Uma Crônica de Segunda #3
segunda-feira, 14 de novembro de 2011 | Published in | 1 comentários
Trocas
sexta-feira, 11 de novembro de 2011 | Published in | 0 comentários
Uma Crônica de Segunda #2
segunda-feira, 7 de novembro de 2011 | Published in | 0 comentários
Fútil
sexta-feira, 4 de novembro de 2011 | Published in | 0 comentários
Uma Crônica de Segunda
segunda-feira, 31 de outubro de 2011 | Published in | 0 comentários
A Vida Triste
sexta-feira, 16 de setembro de 2011 | Published in | 0 comentários
A vida não tinha sido das mais fáceis para João. Nasceu numa cidade do interior do Ceará, mudou-se para São Paulo quando criança, pois o pai buscava um emprego melhor do que a lida na roça. Trabalhou de pedreiro a vida inteira, acordando cedo, chegando em casa cansado e sem muita perspectiva de melhora. Nunca se casou, apesar de já ter tido algumas mulheres, também nunca teve filhos, pelo menos não filhos que sabia existirem. Agora aos 68 anos estava velho, cansado e completamente sozinho. Vivia triste e solitário, amargurado, seu único contato com outros seres humanos costumava ser em filas de hospitais e brigando com as crianças da rua que insistiam em jogar futebol justamente em frente sua casa. Ele era um velho solitário e rabugento, que vivia dizendo que a vida havia sido dura demais com ele. Esse tipo de vida que levava acabou por ser um problema, afinal, quando João morreu, sozinho em sua cama durante o sono, só descobriram o corpo quase uma semana depois, apenas por conta do mal cheiro. Enfim, aquela não tinha sido uma vida fácil.
Em outro lugar em outro plano de existência, algumas criaturas, cuja forma nossas mentes humanas são incapazes de imaginar, conversavam animadamente entre si:
- E aí? Como foi essa sua última vida?
- Ah, eu achei divertido, nunca tinha vivido uma vida triste. Foi a primeira vez que vivi uma vida desse jeito...
- Tá, mas conta mais.
- Bem, eu fui um cara chamado João. Solitário, sem filhos nem esposa que passou um monte de problemas na vida. Um sujeito bem besta na minha opinião. Ele sofreu muito e tal. Foi legal ser ele, porque foi diferente, mesmo quando encontrava uma vaga em vidas ruins sempre tinha alguma coisa que era divertida. Essa foi ruim do início ao fim, hehe.
- Sério? Achei que você tinha dito que gostou.
- Mas eu gostei. Foi como disse, foi divertido fazer algo diferente. Mas e você? Como foi a sua última?
- Ahh, eu acabei sendo um empresário bem sucedido, até bem feliz. Não gostei muito não. Te recomendei essa vida triste porque eu gosta mais dessas. Tipo, já vivi muitas vidas felizes, hoje em dia só essas tristes me dão emoção de verdade. Pra falar a verdade essa minha última vida foi bem sem graça...
- Não sei como você pode dizer isso. O drama todo que eu vivi foi legal e tal, mas nem é tão divertido assim. Acho que nunca vou entender essa sua fixação pela tristeza, hehe.
- Não é fixação pela tristeza. Na verdade é só porque ela costuma ser mais interessante de ser vivida. Esse povo que escolhe vidas felizes e tal, acaba que no final é tudo muito parecido. Apenas vivendo as vidas tristes é que conseguimos algum tipo de emoção de verdade.
- Ahh, fale por você. Eu gosto de umas vidas mais alegres. Gostei da experiência, tem seu charme e tal. Mas as vidas felizes parecem que passam mais rápido e você me conhece, eu adoro ficar mudando de vidas. Muito tempo em uma vida só me enjoa.
- Já eu acho que todos são muito curtas. Acho que você ta falando besteira. As tristes são mais divertidas, tem mais opções. A felicidade é sempre uma só, enquanto a dor e o sofrimento ocorrem de várias formas.
- Creio que nós não vamos conseguir convencer um ao outro né?
- Pelo visto, acho que sim. Vamos deixar essa conversa de lado. Acabou de sair a lista das novas vidas que vamos poder escolher, tô de olho em uma que parece que vai ser divertida: um cara que ao final da vida morre abandonado pelos filhos, não li o resumo completo, mas só esse pedaço já me chamou a atenção.
- Você e essas suas vidas tristes, hehe. Eu ainda não sei o que escolher, vou dar uma olhada na lista, mas com certeza, não tenho os mesmos gostos que você.
- É uma pena, mesmo porque você sabe que eu sou maioria. A maioria de nós acha mais divertido as vidas tristes, por isso essas sempre tem de sobra pra escolher.
Na saúde e na doença
sexta-feira, 3 de junho de 2011 | Published in | 1 comentários
O dia amanheceu e ele pode sentir os primeiros raios da manhã entrando pelo quarto. Não importava se era dia da semana, feriado ou domingo, ele sempre acordava na mesma hora, anos acordando sempre cedo acostumaram o seu corpo a isso. Olhou pro lado e viu a esposa deitada, ainda dormindo e roncando baixinho. Ainda a amava tanto quanto na primeira vez que a olhou dormir ao seu lado e sabia que eram um caso cada vez mais raro nesse mundo.
Já estavam juntos a mais de cinqüenta anos. Ele era Arnaldo José, o “seu Arnaldo”, ela era “dona Maria” sua esposa, e juntos tinha sete filhos, mais de trinta netos e já contavam com alguns bisnetos. Muitos anos juntos, muitos momentos compartilhados, e no saldo geral mais bons momentos do que ruins.
Seu Arnaldo se levantou com as dores no corpo que a velhice traz. Ainda estava bem forte para a idade que tinha, e achava que isso se devia as caminhadas logo pela manhã, aos livros que costumava ler e as palavras cruzadas, paixão que tinha vindo com a aposentadoria.
Trocou de roupa e saiu para sua caminhada matinal. Ao retornar, abriu a porta e sentiu o cheiro de café penetrando suas narinas. Dona Maria já tinha se levantado e estava com um roupão velho e puído, mas que ela adorava, e mesmo com os sinais da idade marcados no rosto, seu Arnaldo ainda achava sua esposa linda. Lhe deu um beijo e passou a ler o jornal em cima da mesa da cozinha. Moravam os dois sozinhos naquela casa simples mais confortável que ele tinha construído. Os filhos cresceram e foram embora criar sua própria família, mas sempre voltavam para aquela casa, trazendo os netos nos fins de semana.
Os netos... Bem, tinha-os de todas as idades. Alguns não moravam mais na mesma cidade que eles, outros ainda passavam lá depois da escola, e outros ainda nem tinha idade para saber direito o que acontecia ao redor. Ele e a esposa amavam a todos, vivam em função dos netos e até mesmo aprenderam a usar um computador para estar sempre em contato com os mais distantes... E justamente por conta desse amor não só aos netos como também a toda a grande família que a tragédia daqueles dias tornou tudo mais difícil.
Era um dia calmo, no meio da semana e no meio da manhã, seu Arnaldo estava deitado no sofá da sala fazendo algumas palavras cruzadas quando o telefone tocou. Era um de seus filhos, um que morava em outra cidade ligando. Estava ofegante, desesperado e com voz chorosa e perguntava se os dois idosos estavam bem. Seu Arnaldo respondeu que sim, deu um estranho olhar para dona Maria que tricotava ao seu lado, e perguntou o porquê de todo aquele desespero. Seu filho se limitava a pedir para ligarem a televisão.
Um noticiário, desses plantões urgentes, estava passando. Uma repórter, no centro da cidade onde viviam, informava que algum tipo de doença tinha atingido algumas pessoas. Ao fundo via-se dezenas de pessoas correndo desesperadas, cada uma numa direção, e ao fundo algumas outras pessoas pálidas, mancando, vinha em direção das outras. Aquela cena não fazia sentido algum, e a repórter falava coisas completamente sem sentido, como “mortos vivos”, “zumbis” e sabe-se lá o que mais. Para seu Arnaldo era algo completamente absurdo, e a única coisa que ele pensava é que deveria ser uma doença ou coisa assim. Falou com o filho que não tinha com que se preocupar, que a casa deles era longe do centro, que eles estavam bem e que a policia não ia deixar nada acontecer. O filho se acalmou, se despediram e desligaram o telefone.
Seu Arnaldo ficou pensando no que vira. Era uma doença estranha a daquelas pessoas e não conseguia entender porque corriam dos infectados. Tentou assistir um pouco mais daquela notícia, mas chegou a conclusão de que não fazia sentido e que o desespero era exagerado. Desligou a TV, terminou as palavras cruzadas e depois foi ajudar a esposa com o almoço, afinal alguns dos netos iriam para lá logo após saírem do colégio que ficava não muito longe.
Foi uma tarde normal, apesar das notícias vistas de manhã. Brincou com os netos durante a tarde e no começo da noite dois de seus filhos estiveram lá para buscar as crianças. Recebeu ligações de familiares durante toda a tarde, perguntando se estavam bem, respondeu que sim, que as coisas do noticiário eram num local longe, e que a policia já devia estar cuidando daquilo. Tudo parecia bem.
De noite, ligou a televisão novamente, a mesma notícia nos jornais. Mas as pessoas pareciam agora mais preocupadas. O centro da cidade era um caos, com carros virados e pegando fogo. A repórter falava sobre o caso, mas ao fundo os tiros chamavam mais atenção, ouviam-se muitos e a polícia parecia ter problemas para controlar a multidão que corria, bem como as pessoas infectadas com aquela estranha doença. Avisos foram dados para que ninguém saísse de casa e seu Arnaldo começou a ficar preocupado. Ligou para os filhos para ver se estavam bem, trancou as portas de casa, deu um beijo na esposa e ambos foram dormir.
Foi uma noite estranha. Não se ouviam muitos barulhos naquela região da cidade, mas algo parecia estar errado e o sono vinha difícil, agitado, isso quando vinha. Na manhã seguinte seu Arnaldo se levantou com os primeiros raios de sol da manhã, ainda estava preocupado e foi ligar a televisão.
Ainda se falava daquela estranha doença. Uma outra repórter dizia que a praga havia se alastrado e que a policia não conseguia impedir a confusão, e nesse momento seu Arnaldo achou melhor não sair de casa para caminhar. Ficou vendo o jornal, preocupado com sua família, tentou usar o telefone para ligar para os filhos, mas estavam mudos... Pegou o celular, ligou para um dos filhos, era estranho, mas o celular funcionou. Falou com os filhos que moravam naquela mesma cidade, estavam todos com medo, trancados em suas casas, e conversando decidiram que o melhor era esperar. A essa altura o exército já deveria estar fazendo alguma coisa.
Seu Arnaldo deixou portas e janelas trancadas e foi continuar a ver o noticiário. Sua esposa já havia levantado e via as notícias junto com ele. Conversavam e dividiam a preocupação com o restante da família. Ainda com medo e, a essa altura já sem muita vontade de conversar, almoçaram e dessa vez sem esperar a chegada dos netos, pois sabiam que estes estavam com os pais, trancados em suas casas esperando essa onda de terror passar. Tentou ligar novamente para os filhos, mas agora os celulares estavam mudos... Não sabia o que tinha acontecido e a preocupação só aumentava...
Pensou em sair e ir até a casa de um dos filhos que morava nas proximidades, mas enquanto tentava superar o medo e se preparar para sair começou a ver pela janela sinais de fumaça, negras, erguendo-se no horizonte e barulhos do lugar onde vinha a fumaça. Parecia que a confusão e aquela doença tinham chegado até eles. O medo tomou conta e o casal achou melhor não sair e esperar as coisas se resolverem. Se abraçaram e ficaram vendo as notícias na televisão...
O barulho apenas se aproximava deles, cada vez mais alto, mais forte, com mais gritos de dor e medo. Os dois idosos choraram abraçados, vendo as notícias. Eram mais estranhas ainda, a doença contaminava outras pessoas por meio de mordidas e arranhões, e os novos contaminados passavam a ficar também com a pele pálida, lábios escuros e olhos amarelados e sem vida, e depois disso passavam a ir atrás de novas pessoas que ainda não tinha a doença. Falava-se muito de como a doença agia e que deveriam correr de quem a tivesse, mas não falavam de onde essa doença tinha vindo. E no meio de uma dessas explicações, a televisão subitamente saiu do ar. Chuviscos preenchiam a tela e antes mesmo que pudessem trocar de canal, a luz da casa acabou.
Ficaram os dois ali abraçados, em silêncio, ouvindo o som de pessoas correndo na rua e gritando, e ambos tinham medo até de olhar pela janela. Pensavam nos filhos, nos netos, nos bisnetos e até em parentes distantes que não viam a anos.
Nessa hora ouviram o som de algo ou alguém batendo na janela. Olharam para o local e viram uma das pessoas infectadas, com todas as características que a televisão disse que tinham. Essa pessoa tentava entrar, e seu Arnaldo, mesmo com muito medo, se levantou, pediu para a esposa fica de olho e foi até os fundos casa. Ia procurar alguma coisa pra defender sua mulher caso aquela pessoa entrasse, ele estava velho, mas ainda era um homem que sabia defender sua família. Não tinham armas de fogo em casa e a melhor coisa que seu Arnaldo encontrou foi uma grande chave inglesa dentro de sua caixa de ferramentas.
Pegou a ferramenta, e medindo o peso, achou que seria o bastante para afastar alguém que lhes tentasse fazer algum mal. Nessa hora ouviu o som de vidro se quebrando e o grito de sua esposa. Correu para a sala onde estavam e viu a pessoa infectada mordendo o braço de dona Maria. Sem pensar duas vezes, seu Arnaldo bateu forte na cabeça daquela pessoa, mais monstro que humano, acertou a chave inglesa uma, duas, várias vezes, até aquilo cair no chão e parar de se mexer. O sangue escuro, quase negro, escorria pelo chão junto com pedaços do cérebro de um homem... Seu Arnaldo passou a tremer, nunca tinha matado uma pessoa, e mesmo tremendo pediu para sua esposa ter calma, pegou um kit de primeiros socorros e fez um curativo no braço machucado de dona Maria.
Depois de estancar o sangramento, choraram abraçados após se trancarem num depósito, um quarto sem uso e sem janelas onde guardavam algumas coisas velhas. Depois de um tempo, seu Arnaldo sentiu a pele da esposa ficando cada vez mais fria, ela tremia, e ele tentou confortá-la, e pouco tempo depois, dona Maria olhou para ele com aqueles olhos amarelados e sem vida e tentou mordê-lo. Seu Arnaldo se afastou rapidamente, aquela não parecia mais ser sua esposa, ela tinha sido infectada por aquela estranha doença.
Ela voltou a atacá-lo, ele a empurrou para longe. Ela se levantou e tentou atacá-lo de novo, e ele, mais por medo do que por qualquer outro motivo, agarrou a chave inglesa e acertou com força na cabeça da esposa. Destrancou a porta, saiu, trancou sua esposa dentro e foi tentar conseguir ajuda. Ter feito aquilo o abalou bastante, em mais de 50 anos nunca tinha seque ameaçado bater em dona Maria, e justamente naquele momento de desespero havia feito aquilo. Resolveu sair para a rua e ver se conseguiria alguma ajuda.
Na rua, parecia que o caos havia tomado conta. Poucas pessoas haviam, e essas corriam desesperadamente. As pessoas que tinham sido infectadas estavam parecendo animais, devorando algo que a muito parecia ser um dos vizinhos da rua. Seu Arnaldo sentiu nojo e quase vomitou, voltou em desespero para dentro de sua casa. Tentou os telefones, todos mudos. Não havia energia elétrica, num antigo rádio a pilha que encontrou, somente conseguia ouvir estática. Parecia que o mundo estava acabando, era o Apocalipse bíblico chegando até eles. Pensou nos filhos, nos netos, na esposa trancada e começou a chorar. Um turbilhão de emoções tomou conta dele e chegou a conclusão de que jamais veria sua família de novo. O fim dos tempos finalmente havia chegado e não havia nada do que ele pudesse fazer.
Nessa hora e com tais pensamentos em mente, seu Arnaldo tirou a camisa que usava. Nesta hora percebeu que era uma camisa azul, de manga curta e de botões, havia ganhado a mesma no seu aniversário do ano anterior, e havia sido justamente presente de sua esposa. Chorou mais ainda ao se lembrar disso. Pensou nos bons anos de casamento que tivera, nos bons momentos com a família, no sorriso dos netos...
Foi em direção ao quarto no qual a esposa estava trancada. Abriu a porta e o monstro que estava lá dentro olhou para ele e foi em sua direção. Deixou ser atacado e enquanto sentia os dentes de sua esposa entrando em seu pescoço, conseguiu repetir apenas para si mesmo: “na saúde e na doença”.