Uma Crônica de Segunda #15

segunda-feira, 2 de abril de 2012 | Published in | 0 comentários

            Tem dias que são assim. Sem nem saber ao menos o por que, acordei me sentindo estranho. Era uma sensação de que algo estava fora do lugar, como se eu estivesse sentindo falta de algo que eu nunca conheci, algo inexplicável, algo distante que por breves momentos esteve em minhas mãos e eu não fui capaz de agarrar com todas as minhas forças e agora passarei o resto da minha vida correndo atrás de saber o que eu perdi...
            Essa sensação parece inexplicável, ou pelo menos parecia. Após pensar um pouco eu descobri o que aconteceu para que eu me sentisse assim tão estranho. Com toda certeza Morpheus me encontrou ontem e não sei porque eu acabei tomando a maldita pílula azul. 

Doce Vingança

sexta-feira, 30 de março de 2012 | Published in | 2 comentários

            Era mais um dia de audiências na justiça do trabalho. Como é absolutamente normal, as audiências estavam atrasadas e isso gerava uma certo mal estar na sala de espera, afinal de contas, constantemente a parte Autora da ação ficava obrigada a ficar no mesmo ambiente que a parte ré, e quando havia uma certa inimizade oriunda da relação de trabalho o clima sempre ficava meio tenso. Pareciam que os segundos se arrastavam e o relógio quase ia para trás, mas o tempo sempre passa, mesmo devagar, e pelo alto-falante as partes foram chamadas para a audiência, era hora da conciliação.
            Era um caso de assédio moral no trabalho. O autor da ação, chamado na justiça do trabalho de Reclamante, era um senhor com cerca de 40 anos tinha uma expressão cansada e amargurada no rosto, parecia muito magro, como se não dormisse bem há muito tempo, tinha os olhos fundos e uma pele ressecada. Ele entrou na sala de audiência seguido por seu advogado. Logo após, entrou na sala de audiência o representante do réu e seu advogado.
            Normalmente, as empresas grandes como aquela que era ré no processo, mandam representantes para as audiências da justiça do trabalho. Naquele caso era diferente. Quem acompanhava o advogado era um homem de óculos grossos cujos cabelos começavam a rarear, era magro mas não cadavérico, e meio pálido como se não visse muito a luz do sol, trajava um excelente terno que parecia ser feito sob medida. Ele com certeza não era apenas um “preposto”, ali estava presente o dono da empresa ré. E cabe esclarecer aqui que na justiça do trabalho o réu era chamado de Reclamado.
            As partes se sentaram e foi iniciada uma tentativa de acordo. Mas havia uma tensão no ar, o dono da empresa estava com um leve sorriso no rosto e olhava diretamente nos olhos do autor do processo. Isso era uma provocação, velada, mas incisiva, que somente aqueles dois entendiam. O juiz, sentado em sua cadeira, lia algumas páginas do processo para melhor se inteirar do que acontecia e por fim perguntou:
- Há alguma possibilidade de acordo?
            O dono da empresa, se antecipando ao advogado, simplesmente disse que não havia a menor possibilidade de acordo, e mantinha aquele sorriso provocador nos lábios. Nessa hora, o Reclamante não agüentou e explodiu:
- EU TE ODEIO! Você acaba com a minha vida e mesmo assim chega aqui sem nenhuma proposta de acordo? Você é um tremendo canalha.
Não adiantou o juiz pedir calma para aquele homem, ele parecia estar claramente transtornado. O reclamante tremia com uma raiva que estava contida já tinha muito tempo, estava quase chorando em meio a uma sala de audiência lotada de jovens estudantes de direito. Com um certo custo, o juiz, que se mantinha calmo mas firme, juntamente com o advogado do Reclamante, conseguiram fazer com que este se acalmasse.
Nessa hora, o dono da empresa, pediu a palavra. O juiz relutou, mas o Reclamado disse que era importante e que poderiam resolver o processo ali mesmo, no que o juiz assentiu. Então ele disse:
- Sim excelência, não tem acordo nesse processo unicamente porque eu irei pagar exatamente a quantia que ele pediu na petição inicial.
            E assim pegou um talão de cheque e começou a preenchê-lo, sob os olhares perplexos de todas na sala de audiência. Cabe aqui lembrar que era uma quantia alta, e aquele homem preenchia o cheque como se aqueles valores não lhe fizessem a menor diferença.
            O juiz nunca havia visto uma cena como aquela, e se viu obrigado a perguntar, movido por uma curiosidade incontrolável, o que havia feito aquele homem acatar o pedido do Reclamante sem nem mesmo tentar reduzir o valor a ser pago. Nisso, o Reclamado, com calma e uma certa elegância orgulhosa respondeu:
- Excelência, eu sempre fui considerado um nerd, um fracassado, looser, cdf, e qualquer outros desses adjetivos que são muito comuns em colégios de ensino médio. Sempre fui alvo de gozações, brincadeiras de mal gosto, o tal do bullying que se fala hoje em dia. O Reclamante com certeza não se lembra de mim, mas eu com certeza me lembro dele pois, durante todo o meu ensino médio a pessoa que mais me humilhou foi ele. Por várias vezes tive vontade de chorar, de matá-lo, de me matar ou de nunca mais voltar ao colégio de novo. Mesmo depois de ter saído do colégio, o rosto dele e as humilhações me perseguiam. Demorei anos para voltar a ter confiança em mim mesmo de novo. Mas o tempo passou, me formei, abri minha empresa que atualmente está passando ao largo de toda essa crise econômica mundial. A uns anos atrás, qual não foi a minha surpresa quando o currículo desse homem chegou na minha mesa. Eu me lembrava dele, de seu rosto, das humilhações... Ele com certeza não era qualificado, mas eu resolvi contratá-lo unicamente para devolver tudo o que ele fez comigo. E nos últimos 5 anos fiz questão de fazer isso, transformei a vida dele num inferno. Sempre tratei bem meus funcionários, ele era o único que não. Era humilhado, cobrado, exposto, ridicularizado em tudo que fazia, exatamente como ele fez comigo a vários anos atrás. Se para devolver tudo que sofri tenho que pagar essa quantia, o faço com muito prazer, pois valeu cada centavo.
            A perplexidade era geral. Ninguém na sala era capaz de dizer coisa alguma. O juiz, muito sério, mandou seu assistente redigir a ata, mas resolveu tentar moralizar a conduta do Reclamado:
- Sr. Creio que essa não foi a melhor forma de resolver o problema. Sua atitude foi horrível em guardar rancor por tantos anos de algo que era feito por meras crianças.
            Nisso, o Reclamante retrucou, mas de forma educada:
- Ora excelência, e se o sr. pudesse humilhar todas as pessoas que já te fizeram algum mal na vida? O senhor faria isso? Eu apenas agarrei a oportunidade que a vida me deu. Acho que a maioria das pessoas faria o mesmo que eu.
            A ata da audiência havia ficado pronta. Todos se mantinham ainda num silêncio perplexo. O Reclamado se levantou, assinou a ata de audiência, entregou o cheque ao Reclamante, e ainda com o seu elegante sorriso disse a ele:
- Tenha uma boa vida.
            E assim o Reclamado saiu da sala de audiência, com um doce sabor de vingança dentro de si e um sorriso incontido nos lábios.

Uma Crônica de Segunda #14

segunda-feira, 26 de março de 2012 | Published in | 0 comentários

Alguns livros me deixam deprimido quando eu termino de lê-los. Não porque a história seja triste, mas simplesmente porque terminar de ler o livro faz com que você nunca mais veja aquela história de forma inédita de novo. A empolgação de ler cada página, a vontade de ler cada vez mais para se chegar ao final da história, tudo isso termina na última página do seu livro. E não adianta tentar ler novamente, nunca mais será a mesma coisa.
Passei a classificar os livros em bons, médio ou ruins, baseado no quanto eles me dão essa sensação descrita acima. E “Jogador N.º 1” de Ernest Cline conseguiu me dar essa sensação com uma força como a muito tempo não sentia.
Esse livro me deixou obcecado. Pelo tempo que demorei para lê-lo, eu não conseguia pensar em mais nada. O trabalho era difícil, os estudos eram difíceis, e o livro ficava ali, ao meu lado, como uma ameaça para que eu nunca o deixasse e como um convite sedutor para que eu largasse tudo e o lesse.
E ao final, quando fechei a última página, uma tremenda sensação de tristeza e solidão se abateu sobre mim. Senti que perdia um grupo de amigos, com uma história que jamais seria inédita para mim de novo. E ao final, o único consolo que tenho é saber o quanto o livro me divertiu e a obrigação de fazer com que mais pessoas se tornem fãs dele.
Creio que para finalizar, um resumo da história se faz bem. Não é o suficiente para descrever a minha empolgação com a obra, mas serve de aperitivo para os que aceitarem essa minha recomendação.
(Sinopse do Submarino): Um mundo em jogo, a busca pelo grande prêmio.Você está preparado? O ano é 2044, e o mundo real está numa terrível situação!

Como a maioria das pessoas, Wade Watts escapa de sua desanimadora realidade passando horas e horas conectado ao Oasis, que é uma utopia virtual que permite a seus usuários ser o que eles quiserem, um lugar onde você pode viver e se apaixonar em qualquer um de seus milhares de planetas. 

E, como a maioria da humanidade, Wade sonha em encontrar o grande prêmio que está escondido nesse mundo virtual. Em algum lugar desse playground gigante, o criador do Oasis escondeu uma série de enigmas que premiará com uma enorme fortuna e um poder muito grande aquele que conseguir desvendá-los.

Durante anos, milhões de pessoas tentaram, sem sucesso, encontrar esse prêmio, sabendo apenas que os enigmas de Halliday se baseiam na cultura pop da época que ele adorava: o fim do século XX. E, durante anos nessa busca, milhões descobriram outra válvula de escape, estudando de modo obsessivo os símbolos de Halliday. Como muitas pessoas, ele discute os detalhes da obra de John Hughes, joga Pac-Man e canta as músicas do Devo enquanto ganha terreno no Oasis, assim encontrando o primeiro desafio. 

De repente, o mundo todo se volta para acompanhar seus passos, e milhares de competidores se unem na busca, entre eles, jogadores poderosos e dispostos a cometer assassinatos para tirar Wade do caminho. Agora, a única maneira de Wade sobreviver e proteger tudo que ele conhece é vencer, mas para isso, talvez tenha que deixar para trás sua perfeita existência virtual e encarar a vida no mundo real do qual ele sempre fugiu desesperadamente.

A avó da minha irmã morreu

sexta-feira, 23 de março de 2012 | Published in | 0 comentários

É absolutamente normal a reunião de grupos de amigos em colégios, e mais normal ainda é que esses grupos marquem de se reunir fora do colégio. Toda a história começou com uma conversa para saber onde aquele grupo de três amigos, adolescentes,  iriam passar a tarde jogando vídeo-game. Os nomes não importam muito, afinal de contas os assuntos ali falados poderiam acontecer em milhares de locais diferentes e em nenhum deles essa história mudaria uma única vírgula.
Quem começou com a idéia de passar a tarde jogando era algo que nem mesmo eles sabiam. Só sabiam que ainda não tinha decidido onde iriam fazer isso. Viraram para o primeiro deles, o que tinha mais espaço em casa e, mais importante, não dividia quarto com ninguém. Por esse motivo a casa dele costumava ser o local mais comum para a jogatina eletrônica. Porém garoto respondeu:
- Dessa vez não dá. Ta um clima chato lá em casa. A avó da minha irmã morreu e vocês sabem como é, né?
            Os outros dois amigos se solidarizaram, e prontamente disseram que sentiam muito pelo que havia acontecido com a avó do primeiro. E esse primeiro, também prontamente, respondeu:
- Não, não foi minha vó que morreu. Foi a vó da minha irmã. Minha irmã é filha da minha mãe com o meu padrasto, e quem morreu foi a mãe do meu padrasto. Ou seja, ela era só avó da minha irmã.
            “ahhh” dito em tom de compreensão foi a resposta dos outros amigos.
            Então olharam para o segundo deles, que não tanto quanto o primeiro, também tinha em sua casa uma jogatina de vez em quando. E ele respondeu:
- Não dá. Essa semana eu acabei discutindo com o babaca do namorado da minha mãe. E por causa disso eu estou meio que de castigo sem poder levar ninguém lá em casa e nem jogar vídeo-game lá.
            Outra “ahh” de compreensão foi compartilhada pelos outros dois amigos. E por fim olharam para o terceiro, aquele no qual eles nunca haviam ido jogar na casa. E ele respondeu:
- Também não pode ser lá em casa. Meu pai e minha mãe viajaram e minha vó ta lá em casa. Até ai nada de mais, mas meus pais disseram que eu não podia levar ninguém pra lá enquanto eles não estivessem...
            Mais uma vez o “ahh” de compreensão tomou conta dos outros amigos. Um breve momento de silêncio se abateu. Esse silêncio foi interrompido pelo primeiro, aquele cuja avó da irmã havia morrido, que disse:
- Peraí, você disse que seu pai e sua mãe viajaram? Eles ainda são casados?
            Nessa hora o terceiro, com uma certa naturalidade respondeu que sim, afinal seus pais eram casados a mais de 20 anos já. E nessa hora o segundo, aquele do namorado da mãe, disse:
- Cara que coisa mais estranha. Seus pais ainda são casados. Isso é esquisito pacas...
Os dois primeiros amigos riram. E o primeiro apenas pode se sentir constrangido e ficou em silêncio, afinal de contas ele realmente sabia que fazia parte de uma minoria.   

Uma Crônica de Segunda #13

segunda-feira, 19 de março de 2012 | Published in | 0 comentários

            Algumas pessoas já ouviram falar, outras não, mas uma banda que eu gosto muito é a Banda das Velhas Virgens. Trata-se de uma banda de blues rock formada no interior de São Paulo e que já contam com mais de vinte anos de carreira. As músicas giram sempre em torno dos mesmos temas: sexo, mulher e bebida. É um som divertido, mas muitas pessoas (principalmente mulheres) não suportam, alegando que a banda só faz músicas machistas. Machistas ou não, não é o que mais importa pra essa crônica. O que realmente importa é a sabedoria contida numa determinada música.
            A música que estou falando é “Tudo Que a Gente Faz É Pra Ver Se Come Alguém”. O nome da música é o refrão, repetido a exaustão em todas as estrofes, afinal “a gente toma banho pra ver se come alguém”, “ agente faz a barba pra ver se como alguém”, “tudo que a gente faz é pra ver se come alguém”. Essa frase, recheada de sexo, é a melhor explicação já feita até hoje sobre a criminalidade em todo o Brasil.
            Pode parecer estranho, mas essa frase consegue fazer mais sentido do que dezenas de teses de sociologia discutidas à exaustão em universidades. Pense bem, a partir dos 12 ou 13 anos existe somente um pensamento que ocupa a mente do homem: comer alguém. E isso independe de classe social ou até mesmo de sexualidade. Com essa idade tudo que você quer é comer alguém. Agora pense num bairro pobre, com 13 anos e completamente sem dinheiro comer alguém não é uma das tarefas mais fáceis. E aí quem é que tem dinheiro nesses bairros pobres e, consequentemente, tá sempre comendo alguém? A resposta é óbvia, é o traficante, o bandidão, o dono do morro.
            Ou seja, quem sempre come alguém é o traficante que tem dinheiro. Logo, o maior incentivo para que alguém entre no mundo do crime é a vontade de comer alguém.
            Esqueçam todas as teorias sobre vulnerabilidade social, situação de risco ou o que mais de fala hoje em dia, pois essas teorias não servem de nada e não explicam o que realmente acontece.. Tudo que a gente faz é pra ver se come alguém, inclusive entrar para o mundo do crime. 

Forma Alternativa de Resolução de Conflitos

sexta-feira, 16 de março de 2012 | Published in | 0 comentários

            A idéia por trás de todo o ordenamento jurídico é sugerir uma forma pacífica de resolução de conflitos, contudo essa idéia foi um pouco posta de lado nas primeiras décadas dos anos 2000.
Ninguém sabe ao certo como começou, mas as lendas urbanas contam sobre dois jovens, sócios de uma academia de artes marciais. Como acontece com muitas sociedades, eles brigaram e resolveram encerrar a parceria, mas a forma como a parceria seria encerrada gerou mais discussões do que os motivos que os levaram inicialmente a brigar. Ambos procuraram advogados e, devidamente orientados, começaram a se movimentar para juntar as provas e darem entrada num processo. Porém, ambos sabiam que o processo seria longo, desgastante e cansativo. Um belo dia, ao se encontrarem na academia, que a essa altura já estava fechada, um deles propôs resolverem o conflito com uma luta. O outro, meio relutante acabou topando. Chamaram amigos para servir de testemunhas, contrataram um juiz isento, e sob as regras do MMA resolveram seus conflitos legais. Quem ganhou a luta não importa muito, o importante é que essa história acabou abrindo um precedente.
As pessoas que viram essa luta acharam que aquela poderia ser uma boa forma de resolver um conflito. Podia não ser a mais justa, mas com certeza era mais rápida do que um processo judicial. E assim, a solução de alguns conflitos envolvendo as testemunhas daquela primeira luta acabaram também sendo decididas em cima de um ringue e sob as regras do MMA.
Pouco tempo depois, essa idéia acabou indo parar até mesmo em pessoas que nada sabiam sobre lutas. Essas pessoas acabavam por contratar lutadores profissionais para lutarem por elas, tudo sob regras rígidas. Os combates iam somente até o nocaute dos contendores, afinal se houvessem mortes isso algo bem mais grave.  
Essa forma de resolução de problemas acabou se tornando um meio popular para a solução de controvérsias. Era mais rápido e principalmente não submetia as partes a terem que se deslocar a fóruns onde pessoas que não as conheciam ficavam no alto de um palanque usando uma capa preta e dizendo quem tinha razão. Resolver as coisas em cima de um ringue, seja diretamente ou por meio de um representante, parecia ser mais natural, menos burocrático. Era com certeza algo mais próximo das pessoas do que os protocolos exagerados do judiciário comum. E o mais estranho é que quando as contendas eram resolvidas assim a parte derrotada nunca procurava o judiciário, parecia que um vestígio de honra ainda existia nas pessoas que resolviam os conflitos daquela forma.
Devido a essa simplicidade, as assim chamadas “lutas judiciárias” se tornaram bastante populares. Lutadores profissionais acabavam fazendo um bom dinheiro participando de lutas clandestinas para resolver conflitos em nome de outras pessoas.
A popularidade das lutas judiciárias, após alguns anos, chegou a ponto de que não mais poderiam ser ignoradas. Quase todos os juristas eram unânimes em dizer que era um absurdo se resolver os problemas assim, e em pouco tempo essas lutas foram proibidas. Mas a proibição não coibiu, e o número de lutas só crescia a medida que os velhos processos de papel diminuíam.
Então, após longos anos de discussões acirradas, pareceres contrários e a favor. Foi aprovada a Emenda Constitucional n.º 93, que declarava como sendo uma “legítima forma de solução de conflitos” as lutas judiciárias.
Pouco tempo depois da Emenda, foi aprovada a lei n.º 19.385 que dispunha sobre as formas como a luta judiciária ocorreria. Um decreto regulamentador serviu para unificar as regras, fixando as formas de combate, os limites, os golpes que poderiam ser aplicados e tudo necessário para a preservação dos combatentes e a manutenção das decisões e resultados das lutas.
A OAB, como não poderia deixar de ser, entrou com uma Ação Direta de Inconstitucionalidade contra a lei mencionada acima. Não por achar cruel ou desumana aquela forma de solução de conflitos, mas sim porque as pessoas estavam sendo contratadas para subir ao ringue e representar as partes não eram advogados.
Após alguns meses de discussão, no qual as lutas deveriam ser suspensas (pelo menos oficialmente) o STF firmou posicionamento favorável a tese da OAB. Os lutadores contratados para representar as partes deveriam ser formados em direito e inscritos nos quadros da OAB da localidade em que atuavam. Os lutadores estavam submetidos as mesmas regras que os advogados que trabalhavam com papel e deveriam pagar anualmente sua contribuição para a ordem.
Essa decisão causou um rebuliço nas lutas. Centenas de lutadores correram para se inscrever na primeira faculdade de direito que encontraram. Tentavam de todo modo conseguir se qualificar como estagiários e assim conseguirem uma carteira da ordem compatível com essa condição e poderem voltar aos ringues. Grandes escritórios viram nisso uma oportunidade e passaram a cooptar esses lutadores e a criaram academias dentro do próprio escritório para servirem de base para aqueles que optarem pela “forma alternativa de resolução de conflitos”, expressão pela qual as lutas judiciárias passaram a ser conhecidas. Em outros casos, pequenos escritórios eram abertos no mesmo local que academias de MMA, e assim as pessoas poderiam avaliar se seria melhor uma defesa na justiça comum ou optar pela forma alternativa.

O tempo passa e os seres humanos costumam se adaptar rápido as mudanças sociais, e com essa não foi diferente. Após um período inicial de discussão, a forma alternativa de resolução de conflitos passou a fazer parte do dia à dia da sociedade. Após ser citado, a parte podia optar em procurar um advogado comum ou escolher um “causídico pugnatorum”, como ficaram conhecidos os advogados lutadores (o fato de lutadores em latim ser pugnatorum com certeza influenciou a escolha do nome). Se a outra parte concordasse (essa concordância era condição necessária para que a forma alternativa fosse possível), o julgamento seria feito dentro do ringue. Os autos seriam remetidos para uma vara especializada nesse tipo de conflito e a luta seria agendada. O juiz da luta seria um juiz togado, aprovado em concurso público de provas e títulos que tinha conhecimento tanto em direito quanto nas regras do MMA. A parte poderia escolher entre contratar um desses advogados lutadores ou ela mesma entrar no ringue, o que não costumava ser muito comum nem recomendável.
Se a luta ocorresse dentro das regras, o resultado era irrecorrível. Se o lutador fosse desclassificado por alguma conduta ilegal, era possível recurso para uma turma julgadora que iria analisar se a desclassificação fora correta ou não. Da decisão da turma julgadora cabia recurso apenas para o STF.
Essa forma alternativa de resolução de conflitos trouxe a vantagem de tornar o judiciário um pouco mais acessível e interessante ao cidadão comum. As audiências de luta costumavam ser eventos disputados pelo público, sejam estudantes de direito ou não. As matérias relativas aos pugnatorum eram ensinadas desde a faculdade e a decisão se seria um causídico comum ou lutador era tomada pelo estudante na época de fazer o estágio obrigatório.
De outro lado, essa forma era criticada por juristas mais antigos, além de organizações voltadas para os direitos humanos. Outro problemas era que, as vezes, as lutas eram marcadas para 6 meses após a concordância das partes, o que fazia com que a característica original de rapidez fosse por água abaixo. Mas mesmo assim, as lutas continuaram, e passaram a fazer parte do judiciário como qualquer outra forma de solução de conflitos.

João das Neves nunca tinha acompanhado muito essa questão das lutas judiciárias (ou forma alternativa de resolução de conflitos como os mais técnicos gostavam de chamar). Ele preferia uma boa e velha partida de futebol, e quando via algo sobre as lutas pensava se não seria mais interessante contratar um time de futebol para resolver os conflitos. Contudo, ele não iria mais ficar alheio as lutas por muito tempo.
João tinha alguns apartamentos em seu nome. Todos alugados e lhe dando uma renda razoável que complementava sua aposentadoria de servidor público de nível médio. Mas recentemente começou a ter problemas com um dos seus inquilinos.
Havia alugado um apartamento de dois quartos para um jovem e sua mãe. O jovem era um cara alto e forte, dizia que fazia direito e que pretendia ser um dos tais pugnatorum, mas João nunca ligou muito pra isso. Ele ligava para o fato de que o aluguel estava atrasado já haviam 2 meses. O jovem respondia que não iria pagar o aluguel, pois a parede estava com infiltrações e o apartamento estava mal conservado. Essas afirmações não eram mentiras, mas João não ia arrumar nada no apartamento enquanto o aluguel não fosse pago. E assim formou o impasse.
Não teve outro jeito, João contratou um advogado e entrou com uma ação de despejo por conta do aluguel em atraso. Esse jovem, que ele nunca conseguiu decorar o nome, contestou a ação e fez a proposta de resolver os conflitos nessa forma alternativa. Ao consultar seu advogado, eles avaliaram a possibilidade de aceitar a proposta.
O escritório do advogado de João ficava num prédio de três andares, ou melhor um térreo, um andar acima e um terceiro andar subterrâneo. No térreo ficava uma recepção e algumas salas de reunião. No primeiro andar tinham as salas dos advogados e dos sócios que atuavam em formas mais tradicionais do direito. Já o subsolo era um imenso vão aberto, com o chão todo de tatame, um ringue no meio e diversos sacos de areia espalhados. Lá ficavam os advogado lutadores.
Ao conversar com seu advogado analisaram as vantagens do combate. O rapaz adversário atuava em causa própria, era estagiário num escritório e podia lutar conforme recente entendimento do STF, e aquela seria sua primeira luta. Na mesma categoria de peso que o rapaz, havia no escritório um experiente lutador, pouco passado dos 30 anos, mas com um excelente cartel de “sentenças” favoráveis, havia perdido apenas uma luta. As chances eram boas e a solução assim seria mais rápida que um processo normal.
Aceitaram a proposta e a luta foi marcada para dali 3 meses, um prazo rápido levando em consideração a demora naquela época para a marcação.
No dia, como sempre, as arquibancadas do ringue de audiência estavam lotadas. Vários estagiários e estudantes viam as lutas, alguns advogados esperavam sua vez de entrar no ringue, outro reclamava do fato de que um juiz novato é quem estava conduzindo as audiências.
Após pouco tempo chegou a hora da luta do advogado de João. Ele se levantou, tirou o roupão com o símbolo do escritório e entrou no ringue. O rapaz, seu adversário fez o mesmo.
A luta foi rápida, mas nem por isso menos brutal. O advogado mais experiente massacrou o jovem no ringue. O rapaz teve que ser levado de maca, desmaiado para o serviço médico. E vendo aquela cena, uma súbita sensação de justiça se abateu sobre João. Seu advogado havia ganhado a luta e vendo o jovem ser levado ensangüentado, João teve um único pensamento: “Não é que essa tal de forma alternativa é interessante! Acho que foi feita justiça.”

Uma Crônica de Segunda #12

segunda-feira, 12 de março de 2012 | Published in | 0 comentários

Confesso que não sou fã do Paulo Coelho. Tenho pra mim que as histórias dele são um misto de misticismo, esoterismo, um pouco de história acrescidas de um contexto que ninguém entende, e por ninguém entender direito ele passa a imagem de ser inteligente. Mas recentemente esse mesmo autor que eu gosto de criticar disse algo que sou obrigado a concordar completamente.
Durante toda a movimentação por conta do S.O.P.A., P.I.P.A. e A.C.T.A., Paulo Coelho se posicionou contra esse projetos e disse que não via problemas nas pessoas baixarem seus livros de graça. Em resposta, algumas pessoas disseram que ele não se importava com os downloads ilegais pelo simples fato de já ser rico, e ele prontamente respondeu que escrevia por necessidade, e que o dinheiro veio apenas depois. Acrescentou ainda que mesmo se não ganhasse nada, continuaria escrevendo.
E é nesse ponto que concordo com ele: escrever é uma necessidade. Mesmo com poucas visitas, mesmo passando despercebido, expor as idéias que fervilham na minha mente me incentiva a escrever, mesmo que eu não tenha mais do que 3 leitores habituais. As palavras apaixonam e criá-las é um movimento que simplesmente não pode ser parado.