Amor e Cigarros

sexta-feira, 29 de abril de 2011 | Published in | 0 comentários

Aquele provavelmente era o boteco mais sujo e feio que ele já tinha entrado. Era impressionante: sujo do chão ao teto, paredes mofadas e descascando tanto quanto as velhas mesas de metal espalhadas pelo local, homens gordos e sem camisa tomavam cervejas baratas e falavam alto vendo um jogo de futebol numa televisão velha. Fabiano tinha entrada apenas para comprar uma carteira de cigarros. Um cigarro dos mais fortes para lidar com aquilo que ele sentia.

Tinha andado a esmo por um tempo, dirigindo sem rumo e remoendo antigos pensamentos. No meio desses pensamentos surgiu uma súbita e inesperada vontade de fumar, algo que ele não fazia já tinham 5 anos. Era estranho, porque o motivo pelo qual ele viria a voltar a fumar era exatamente o mesmo motivo pelo qual ele havia parado de fumar...

Quando adolescente, aconteceu a Fabiano o que acontece com qualquer adolescente fã de rock. É difícil não fumar num ambiente onde os seus maiores ídolos são fumantes inveterados e que qualquer ambiente de show possui um ar viciado em cigarros. O tempo passou e o vício foi ficando e se instalando, ao ponto de que a companhia do cigarro estava sempre presente. Amigos e mulheres iam e vinham, mas os cigarros sempre estavam lá com ele, isso é, até ela entrar na vida dele...

Ela era Natália, uma namorada que foi entrando na vida de Fabiano tão sorrateiramente quanto o cigarro havia entrado e que causava tantos problemas quanto este. Namoraram por 5 anos, e ela, por ser asmática, não podia com cheiro de cigarro. As vezes ela passava mal se Fabiano chegasse perto dela com aquele cheiro mais do que característico.

Desse jeito foi difícil o começo do namoro. Fabiano sempre com os cigarros ao seu lado e Natália passando mal até mesmo com a menção da palavra “cigarro”. Acabou que Fabiano, por ser início de namoro, passou só a fumar quando sabia que não iria encontrar com ela. Mas com o tempo, e com eles se vendo cada vez mais, gradualmente Fabiano foi deixando o cigarro de lado até ter totalmente parado. E exatamente no dia em que Fabiano e Natália tinham terminado, ao sair da casa dela, e andando a esmo ainda absorvendo o fim do namoro, ele sentiu a já mencionada súbita vontade de fumar. E foi assim que a relação de Fabiano com o cigarro, que já havia esfriado a anos retornou com força total.

As primeiras tragadas foram diferentes do esperado. Uma sensação da garganta sendo arranhada, a fumaça voltando a entrar nos pulmões, uma tosse que insistia em denunciar que havia tempo que ele não fumava... tudo isso não conseguiu impedir a volta da vontade, e em pouco tempo, a carteira de cigarros voltou a ser a companheira inseparável, quase como um amigo que a muito não se vê mas que quando se encontra com ele de novo parece que a amizade nunca acabou.

E assim continuou a vida de Fabiano e seus cigarros.

O tempo passou, e, como dizem, o tempo é capaz de curar todas as feridas. Contudo, ainda existia dentro de Fabiano uma ferida que parecia estar mal curada, uma ferida que possuía nome: Natália. Pensava muito pouco nela, mas nas poucas vezes que pensava, um sentimento forte, misto de agonia, dor e saudade, ainda lhe brotava no peito. O rosto dela de vez em quando aparecia em meio a fumaça do cigarro expelida por Fabiano.

E foi justamente num dia desses, de saudade repentina e inexplicável, que Fabiano encontrou com Natália. Coincidência, estavam ambos no mesmo bar, cada um com seu respectivo grupo de amigos.Em situações como essa ninguém nunca sabe o que fazer, mas podemos dizer que ambos sentiram a mesma coisa: um susto, seguido por um súbito calafrio, um suor repentino e por fim uma sensação de desconforto enorme. Como não havia outra forma de agir e ambos sabiam que ambos haviam se visto, sobrou apenas a opção de se cumprimentarem. Se cumprimentaram como manda o protocolo, trocaram sorrisos e uma conversa de breves amenidades e, não se sabe por iniciativa de alguém, acabou que ambos continuaram conversando, até que estavam a sós numa das mesas desse bar. O protesto de cada um dos grupos de amigos foi feito, mas por motivos inexplicáveis, tais protestos foram solenemente ignorados.

Natália se sentia bem conversando com Fabiano, somente uma coisa lhe chamava atenção: o maço de cigarros que estava sobre a mesa, ao lado do telefone celular de Fabiano. Ela não conseguia entender, afinal de contas, por várias vezes ela ouvira ele dizer que havia parado de fumar, pelo menos durante o namoro dos dois. Fabiano não conseguiu não perceber o olhar de Natália sobre o já habitual maço de cigarros e nessa hora ele percebeu que ela não sabia da volta de sua “antiga paixão” e assim antigas feridas de Fabiano se abriram de vez. Nessa hora ele pegou o maço de cigarros, olhou para eles, depois olhou no fundo dos olhos de Natália e assim soltou um longo monólogo:

- sabe Natália, eu havia parado de fumar por sua causa. Mas no dia em que terminamos, a primeira coisa que fiz foi comprar um novo maço de cigarros. Ao acender o primeiro, tinha uma sensação estranha... me fez mal, mas aos poucos eu sentia que a medida que soltava a fumaça era como se parte do que sentia por você fosse embora. Você sabia que eu tinha parado de fumar unicamente por sua causa, e durante todo nosso tempo juntos eu não senti mais falta nenhuma de cigarros. Mas foi só terminarmos que a vontade voltou com força total. Desde então voltei a fumar, e o cigarro está comigo sempre. Ele é meu companheiro e a única coisa que as vezes aplaca a dor que eu sinto no meu peito quando penso em você. Ainda sinto um pouco de raiva, de medo, de frustração, mas fumar afasta você da minha mente, afinal era uma das coisas que você mais odiava em mim.

Natália ouviu esse longo discurso, e fitou os olhos de Fabiano. Cabe aqui mencionar uma detalhe, a visão de Fabiano e Natália olhando um para o outro era um pouco desconcertante, afinal Fabiano tinha quase dois metros de altura, pele morena e cabelo sempre raspado, enquanto Natália tinha oficiais um metro e sessenta (sua verdadeira altura era inferior a isso, mas era um mistério nunca desvendado) cabelos castanhos claros e pele branca. Eles pareciam perfeitos opostos quando se encaravam.

Mas voltando a história. Como disse, Natália ouviu atenta o discurso de Fabiano e sua reação foi a mais inesperada possível. Ela se levantou, encaminhou-se em direção ao balcão do bar, sempre sob os olhares atentos de Fabiano. Ela voltou para a mesa, desembrulhou uma embalagem de chiclete, o qual tinha ido buscar no balcão, e colocou na boca de Fabiano e mandou-o mastigar. Ele obedeceu, em pouco tempo ela, com um guardanapo nas mãos, mandou Fabiano cuspir o chiclete fora. Ao cuspir o chiclete, Natália emendou um longo beijo em Fabiano. Fabiano nunca mais fumou novamente.

Infelicidade Compartilhada

domingo, 24 de abril de 2011 | Published in | 1 comentários

Ele estava com sérios problemas. Um relacionamento que ele não gostava, um emprego que ele não queria mais e uma família que lhe acabava com a paciência. O namoro começara e continuara ali, como quem não quer nada, e acabou ficando longo, tedioso, com sentimentos mortos e que somente continuava porque terminar e partir para outra era algo que dava muito trabalho e medo. O trabalho era tedioso, chato, mas pagava as contas e, infelizmente, por este motivo, o obrigava a continuar. E por fim a família, com suas insistentes cobranças de casamento e carreira não lhe davam apoio e somente serviam para aumentar o número de frustrações na qual vivia.

Ela já tinha sido muito bonita, mas o tempo e os problemas ajudaram a levar parte da beleza embora. Já estava formada a alguns anos, mas não conseguia arrumar um emprego. Tudo era sempre ou fora demais de sua área ou algo que ninguém mais queria fazer. Tinha a impressão de que os anos de faculdade haviam sido jogados no lixo e que sua vida seria para sempre uma sucessão de frustrações. Os sonhos da faculdade agora eram estranhas e distantes sombras que agora pareciam inalcançáveis. E comer acabava sendo uma boa forma de escapar dos problemas.

Ele teve a sorte de ser bem nascido. Família tradicional, rica, com bastante influência em diversos órgãos do governo. Toda a sua vida havia sido planejada desde o nascimento: o colégio onde estudou, a faculdade que cursou, o emprego que conseguiu e a rápida promoção que sucedeu. Contudo, ele sabia que quase tudo em sua vida fora escolha de seus pais. Não tinha noção da última vez que havia feito uma escolha por si mesmo, e vivia sem saber se vivia uma vida plena ou se simplesmente vivia por inércia, seguindo aquilo que seus pais indicavam. Havia chegado a uma posição que muitos invejariam, mas nunca teve certeza se era ali que queria estar.

Ela teve um filho jovem, com apenas 16 anos, e por conta disso teve que abrir mão de quase todos os seus planos. Os cursos fora do país, a faculdade em outra cidade, as experiências que teria... tudo tivera que ser jogado por fora por conta de uma gravidez indesejada. Possuía grande apoio de seus pais, mas a gravidez precoce a fez ter que abrir mão de todos os sonhos e se dedicar a outra vida, um filho cujo o pai agora parecia ignorar e a contribuição na criação era uma mísera pensão. O pai de seu filho ainda podia seguir todos os seus sonhos, e ela era obrigada a arcar com o peso da criação do filho.

Ele afogava as mágoas em copos de bebidas e relacionamentos efêmeros. Nada parecia ser permanente, a não ser o trabalho, a única coisa que era estável em sua vida. Tudo lhe era chato, e suas frustrações amorosas o levavam a cada vez mais se concentrar apenas em trabalho e aos poucos ele se afastava das pessoas. Copos de cervejas e mulheres saiam de sua vida, mas o trabalho era constante e cada vez mais saia menos. O trabalho virava sua única válvula de escape.

Os cinco tinham em comum apenas a infelicidade que cercava suas vidas e a amizade que os unia. Os encontros não eram tão freqüentes quanto deveriam nem tão divertidos quanto as lembranças mostravam, mas a amizade que tinham uns com os outros era a única coisa que alivia a infelicidade comum a todos. Juntos eles tinham o único sorriso em muito tempo, a única felicidade em muito tempo e a única real companhia em muito tempo. A amizade entre eles os dava força para continuar, e nas poucas vezes que se viam, os problemas que os cinco possuíam pareciam diminuir em frente a efêmera felicidade que tais encontros causavam.

A infelicidade de todos era compartilhada e assim a pouca felicidade que ainda possuíam e as lembranças desses bons momentos serviam de força para seguirem em frente por mais uma semana.

Cinema

segunda-feira, 4 de abril de 2011 | Published in | 4 comentários

Eu adoro cinema. Não tem jeito, não importa o quanto uma televisão fique grande, a maior TV do mundo nunca irá ser tão legal quanto ver um filme numa sala de cinema. É simples assim, um fato incontestável, a tela grande do cinema é incomparável.

Contudo, esse simples prazer vem se tornando cada vez menos prazeroso. Não que haja alguma coisa errada com o cinema em si, muito pelo contrário, o que atrapalha o cinema hoje em dia é o todo o ritual que agora se tornou obrigatório para se assistir um filme. E esse ritual está tirando toda a graça de ver um filme na tela grande.

Mas que ritual é esse? Você me pergunta, e eu respondo. Mas para isso vamos contar uma pequena história.

Você decidiu sair de casa para ver um filme. Pois bem, os problemas começam antes mesmo de sair de casa, afinal de contas escolher a sessão do filme é parte importante do ritual. Em qualquer filme, se a sessão for antes das 22 horas, você corre o risco de ficar cercado por adolescentes com hormônios em fúria, os quais irão gritar quando verem qualquer cena de beijo, de sexo ou quando um determinado ator e/ou atriz aparecer. Como eu detesto essa gritaria toda, e sei que, por mais bagunça que esses moleques façam o máximo irá acontecer com eles é ter um gerente que gentilmente irá pedir para eles se comportarem, só me resta ter a certeza de que é impossível ver um filme antes das 22 horas sem se irritar. Após as 22 a probabilidade desses problemas ocorrerem é menor, mas ainda existem.

Pois bem, escolhida a sessão das 22 horas, podemos passar a outro problema: ter que sair de casa pelo menos às 20 horas. Sim, duas horas antes. Como não mais existem cinemas que não estão dentro de shoppings, temos sempre que contar com o congestionamento para se chegar ao shopping, afinal não existe shopping em Brasília que não tenha congestionamento para chegar. Após o congestionamento para chegar ao shopping, temos a fila do estacionamento, a fila para comprar ingressos, a fila para entrar na sala de cinema, isso sem mencionar a fila para comprar pipoca a qual eu geralmente deixo de lado, afinal já estou de saco cheio de enfrentar filas.

Depois disso, finalmente podemos sentar para ver o filme. Vamos ignorar completamente o chão sujo e grudento do cinema e o fato de que cada passo é difícil, afinal os pés sempre ficam grudados na sujeira do chão.

Passemos direto pra parte boa, de sentar e ver o filme. Lembro de uma época que só existiam trailers antes do filme, agora é propaganda de bancos e sei lá mais o que. Sério, são quase meia hora de propaganda antes do filme começar de verdade.

Após ver o filme, o qual vamos supor aqui que foi tranqüilo e não teve nenhum imbecil gritando dentro da sala do cinema, vamos a mais filas: para sair da sala de cinema, para pagar o estacionamento, para sair do shopping...

São dezenas de filas para um simples ato de ver um filme. Chegamos ao ponto de que ver um filme no cinema se tornou uma atividade estressante. Precisamos passar por todo esse ritual apenas para vermos um simples filminho.

Sinceramente, depois de tudo isso, ainda tem gente que vem reclamar de pirataria. Um filme pirata me afasta desse ritual moderno e bizarro. Mas eu admito, se resolvessem os problemas acima descritos eu pagaria até o dobro pra ver um filme.

O Primeiro Beijo

domingo, 6 de março de 2011 | Published in | 2 comentários

- quer se casar comigo?

A frase foi dita de forma súbita, seca, sem o mínimo preparo. E justamente por isso ela soou tão autentica. Era algo que já vinha sendo amadurecido no fundo da mente de Carlos, mas até então ele nunca havia pensado em dizê-la, ainda mais dessa forma.

Estavam ele e Mariana, sua namorada de já 4 anos, deitados no sofá, vendo um filme na televisão. Estavam na casa de Carlos, que ainda morava com seus pais, e o filme que viam não fazia a menor referência a casamentos ou a romance. Para falar a verdade, Carlos nem mesmo prestava atenção ao filme. Estava sentindo o cheiro dos cabelos de Mariana, e isso o distraia, e justamente em meio a esse cheiro inebriante que ele, sem nem pensar duas vezes, virou sua namorada para si, de forma que pudesse olhar no fundo dos olhos verdes dela, e soltou a frase que começou toda essa história.

Mariana, simplesmente olhou fundo nos olhos de Carlos, mais profundamente do que ele olhava nos olhos dela. Ela sabia que eles namoravam já a bastante tempo, mas ficou de certa forma desconcertada com a pergunta e principalmente por esta ter acontecido de forma tão súbita. Contudo, respondendo no tom mais natural possível, simplesmente perguntou:

- Por que essa pergunta justamente agora?

- Bem, eu te amo. Namoramos a bastante tempo e agora eu consegui um emprego melhor, ganhando bem melhor. Acho que está na hora de nos casarmos.

Essa resposta de Carlos foi bem direta, e extremamente correta. O casamento sempre foi visto pelos dois como um plano distante, algo a ser discutido e pensado no futuro, quando ambos estivessem melhores consolidados em suas respectivas profissões. Ocorre que o futuro a tanto adiado finalmente chegou e ambos sabiam que casar seria o próximo passo lógico.

Por um tempo ficaram os dois ali, em silencio, olhando nos olhos um do outro. Estranhos pensamentos passavam pela cabeça dos dois. Na de Carlos, ele pensava em como seria sua vida dali em diante, alugar apartamento, comunicar aos amigos, etc. A mente de Mariana estava em outro lugar, distante, e num único pensamento, o qual saberemos mais tarde. Por fim, Mariana respirou fundo, e ainda olhando nos olhos de Carlos disse:

- Preciso de uma semana pra te dar a resposta. Nesse tempo, preciso que você me deixe só. Ao final dessa semana, eu te direi minha resposta.

Dessa vez foi Carlos quem ficou desconcertado. Não esperava por essa resposta, afinal eles estavam juntos a anos, dormiam na casa um do outro e se viam praticamente todo dia. Não haviam motivos para a recusa. Carlos tentou controlar o que sentia, se fechou com suas dúvidas. Ele sempre foi tímido e calado, do tipo que mal conseguia dividir problemas com amigos mais próximos. Além disso, sempre foi muito racional e calmo. E justamente devido a essas duas últimas características é que Carlos também respirou fundo, conteve a frustração e disse:

- Se é o que você precisa, então tudo bem...

Mariana e Carlos se beijaram, de forma simples e rápida. Esse beijo não passou de um simples selo, apenas lábios se tocando. Mariana pegou suas coisas e saiu e ambos não disseram mais nenhuma palavra com o outro durante a semana seguinte.


- Você ainda me ama?

Essa frase foi dita também de forma seca, direta, quase bruta... As mesas ao redor do bar onde estavam pareciam não prestar atenção ao que acontecia naquela mesa, onde uma mulher de profundos olhos verdes olhava fundo nos olhos de um homem de longos cabelos pretos e olhos castanhos. Paulo, esse homem, sentiu as pernas levemente bambas ao ouvir a pergunta de forma tão direta. Jamais imaginava que ouviria aquelas palavras ainda mais depois de tanto tempo. Na verdade Paulo amava Mariana, ou pelo menos já tinha amado... No dia em que se conheceram, ainda no primeiro semestre da faculdade que faziam juntos, Paulo sentiu algo diferente. Mariana vinha pelo corredor, andando e procurando uma determinada sala, ela estava de vestido rosa que realçavam ainda mais o verde de seus olhos e Paulo se apaixonou por ela nesta simples e primeira visão, pois ao vê-la, parecia que não haviam mais de mil calouros ao redor dos dois naquela manhã.

Descobriram que faziam o mesmo curso e uma amizade começou, ou melhor, uma amizade começou para Mariana, pois Paulo, mesmo não acreditando em amores a primeira vista, amava Mariana cada vez mais a cada nova característica dela que conhecia. Na época Paulo namorava, e Mariana acabara de terminar um longo namoro, e nos 10 anos que se conheciam nunca ambos estavam solteiros ao mesmo tempo. Parecia um desencontro programado feito para que nunca desse certo. A amizade dos dois era estranha, mesmo não tendo os mesmos gostos, eram mais parecidos do que imaginavam, chegando quase a completar frases um do outro, ou nem mesmo precisar falar para que um soubesse que o outro estava feliz ou triste. Para Paulo, ver Mariana tornava o dia melhor. E todo esse turbilhão de sentimentos Paulo guardava dentro de si durante todo esse tempo, pois nunca falara para Mariana o que sentia.

A cabeça de Paulo fervilhava. E se perguntava como ela poderia saber? Mas essa pergunta já tinha resposta, que Paulo sempre soube: era impossível não perceber na forma como ele olhava para Mariana. Ela sempre o flagrava olhando pra ela quando no meio de reuniões de amigos eles se encontravam. Era óbvio os sentimentos de Paulo, pelo menos para Mariana. Ela sempre soube, e ele sempre soube que ela sabia. Aqueles olhos verdes eram capazes de ver o mais íntimo dos sentimentos de Paulo, e era isso que fazia com que Paulo amasse mais ainda Mariana.

Nesse momento Paulo respirou fundo, olhou no fundo dos olhos de Mariana, aqueles olhos que ambos sabiam que ele nunca conseguia mentir quando olhava dentro deles, e disse:

- Já amei. Hoje em dia, acho que não mais.

As palavras de Paulo saiam espontâneas e eram ouvidas por Mariana que simplesmente olhava no fundo dos olhos dele. Mariana apenas disse:

- Achava que a resposta seria essa, a forma como seus olhos me olham mudou nos últimos anos.

E realmente mudaram. Não fazia muito tempo, um ano no máximo. Estavam ambos em um churrasco na casa de um amigo em comum. Paulo estava solteiro, e Mariana estava com Carlos. Cabe aqui um adendo: Carlos nunca soube dessa conversa e nunca soube dos sentimentos de Paulo. Carlos até tinha profunda amizade por Paulo assim como Paulo por Carlos.

Voltando a história do churrasco. No fim do dia, todos já estavam meio bêbados e o churrasco chegava ao fim, nessa hora Mariana sentou no colo de Carlos e lhe deu um beijo e passou um tempo olhando pra ele e acariciando seu cabelo, enquanto Carlos encostava seu rosto junto ao peito de Mariana. Era uma cena de carinho, de amor, e de profundo tristeza para Paulo que assistia a tudo. Aquela cena mostrou para Paulo que Mariana nunca olharia para ele daquela forma, e nessa hora a tristeza tomou conta dele e ele ficou remoendo uma série de sentimentos dentro de si. Em pouco tempo Paulo se levantou, avisou a todos que iria embora. Ninguém estranhou por conta do estado de fim de festa. Paulo se levantou, saiu, sentou em seu carro e chorou por saber que nunca teria Mariana olhando para ele daquela forma, mas ao mesmo tempo se sentia bem por saber que alguém a fazia feliz. E chorando ele deu a partida em seu carro, chorando ele dirigiu para casa e nunca mais seus olhos olharam para Mariana do mesmo jeito. Todo o amor que ele tinha pareceu se esvair com cada uma das lágrimas que derramou.

Paulo contou a história acima para Mariana, que ouvia a tudo atenta, esperando pelo desfecho que já contamos. Esse relato expôs os sentimentos de Paulo de forma a qual ele nunca tinha feito em sua vida. Era estranho falar de forma tão aberta sobre um segredo que a muito vinha sendo guardado e que, a medida que ia sendo revelado, perdia a sua importância. Ao fim do relato um profundo silêncio se abateu sobre os dois, um silêncio que não incomodava, mas na verdade parecia aliviar os sentimentos de ambos. No meio desse silencio os olhos pararam de se encontrar, na verdade passaram até mesmo a se desviarem. Uma verdade a muito guardada fora dita, mas mesmo se sentindo aliviado, Paulo não queria olhar nos olhos de Mariana, e Mariana também não se sentia confortável para os olhos de Paulo. E continuaram assim por um tempo, e em silêncio pagaram a conta e saíram do bar onde estavam.

Paulo acompanhou Mariana até o carro dela, ainda em silêncio. Antes de entrar no carro, Paulo e Mariana se olharam novamente, navegando nas profundezas dos olhos de cada um. Seus rostos de aproximaram, eles se abraçaram e finalmente se beijaram longamente. O mundo pareceu parar durante aquele beijo, um beijo que estava a mais de 10 anos sendo aguardado e se consumou num momento único para os dois.

Aquele beijo continha todas as respostas que precisavam. Aquele simples beijo mostrou a ambos que, talvez, se tivesse ocorrido anos antes uma história de amor poderia ter acontecido. Mas infelizmente todas as coisas tem um tempo, e o tempo de ambos havia passado. Poderiam ter sido um casal feliz, mas o tempo para isso já havia ocorrido. Os lábios colados tinham a resposta de que Paulo e Mariana jamais deveriam ficar juntos.

Os lábios de Paulo e Mariana se separaram, mas ainda continuaram abraçados sentindo o calor um do outro. Por fim se separaram de vez. Mariana entrou em seu carro e foi direto para a casa de Carlos, onde aceitou o pedido de casamento.

A amizade de Paulo e Mariana continuou, sendo Paulo padrinho de casamento de Mariana. A prova de que o sentimento entre os dois havia acabado foi o beijo que selou o fim de um amor de uma década e ambos, Paulo e Mariana, foram felizes em suas vidas, ou pelo menos felizes na medida que a felicidade é possível para as pessoas.

vaga na ABL

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011 | Published in | 0 comentários

Neste fim de semana tivemos uma notícia triste para aqueles que admiram a literatura. Apesar de que ler é um hábito cada vez mais raro, a morte de Moacyr Scliar será sentida, mas ele ainda viverá por meio de seus trabalhos.

Conduto, neste momento surge uma questão bem mais mundana do que a falta que um escritor fará. Neste momento a cadeira número 31 da Academia Brasileira de Letras encontra-se vaga.

Tudo bem, eu sei, é cruel. O enterro de Moacyr Scliar será nesta segunda feira e mal o defunto esfriou, já estamos cotando o próximo ocupante de sua cadeira na ABL. Contudo, mesmo assim, pretendo começar aqui uma campanha para o próximo imortal da nossa Academia de Letras.

Minha sugestão é algo que irá revolucionar a literatura brasileira, algo que irá trazer novamente a ABL à tona das discussões na mídia. Minha sugestão é alguém hábil com a poesia cantada, um músico, alguém que tocou o coração das pessoas por meio de suas belas palavras, e com sua fez com que suas palavras se espalhassem com o vento.

Minha sugestão para ocupar a cadeira 31 da Academia Brasileira de Letras é alguém cujo nome não é encontrado nos anais do Google e ele é conhecido apenas pela alcunha de: Avassalador. Isso mesmo, o garoto compositor, músico e arranjador do mega hit “Sou Foda!”.

Eu até mesmo já consigo imaginar a posse dele na ABL. Toda a imprensa filmando, reportagens com flashes ao vivo da Globo, Record, Bandeirantes. E o garoto dos Avassaladores, usando o fardão da ABL, um Nike shox falsificado e o já conhecido boné virado pra lado. Ele sobe na tribuna para seu discurso perante os outros imortais. Todo o Brasil o vê pela televisão. E nessa hora, ele calmamente vira para as câmeras e diz:

- Sou Foda!

Anti-tesão

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011 | Published in | 4 comentários

Em Brasília existe uma longa e larga avenida que corta a parte central da cidade de uma ponta a outra. Esta avenida sai da ponta da Asa Sul e termina na ponta da Asa Norte e é simplesmente conhecida como “Eixão”.

O Eixão é conhecido por conta da facilidade, afinal ele atravessa uma boa parte da cidade e em linha reta. Também é conhecido por ficar fechado aos domingos e a ampla área servir de lazer para os moradores da região. Contudo, de uns tempos pra cá, o Eixão está ganhando uma nova característica: a prostituição.

Estamos falando do baixo (muito baixo mesmo) meretrício. Mulheres com corpos longe de serem esculturais fazendo programas na beira da pista e em horário comercial.

Passando por essa breve explicação, posso contar a coisa terrível que me aconteceu.

Vinha eu dirigindo tranqüilo e faceiro pelo Eixão na Asa Sul quando vi a cena que quase me cegou. Uma dessas mulheres na beira da pista, pra confirmar a regra seu corpo estava longe de ser escultural e para somar a isso, ela, a muito, já deveria ter passado dos 40 anos. Usava uma saia vermelha, de imitação de couro, e um top preto deixando os seios quase à mostra. Não preciso nem dizer que mesmo usando um top extremamente apertado, podia-se perceber que os seios eram bastante flácidos. E para piorar toda a cena, ela, com o intuito de chamar clientes, ficava dançando na beira da pista, e a cada carro que passava ela dava uma reboladinha.

Ver essa cena quase me deixou cego. Nessa hora eu senti o contrário do tesão, algo sem explicação, mas que todos os homens sabem como é. Deveria se chamar anti-tesão, atesão, intesão ou qualquer coisa no mesmo sentido. O fato era que senti o meu, bem... digamos membro viril desintumecer-se. Era quase como se ele tivesse encolhido, entrado para dentro do meu corpo e sido devorado por minhas entranhas. Todos os pensamentos sexuais sumiram de minha mente e nem mesmo a imagem da Kate Perry pulando corda poderia me recuperar num momento como esse.

Segui o meu caminho, descrente na humanidade, sentindo que não havia mais futuro. Cheguei a sonhar, e até mesmo a desejar, um fim do mundo em 2012. Virei em direção ao Setor de Autarquias Sul, ainda sem qualquer fé na humanidade. Nessa hora, parei num semáforo e olhei para o lado. Nessa hora pareceu que tinha sido atingido por um raio e um sorriso voltou a habitar meu rosto. Ela era loira com o cabelo preso numa trança que descia até o meio das costas, usava um desses macacões para academia, peça única, preto, colado ao corpo. Eu podia ver cada contorno de seu corpo, os seios quase saltando para fora do decote, as pernas torneadas, e enquanto ela passava pude ver e bela bunda que gingava de forma a quase me hipnotizar.

Nessa hora, o sinal abriu, segui o meu caminho, levantei as mãos para o céu e disse:

- Obrigado Senhor! Restaurastes minha fé na humanidade.

Quarta de manhã

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011 | Published in | 2 comentários

Mais uma vez a vida me prova de que coisas bizarras tendem a acontecer comigo. Plena quarta feira, vindo pro trabalho, ouvindo o noticiário no rádio e curtindo os (poucos) prazeres de um começo de dia. Como sempre, calor infernal e o vidro fechado juntamente com o ar condicionado do carro se tornam o único alívio pra uma cidade que parece que faz 30° as 8 da manhã.

Mas continuando. Quase chegando ao trabalho, parado no início da W3 norte, no congestionamento nosso de cada dia, para do meu lado um ônibus (não faço idéia de qual companhia, mas era dos amarelos).

Todas as portas e janelas do ônibus estavam abertas. Até aí nada demais, a não ser o motorista do ônibus que começa a gesticular feito um doido na minha direção. Sim, ele conseguiu me chamar a atenção devido a tantos gestos, e eu logo achei que meu pneu estava furado ou algo acontecia no meu carro, afinal sempre pensamos o pior nessas horas. O motorista fez sinal para que eu abaixasse o vidro, o que só aumentou minha preocupação. Assim que abaixei o vidro, o motorista grita:

- Ei. Pra você ver né? A diferença do rico e do pobre é que o pobre abre todas as janelas por causa do calor e o rico fecha as janelas do carro e liga o ar condicionado!.

Nessa hora o motorista começa a rir, e eu começo a rir junto com ele. Não que a piada tenha sido engraçada, mas sim pela situação. Tal fato foi tão bizarro que não me sobra absolutamente nada pra fazer a não ser rir e seguir meu dia. Pelo menos a alegria do motorista ao me contar essa simples piada acabou por deixar meu dia mais divertido.

Definitivamente, algumas coisas só acontecem comigo.