como a gente?’ e ela respondeu, ‘Porque eles odeiam a si próprios, todas as tonalidades de rosa e marrom, tão pequenas.’ É o que reparo, até mesmo eu, que não sou crescida. É como um mundo de crianças, ou de elfos.” Aí ela sorriu e disse, ” Foi uma coisa boa que nenhum deles pudesse ver Hola Colt.”

“Hm,” eu disse, “você quer dançar?”

Ela balançou a cabeça imediatamente. “Não é permitido,” disse. “Eu não posso fazer nada que possa causar danos à propriedade. Eu sou uma Wain.”

“Quer beber alguma coisa, então?”

“Água,” ela disse.

Eu voltei à cozinha e me servi com mais Coca, e enchi um copo com água do filtro. Da cozinha até o corredor, e de lá até a sala de música, que agora estava vazia.

Imaginei se a garota tinha ido ao banheiro, e se ela mudaria de idéia sobre dançar mais tarde. Fui de volta ao salão principal e o encarei. O lugar estava enchendo. Havia mais garotas dançando, e vários rapazes que eu não conhecia e que pareciam alguns anos mais velhos que eu e Vic. Os rapazes e garotas mantinham uma certa distância, mas Vic estava segurando a mão de Stella enquanto dançavam, e quando a música terminou, ele colocou o braço em volta dela, quase como se fosse sua propriedade, para ter certeza que ninguém interferiria.

Me perguntei se a garota com quem conversei na sala de música estaria agora no segundo andar, já que ela parecia não estar no térreo.

Fui até a sala de estar, que era do outro lado do corredor, e sentei no sofá. Já havia uma menina sentada lá. Ela tinha cabelo escuro, curto e meio espetado, e um jeito meio nervoso.

Conversar, eu pensei. “Hm, esse copo está sobrando”, eu disse a ela, “se você quiser…” Ela assentiu e esticou a mão para pegar o copo, com muito cuidado, como se não estivesse acostumada a pegar coisas, e como se não confiasse nem em sua visão nem em suas mãos.

“Eu adoro ser uma turista,” ela disse, e sorriu hesitante. Ela tinha uma fenda entre os dois dentes da frente, e bebeu a água em pequenos goles, como se fosse um adulto tomando um vinho fino.

“Na última excursão, fomos até o sol, e nadamos no fogo solar com as baleias. Ouvimos suas histórias e nos arrepiamos com o frio dos lugares distantes, e aí nadamos mais para o fundo, onde o calor nos aqueceu e confortou. Eu queria voltar. Dessa vez, eu queria. Tinha tanta coisa que eu não havia visto. Mas em vez disso, viemos para esse mundo. Você gosta?”

“Gosto do que?”

Ela gesticulou vagamente para o cômodo - o sofá, as poltronas, cortinas, lamparinas.

“É legal, eu acho.”

“Eu disse a eles que não queria visitar esse mundo,” ela falou. “Meu pai-professor não se comoveu. ‘Você tem muito a aprender,’ disse. Eu falei, ‘Poderia aprender mais no sol, de novo. Ou nas profundezas. Jessa teceu redes entre galáxias. Eu queria fazer isso.’ Mas não havia discussão, e acabei vindo para o mundo. Pai- professor me cercou e aqui eu estava, incorporada nessa maçaroca de carne pendurada em uma moldura do cálcio. Assim que eu encarnei, senti coisas bem dentro de mim, fluindo e bombando e esguichando. Foi minha primeira experiência empurrando ar pela boca vibrando as cordas bocas no percurso, e eu costumava dizer ao pai-professor que desejava que eu tivesse morrido, o que era uma conhecida estratégia de saída desse mundo.”

Haviam pulseiras de contas enroladas no pulso dela, e ela brincava com elas enquanto falava. “Mas existe conhecimento lá, na carne,” disse, “e eu resolvi aprender com ela.”

http://vidaordinaria.files.wordpress.com/2009/07/garota.jpg

Nós estávamos sentados próximos no centro do sofá agora. Eu decidi que devia colocar o braço ao redor dela, mas casualmente. Estenderia o braço pelas costas do sofá e eventualmente o baixaria, quase imperceptivelmente, até tocá-la. Ela disse, “Aquela coisa com o líquido nos olhos, quando o mundo fica borrada. Ninguém me explicou, e eu não entendo. Eu toquei as dobras do Sussuro e pulsei e flutuei com os cisnes de Tachyon, e ainda assim não entendo.”

Ela não era a menina mais bonita ali, mas parecia ajeitada o suficiente, e era uma garota, de qualquer forma. Eu deixei meu braço deslizar um pouco, cuidadosamente, de forma que eu fizesse contato com seu ombro e ela não me dissesse para tirar.

Vic me chamou naquela hora, da porta. Ele estava em pé com o braço em torno de Stella, acenando para mim. Eu tentei fazê-lo perceber, balançando minha cabeça, que eu estava no meio de algo, mas ele chamou meu nome e eu, relutantemente, levantei do sofá e fui até a porta. “O que foi?”

“Err… olha. A festa,” disse Vic, em tom de desculpa. “Não é a que eu achei que fosse. Eu estava conversando com Stella e cheguei a essa conclusão. Bem, ela meio que explicou pra mim. Nós estamos em uma festa diferente.”

“Caramba. E estamos ferrados? Vamos ter que ir embora?”

Stella negou com a cabeça. Ele reclinou e a beijou, gentilmente, nos lábios. “Você está apenas feliz de me ter aqui, não está, querida?”

“Você sabe que estou”, ela respondeu.

Ele olhou das costas dela até mim, e sorriu seu sorriso branco: inescrupuloso, adoráveis, meio Artful Dodger, com uma pitada de Príncipe Encantado. “Não se preocupe. Elas são todas turistas aqui de qualquer forma. Um intercâmbio estrangeiro, saca? Como da vez que fomos todos pra Alemanha.”

“Ah, é?”

“Enn, você precisa falar com elas. E isso significa que precisa ouvi-las também. Você entendeu?”

“Eu entendi. E já conversei com duas delas.”

“Está chegando a algum lugar?”

“Eu estava, até você me chamar.”

“Foi mal por isso.Olha, eu só queria te inteirar das coisas. Tudo bem?”

E deu um tapinha no meu braço, se afastando com Stella. Aí, juntos, os dois subiram as escadas.

Entenda, todas as garotas da festa, à meia-luz, eram adoráveis; tinham rostos perfeitos, mas, mais importante que isso, tinham uma certa proporção de estranheza, uma esquisitice ou humanidade que tornam uma beleza maior do que a de um manequim.

Stella era a mais bonita de todas, mas ela, claro, era do Vic, e eles estavam subindo juntos, e isso era simplesmente como as coisas sempre seriam.

Haviam vários pessoas sentadas no sofá agora, conversando com a garota com abertura no dente.

Alguém contou uma piada e todos riram. Eu teria que forçar a barra para sentar do lado dela novamente, e não parecia que ela estivesse me esperando de volta, ou se importasse que eu tivesse saído, e então eu vaguei de volta até o corredor. Espiei as pessoas dançando e me peguei imaginando de onde a música estava vindo. Eu não conseguia ver nenhuma vitrola ou caixas de som.

De lá voltei à cozinha.

Cozinhas são sempre uma boa em festas. Você nunca precisa de uma desculpa para estar ali e, no lado positivo, nessa festa não havia nenhum sinal de alguma mãe presente. Eu dei uma olhada em várias garrafas e latas na mesa, e me servi com dois dedos de Pernod no copo plástico, o qual completei com Coca. Botei mais dois cubos de gelo e tomei um gole, saboreando o doce acentuado da bebida.

“O que você está bebendo?” Era uma voz de garota.

“É Pernod,” eu contei. “Tem gosto de anis, só que alcoólico.” Eu não disse que só experimentei porque ouvir alguém na multidão pedir por um Pernod num LP ao vivo do Velvet Underground.

“Posso tomar um?” Eu servi outro Pernod com Coca e passei a ela.

Seu cabelo era um ruivo cobreado, e caía em cachos por sua cabeça. Não é um penteado que você vê muito hoje em dia, mas era bem comum naquela época.

“Qual seu nome?” perguntei.

“Triolet,” ela respondeu.

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“Nome bonito,” eu disse a ela, embora não tivesse certeza de que fosse. Mas ela era bonita, no entanto,

“É uma estrofe,” ela disse orgulhosa. “Como eu.”

“Você é um poema?”

Ela sorriu e olhou para baixo e para os lados, talvez tímida. O perfil dela era quase reto - um nariz perfeitamente grego, que desceu de sua testa em uma linha reta. Nós fizemos Antígona no teatro do colégio no ano anterior. Eu era o mensageiro que levava a Creonte as notícias da morte de Antígona. Usávamos máscaras que nos fazia parecer assim. Eu lembrei da peça, olhando para o rosto dela, na cozinha, e também lembrei dos desenhos femininos de Barry Smith nos gibis do Conan: cinco anos depois eu teria pensado em Pré-Rafaelitas, em Jane Morris e Lizzie Siddal. Mas eu só tinha quinze anos ali.

“Você é um poema?” repeti.

Ela mordeu seu lábio inferior. “Se você quiser, eu sou um poema, ou sou um padrão, ou uma corrida de pessoas cujo mundo foi tragado pelo mar.”

“Não é difícil ser três coisas ao mesmo tempo?”

“Qual o seu nome?

“Enn”

“Então você é Enn,” ela disse. “E você é macho. E você é bípede. Não é difícil ser três coisas ao mesmo tempo?”

“Mas não são coisas diferentes. Quer dizer, não são coisas contraditórias.” Era uma palavra que eu havia lido várias vezes, mas nunca tinha dito em voz alta antes daquela noite, e eu coloquei ênfase nas sílabas erradas. Contraditório.

Ela usava um vestido fino feito de um tecido branco sedoso. Os olhos eram de um verde pálido, uma cor que me faria agora pensar em lentes de contatos; mas isso foi trinta anos atrás; as coisas eram diferentes então. Eu lembro de imaginar sobre Vic e Stella, lá em cima. A essa hora, tinha certeza que estavam em um dos quartos, e eu invejei tanto Vic que quase doía.

Ainda assim, eu estava conversando com essa garota, e mesmo que estivéssemos falando baboseiras, e mesmo que o nome dela não fosse realmente Triolet (minha geração não tinha nomes hippies: todos os Arcos-íris, Raios-de-Sol e Luas tinham apenas seis, sete ou oito anos naquela época).

Ela disse, “Nós sabíamos que acabaria logo, então colocamos tudo em um poema, para contar ao universo sobre quem fomos, e porque estivemos aqui, e o que dissemos e fizemos e pensamos e sonhamos e ansiamos. Embrulhamos nossos sonhos em palavras e padrões de palavras de forma que eles vivessem para sempre, inesquecíveis. E aí enviamos o poema como um padrão de fluxo, para esperar no coração de uma estrela, irradiando a mensagem em pulsos e explosões e ondas ao redor do espectro eletromagnético, até a hora em que, em mundos a mil sóis de distância, o padrão seria decodificado e lido, e se tornaria um poema uma vez mais.”

“E o que aconteceu?”

Ela me olhou com os olhos verdes, e era como se me encarasse a partir da sua máscara de Antígona; mas como se seus olhos verdes pálidos fossem diferente, mais profundos, parte da máscara. “Você não pode ouvir um poema sem que ele mude você,” disse. “Eles ouviram, e ele os colonizou. Os herdou e os habitou, com seu ritmo se tornando parte da forma como eles pensavam; suas imagens permanentemente transformando suas metáforas; seus versos, sua perspectiva e suas aspirações se tornando suas vidas. Em uma geração seus filhos nasceram já sabendo o poema, e cedo ou tarde, como as coisas são, não haviam mais crianças para nascendo. Isso não era necessário, não mais. Havia apenas o poema, que tomou forma e andou e se esticou através da vastidão do conhecimento.”

Eu me aproximei bem dela, de forma que podia sentir minha perna pressionando a dela.

Ela parecia receptiva a isso: colocou sua mão no meu braço, afetivamente, e eu senti um sorriso se alargando em meu rosto.

“Existem lugares onde somos bem-vindas,” disse Triolet, “e lugares onde somos consideradas ervas daninhas, ou doenças, ou algo que deve ficar em quarentena e ser eliminado. Mas onde o contágio termina e a arte começa?”

“Não sei”, eu disse, ainda sorrindo. Eu conseguia ouvir a música estranha enquanto pulsava, dispersava e estourava no salão.

Ela se inclinou até mim e - suponho que fosse um beijo… suponho. Ela pressionou seus lábios nos meus lábios, de qualquer forma, e aí, satisfeita, recuou, como se tivesse me marcado como seu.

“Você gostaria de ouvir?” perguntou, e eu assenti, incerto do que ela estava me oferecendo, mas com a certeza de que eu precisava de qualquer coisa que ela estivesse disposta a me dar.

Ela começou a sussurrar algo no meu ouvido. É a coisa mais estranha a respeito de poesia - você consegue notar que é poesia até mesmo se você não fala o idioma. Pode ouvir a Ilíada de Homero sem entender uma única palavra, e ainda assim sabe que é poesia. Já ouvira poesia polonesa e poesia esquimó. E eu sabia o que era, sem saber na verdade. O sussurro dela era como isso. Eu não conhecia a língua, mas as palavras mergulhavam através de mim perfeitamente, e na minha mente eu vi torres de cristal e diamante/ e pessoas com olhos do verde mais pálido; e, sem parar, por trás de cada sílaba, eu podia sentir o implacável avanço do oceano. Talvez eu a tenha beijado adequadamente. Não lembro. Só sei que eu quis.

E aí Vic estava me sacudindo violentamente. “Vamos lá!” ele estava gritando. “Rápido. Vamos lá!”

Na minha cabeça, comecei a voltar de milhares de quilômetros de distância.

“Seu idiota, vamos lá. Vamos andando logo,” ele disse, e me xingou. Havia fúria na sua voz.

Pela primeira vez naquela noite, eu reconheci uma das músicas tocadas no salão principal. Um lamento triste no saxofone seguido de uma sequência de corda e uma voz de homem cantando uma letra sobre os filhos da era silenciosa. Eu queria ficar e ouvir a música.

Ela disse, “Eu não terminei. Ainda tem mais de mim.”

“Desculpa, amor,” disse Vic, mas ele não sorria mais. “Vai ter outra hora,” e me agarrou pelo ombro e me puxou, me forçando para fora do cômodo. Não resisti. Eu sabia por experiência própria que Vic poderia me espancar se colocasse isso na cabeça. Ele não o faria a menos que estivesse chateado ou emputecido, mas ele estava bem puto agora.

Corredor da frente. Enquanto Vic puxava a porta para abrir, olhei para trás uma última vez, por cima do ombro, esperando ver Triolet na porta da cozinha, mas ela não estava lá. Vi Stella, no entanto, no alto das escadas. Ela estava olhando para Vic, e eu vi seu rosto.

Isso tudo aconteceu trinta anos atrás. Eu esqueci de muita coisa, e vou esquecer de ainda mais, e no fim vou esquecer de tudo; no entanto, se eu tenho qualquer certeza sobre a vida após a morte, tudo se resume não a salmos ou hinos, mas apenas nessa coisa: eu não posso acreditar que eu algum dia esquecerei esse momento, ou esquecerei a expressão no rosto de Stella enquanto ela via Vic se apressando para longe dela. Até na morte eu lembrarei disso.

Suas roupas estavam dessarumadas, e tinha a maquiagem manchada pela face, e seus olhos -

Você não gostaria de deixar um univers0 bravo. E eu aposto que um universo bravo olharia você com olhos assim.

Nós corremos então, eu e Vic, para longe da festa dos turistas e da escuridão. Corremos como se uma tempestade de raios estivesse atrás da gente, como se uma houvesse uma grande confusão nas ruas, atravessando um labirinto, e não olhamos para trás, e não paramos até que não pudéssemos respirar; e aí paramos e tomamos fôlego, incapazes de correr mais. Estávamos com dor. Nos seguramos em um muro e Vic vomitou, bastante e por muito tempo, na sarjeta.

Ele limpou sua boca.

“Ela não era uma- ” Ele parou.

Balançou a cabeça.

E aí disse, “Você sabe… eu acho que tem uma coisa. Quando você vai até onde você ousa. E se você vai um pouco além, você não é mais você mesmo? Você é a pessoa que fez aquilo? Os lugares onde você simplesmente não pode ir… Eu acho que isso aconteceu comigo essa noite.”

Eu acho que sabia do que ele estava falando. “Comer ela, você diz?” eu falei.

Ele me socou com força na têmpora, e rodei violentamente. Me indaguei se teria que brigar com ele - e perder - mas depois de um momento, ele baixou a mão e se afastou de mim, fazendo um barulho baixo, engolindo a seco.

Eu olhei para ele curioso, e percebi que estava chorando: seu rosto estava vermelho, com ranho e lágrimas rolando pelas bochechas. Vic estava soluçando na rua, como um garotinho desprotegido e de coração partido.

Ele se afastou de mim então, com ombros pesando, e se apressou pela rua de forma que ele estivesse bem a frente e eu não pudesse mais ver seu rosto. Me indaguei do que pudesse ter acontecido naquele quarto lá em cima para fazê-lo agir assim, para assustá-lo tanto, e não tinha a menor idéia de por onde começar a imaginar.

As luzes da rua se acenderam, uma a uma; Vic tropeçava a frente, enquanto eu andava devagar atrás dele no anoitecer, minhas passadas seguindo a métrica do poema que, por mais que eu tentasse, não poderia lembrar propriamente, e jamais seria capaz de repetir.

Responses

  1. Anônimo
    16 de março de 2010 15:20

    que porcaria

  2. Anônimo
    16 de março de 2010 15:20

    que porcaria

  3. Anônimo
    16 de março de 2010 15:21

    tava procurando coleytivos e nao essa merda

  4. Anônimo
    16 de março de 2010 15:21

    tava procurando coleytivos e nao essa merda