Uma Crônica de Segunda #3

segunda-feira, 14 de novembro de 2011 | Published in | 1 comentários

Visando me concentrar mais para estudar para um determinado concurso público, eu resolvi para de beber. É uma forma de me motivar: fico sem beber enquanto estudo e a possibilidade de voltar a beber me incentiva a estudar cada vez mais. Já fazem cerca de 5 meses que eu abri mão completamente de consumir álcool, o que é para mim um recorde. Esse é o maior período que eu já fiquei sem beber desde que eu tinha 15 anos.
Mas como é de se esperar nada vem de graça. A minha abstinência alcoólica trouxe consigo uma maior sensibilidade pra mim. Nos últimos tempos eu fiquei cada vez mais intolerante com coisas que eu relevava. Pseudo-intelectuais, poetas de segunda e revolucionários de boteco antes eram apenas motivo para um pouco de riso e, às vezes, escárnio, hoje eles já me despertam ódio. Pequenas coisas da vida que passavam por mim despercebidas, agora me irritam e me estressam de formas que eu jamais acharia que fosse possível.
O cúmulo de tais irritações extremas aconteceu a poucos dias. Estava dormindo no sofá e meu irmão fez uma brincadeira comigo que me acordou. Acho quer nunca disse tantos palavrões numa única frase, e acabei fazendo sérias ameaças a ele, que ficou espantado e sem saber o que fazer ao me ver de tal forma agressivo.
Nessa hora meus familiares se reuniram e eu acabei ouvindo dos meus pais algo que jamais achei que ouviria. Eles olharam sério para mim e disseram: “meu filho, por favor, volte a beber. A abstinência está te fazendo mal”. Acho que eles tem razão, mas vou ficar espantado com essa frase pelo resto da vida. Meus país querem que eu volte a beber, apenas porque assim eu me torno uma pessoa mais suportável.
E essa história me fez pensar em outra coisa. Se meus pais querem que eu volte a beber para ser mais tolerável, meus amigos então devem estar sofrendo muito mais. Infelizmente eu estou descobrindo que o álcool pra mim é uma necessidades, é a única forma de tornar as outras pessoas e a mim mesmo um pouco mais tolerável. 

Trocas

sexta-feira, 11 de novembro de 2011 | Published in | 0 comentários

            “O beijo é aquilo de mais íntimos que dois seres humanos podem compartilhar. Nem mesmo sexo consegue passar uma intimidade tão grande quando o beijo em si. Por esse motivo que as putas não costumam beijar seus clientes. O beijo é um momento de compartilhar profundas emoções, sem igual. Um momento no qual um pouco de você fica com a pessoa beijada e um pouco dessa pessoa fica em você.” Esses eram os pensamentos que passavam pela cabeça do JC de Moraes enquanto, entre sorrisos amarelos e elogios sinceros, ele assinava dezenas de livros em sua primeira noite de autógrafos.
            Os motivos que o levaram até ali eram absolutamente estranhos. E tão estranhos quanto os motivos era o que havia por trás daquele trajetória dita brilhante. Os caminhos que sua vida tomou eram influenciados de forma inusitada justamente pelos beijos que naquela hora ocupavam sua cabeça.
Mas vamos contar a história de forma mais completa. JC de Moraes era o nome pelo qual José Carlos Almeida de Moraes era conhecido. O nome de batismo havia sido substituído por “JC” já durante a infância, e o “de Moraes” foi incluído durante os primeiros anos como professor universitário.
            Ele havia passado no vestibular de sociologia de uma universidade pública federal. Os motivos de ter escolhido esse curso eram bastante simples: nota de corte baixa. O que levou JC a sociologia era simplesmente o fato de que era uma das notas mais baixas para aprovação no vestibular e ele precisava fazer algo agora que havia terminado o segundo grau.
            Passou na primeira tentativa e pouco tempo depois estava perdido em meio aos demais calouros do curso. E foi justamente no primeiro semestre que havia conhecido uma garota chamada Amanda. Pode-se dizer que ela seria quase o contrário dele: politizada, filha de professores universitários, havia escolhido aquele curso por vocação, apesar da capacidade estar até em cursos mais concorridos. Por não saber desse segredo de JC com relação a escolha do curso acabaram ficando amigos e de amigos em pouco tempo se tornaram namorados.
            A troca de beijos entre eles acabou por deixar algo em JC. Parecia que cada vez que dividia seu tempo com Amanda, mais ele se aproximava da sociologia e mais parecia gostar do assunto. Já na metade do curso, mesmo com o fim do namoro, algo de Amanda havia ficado em JC, e ele acreditava que era a paixão pela sociologia.
            Um tempo depois engatou outro relacionamento, desta vez com Paula. Alguém que ansiava pela carreira do magistério superior e os planos para depois de formada eram um curso de mestrado e posteriormente um doutorado. JC nunca havia pensado seriamente sobre esse assunto, mas a cada momento passado com Paula, a cada beijo trocado, a vontade de ser professor universitário parecia tomar conta dele. Era como se o contato entre as línguas trouxesse um desejo oculto de seguir carreira acadêmica, e mesmo com o fim desse relacionamento, JC prosseguiu com o mestrado e posteriormente um doutorado, este feito fora do país.
            A vida fora do Brasil estudando não é tão fácil como se pensa. Viver na França, estudando com bolsa, apesar de certas compensações, é difícil... Mas mesmo em meio a tantas dificuldades, um outro relacionamento surgiu. Ele estava no doutorado, ela no mestrado, ele brasileiro, ela francesa. Sophie, era uma bela loira européia, inteligente, mestranda em literatura que sonhava em escrever seu primeiro romance. O relacionamento entre os dois foi intenso e durou apenas o tempo do doutorado de JC. Distâncias impedem muitos relacionamentos, e a volta ao Brasil dele impediu a continuidade desse...
            De volta ao Brasil JC passou a subitamente se interessar por literatura. Era como se algo tivesse ficado dentre dele, a vontade de escrever um livro, um romance, algo fora do mundo dos livros técnicos. E essa vontade ficou dentre dele por um longo tempo e era concretizada nesta noite, com aqueles autógrafos que vinha dando.
            E era por esse motivo que ele pensava sobre o beijo. Todas as mulheres com quem tinha se relacionado haviam deixado um pouco delas nele. As três descritas aqui eram apenas as mais importantes, que duraram mais tempo, mas as que deixaram as maiores marcas. O amor pelo curso, a vontade de carreira acadêmica, a vontade de publicar seu livro... Tudo não estava nele de início e parecia ter sido transmitido por simples beijos.
            E ele estava ali, já passado dos 40, autografando seu primeiro romance e pensando em como tudo havia chegado até ali. Nos beijos que o haviam levado até ali, e pensar nisso só comprovava sua teoria de que beijo é mias íntimo que sexo. O sexo pelo sexo não era capaz de deixar tantas marcas como os beijos em seu passado o haviam marcado, trazendo vontades que até então não existiam.
            E esses pensamentos aos poucos se tornaram quase que uma verdade para JC. Em pouco tempo passou a ter certeza de que somente estava ali, autografando seu romance, por conta das marcas deixadas pelos beijos do passado. E dessa certeza veio outra, bem mais complexa. JC percebia por meio de seus alunos que cada geração era mais volúvel que a anterior e isso tinha explicação. Cada vez mais o momento íntimo do beijo era afastado em troca do simples prazer, e assim cada um adquiria cada vez mais experiência de cada vez mais pessoas. Se um pouco da pessoa fica em cada beijo dado, um pouco de muitas pessoas havia ficado nos jovens que agora eram seus alunos (e que muitos também estavam ali para o lançamento de seu livro) e que estavam trocando intimidades com cada vez mais pessoas. E a cada troca, novos desejos entravam, e a grande quantidade de desejos que entravam, cada vez mais constante e cada vez mais diferentes, tornavam as pessoas apenas mais volúveis. E isso explicava muitas coisas que ele via acontecendo ao seu redor.

Uma Crônica de Segunda #2

segunda-feira, 7 de novembro de 2011 | Published in | 0 comentários

Quase todo contrato de leasing costumava ter uma cláusula prevendo a cobrança do chamado “ressarcimento de despesa de serviços bancários”. Tratava-se da cobrança de cerca de R$ 4,50, as vezes um pouco mais outras vezes um pouco menos, mas que na prática nada mais era do que uma cobrança para que a financeira lhe enviasse o boleto bancário para pagamento. Não precisa dizer o absurdo que isso era, tanto é que após várias decisões judiciais declarando a ilegalidade dessa cobrança o Conselho Monetário Nacional a proibiu. 
Sim, eu tinha um contrato de leasing ainda vigente, e sim, nos meus boletos bancários vinha essa maldita cobrança. Mas que grande surpresa eu tive quando recebi uma carta de uma instituição financeira dizendo que, devido a ilegalidade da cobrança, eles iriam me ressarcir de todos os valores pagos por mim a título de “ressarcimento de despesa de serviços bancários”. A princípio eu não conseguia acreditar, afinal de contas a carta me orientava a ir numa agência bancária para receber dinheiro, e eu nunca tinha sequer ouvido falar de coisa parecida. 
Meio cético, procurei a uma agência desse banco e soube que a carta era verdadeira.Foi confirmado que eu tinha direito a receber tudo que paguei a mais, e com correção.
Feliz, me dirigi ao caixa para receber o dinheiro. Valor total: R$ 77,41. Mas o valor em si para mim não importava, também não importava o fato de que eles simplesmente estavam me devolvendo algo que eu já havia pago. O que importava de verdade era que pela primeira vez na minha vida eu fui a um banco para receber dinheiro. Saí de uma agência bancária com mais dinheiro do que quando entrei. Tenho a impressão de que isso nunca mais acontecerá de novo. 

Fútil

sexta-feira, 4 de novembro de 2011 | Published in | 0 comentários

Ana Carolina era o nome feminino mais comum que se pode imaginar, mas aquela “Ana Carolina” não tinha nada de comum. Era alta, longos cabelos pretos, corpo de quem passava horas na academia, uma verdadeira gostosa. Se vestia bem e mesmo com roupas ditas “sérias” para o trabalho, ela abusava de decotes e saias que moldavam seu belo corpo. Ninguém sabia ao certo os motivos pelos quais ela tinha sido contratada na empresa, mas haviam algumas suspeitas: ela era filha de um dos superintendentes, ela era comida por um dos superintendentes, ela era filha de um político e um superintendente estava fazendo um “favor’... enfim, várias eram as especulações, mas uma coisa era certeza: ela não tinha sido contratada por sua competência.
O momento que ela se levantava para buscar água ou café era um dos mais esperados do dia. Quase todo mundo parava para vê-la atravessar a área de trabalho com aquele rebolado que só ela tinha. Era um espetáculo que tornava difícil olhar para qualquer outra coisa. Até mesmo conversar com ela era difícil, pois por conta dos fartos seios e do amplo decote que sempre usava, muitos homens que a conheciam a anos não saberiam dizer sequer a cor dos olhos dela.
E como ela lidava com tudo isso? Bem, ela adorava ser o centro das atenções. Cada uma das roupas era cuidadosamente escolhida de manhã para provocar o maior número de homens possível. Ela era gostosa, sabia disso e não ligava se a achavam vulgar. Não tinha sido contratada por sua competência e sabia disso, era muito bonita e também sabia disso. Tinha todas as armas, armas que deveriam ser usada sempre que possível. E justamente por ser sempre o alvo das atenções de todos os homens (e muitas vezes alvo de inveja de várias mulheres) que aquele novo estagiário tinha lhe chamado tanta atenção. Ele foi o único que, enquanto ela desfilava em direção ao café, foi o único que a olhou, balançou a cabeça e voltou ao trabalho.
Ser ignorada por um homem era inacreditável. Ele simplesmente a olhou, e em seu olhar não havia desejo, não havia nada, e ele só voltou a cabeça para os papeis que estava lendo. Nenhum homem jamais a havia ignorado daquela forma, até mesmo os gays da empresa olhavam para ela, estonteados com sua beleza, e não seria um estagiário novo que ficaria sem contemplar toda a sua beleza.
No dia seguinte vestiu-se para matar. A roupa vermelha, o amplo decote e a saia grudada ao corpo era para chamar mesmo a atenção. Nesse dia ouviu comentários por toda a empresa sobre como ela estava linda, mas aquele estagiário nem mesmo se deu ao trabalho de olhá-la, e voltou a ficar compenetrado com seus papeis e no computador a sua frente.
Era um absurdo! No dia seguinte mais uma vez tentou chamar a atenção do rapaz e mais uma vez foi ignorada. E assim foi por quase uma semana, até que ela resolveu tirar satisfações, afinal não era possível que alguém a ignorasse daquela forma. Reservou um tempo durante o almoço para conseguir falar com o estagiário sem a presença de outras pessoas. Ele trabalhava apenas meio expediente, sempre depois do almoço, e sempre chegava cedo, ouvia um pouco de música e começava a trabalhar. Geralmente na hora que ele chegava a empresa estava vazia. E foi nessa hora que a conversa aconteceu.
Ana não sabia como começar a conversa, o que acabou fazendo com que optasse por uma abordagem mais direta. Puxou uma cadeira para o lado do estagiário e lhe disse com uma voz que faria qualquer outro suspirar de tesão:
- Oi tudo bom?
            Ele respondeu com um breve “oi”, e voltou a ler alguns papeis. Ela insistiu:
            - Por que você não olha pra mim quando eu passo? Tem algo errado comigo?
            Nessa hora o estagiário respirou fundo, deixou os papeis de lado e disse:
            - “Eu não acredito nas mulheres que não estão ao meu alcance”
            Ana ficou sem entender e deixou isso transparecer em seu rosto (não que conseguisse evitar). Mais uma vez o estagiário respirou fundo e continuou.
            - Esse é um trecho de uma música antiga. Olha para você, não vou negar que você é bonita, e eu por outro lado não sou. Também não sou rico, muito menos sou uma pessoa muito simpática. Admirar você é como o cachorro parado em frente a uma máquina de frango assado, desejando algo que nunca vai ter. Pra que vou admirar você tanto assim se sequer o pensamento de você querer alguma coisa comigo irá passar pela sua cabeça? Não sou rico, não sou o seu tipo, é perda de tempo te admirar.
            Nessa hora Ana se sentiu incomodada, indiretamente havia sido chamada de fútil e superficial. Respondeu meio que contendo a raiva:
            - Quer dizer então que você me acha tão superficial ao ponto de não quer nada com alguém se o cara não for bonito e rico?
            E ele respondeu prontamente:
            - Qual é o problema nisso? Você é fútil, todos somos fúteis. Eu apenas admito que isso é normal, e sigo o meu caminho sem me importar muito com isso.
            Nessa hora Ana ficou calada e saiu. Realmente nunca iria sair como um rapaz como aquele, mas mesmo assim sentia que ele deveria admirá-la, desejá-la...  Era como se algo não mais estivesse encaixando. Não era assim que o mundo dela funciona, ela era admirada e ponto, aquelas palavras ecoavam em sua mente e isso não a deixava em paz.
Voltou mais cedo do trabalho para casa e ficou com as palavras daquele jovem rapaz ecoando na sua mente. No dia seguinte voltou ao trabalho, não usava mais roupas tão provocantes. De repente, era como se chamar tanta atenção tivesse perdido completamente a graça. 

Uma Crônica de Segunda

segunda-feira, 31 de outubro de 2011 | Published in | 0 comentários

Esse é a primeira de uma série de crônicas semanais que pretendo fazer, agregando um pouco de minhas insanidades diárias. Por ser dia 31 de outubro, nada melhor do que esta primeira crônica tratar justamente sobre o famoso dia das bruxas.
Sei que as festas de halloween foram introduzidas aqui no Brasil por conta de filmes e seriados norte-americanos, e justamente por isso, alguns dizem que se trata de uma aculturação. Mas foda-se, este não é o assunto que eu quero tratar.  
Vou falar sobre algo realmente importante. O tema de hoje é sobre a primeira vez que ouvi falar desse tal de “halloween”.
Eu tinha por volta de 07 anos, e como era muito comum, passava muito tempo em frente a uma televisão. A televisão me mostrava a imagem de crianças fantasiadas e saindo de casa em casa pedindo “doces ou travessuras”, e eu, com aquela idade, ficava sem entender do que se tratava. Lembro que resolvi perguntar o que era o halloween para a única pessoa que, na época, parecia ter todas as respostas que eu precisava: minha mãe.
Me lembro que fui bem direto, virei para a minha mãe e perguntei: “O que é halloween?”. Minha mãe, meio sem saber como me explicar e, sendo uma pessoa mais velha que conhecia a tradição dessa festa apenas pela imagem passada por filmes, ficou um tempo em silêncio sem saber o que me responder. Ela estava pensando, tentando encontrar uma resposta para me explicar do que se tratavam as imagens de crianças fantasiadas pedindo doces que víamos na TV. Após esse breve silêncio, minha mãe encontrou uma resposta simples e baseada no que ela conhecia sobre o halloween. Ela me disse: “Ah, halloween é uma mistura de carnaval com Cosme e Damião”. Até hoje nunca encontrei definição melhor. 

A Vida Triste

sexta-feira, 16 de setembro de 2011 | Published in | 0 comentários

A vida não tinha sido das mais fáceis para João. Nasceu numa cidade do interior do Ceará, mudou-se para São Paulo quando criança, pois o pai buscava um emprego melhor do que a lida na roça. Trabalhou de pedreiro a vida inteira, acordando cedo, chegando em casa cansado e sem muita perspectiva de melhora. Nunca se casou, apesar de já ter tido algumas mulheres, também nunca teve filhos, pelo menos não filhos que sabia existirem. Agora aos 68 anos estava velho, cansado e completamente sozinho. Vivia triste e solitário, amargurado, seu único contato com outros seres humanos costumava ser em filas de hospitais e brigando com as crianças da rua que insistiam em jogar futebol justamente em frente sua casa. Ele era um velho solitário e rabugento, que vivia dizendo que a vida havia sido dura demais com ele. Esse tipo de vida que levava acabou por ser um problema, afinal, quando João morreu, sozinho em sua cama durante o sono, só descobriram o corpo quase uma semana depois, apenas por conta do mal cheiro. Enfim, aquela não tinha sido uma vida fácil.

Em outro lugar em outro plano de existência, algumas criaturas, cuja forma nossas mentes humanas são incapazes de imaginar, conversavam animadamente entre si:

- E aí? Como foi essa sua última vida?

- Ah, eu achei divertido, nunca tinha vivido uma vida triste. Foi a primeira vez que vivi uma vida desse jeito...

- Tá, mas conta mais.

- Bem, eu fui um cara chamado João. Solitário, sem filhos nem esposa que passou um monte de problemas na vida. Um sujeito bem besta na minha opinião. Ele sofreu muito e tal. Foi legal ser ele, porque foi diferente, mesmo quando encontrava uma vaga em vidas ruins sempre tinha alguma coisa que era divertida. Essa foi ruim do início ao fim, hehe.

- Sério? Achei que você tinha dito que gostou.

- Mas eu gostei. Foi como disse, foi divertido fazer algo diferente. Mas e você? Como foi a sua última?

- Ahh, eu acabei sendo um empresário bem sucedido, até bem feliz. Não gostei muito não. Te recomendei essa vida triste porque eu gosta mais dessas. Tipo, já vivi muitas vidas felizes, hoje em dia só essas tristes me dão emoção de verdade. Pra falar a verdade essa minha última vida foi bem sem graça...

- Não sei como você pode dizer isso. O drama todo que eu vivi foi legal e tal, mas nem é tão divertido assim. Acho que nunca vou entender essa sua fixação pela tristeza, hehe.

- Não é fixação pela tristeza. Na verdade é só porque ela costuma ser mais interessante de ser vivida. Esse povo que escolhe vidas felizes e tal, acaba que no final é tudo muito parecido. Apenas vivendo as vidas tristes é que conseguimos algum tipo de emoção de verdade.

- Ahh, fale por você. Eu gosto de umas vidas mais alegres. Gostei da experiência, tem seu charme e tal. Mas as vidas felizes parecem que passam mais rápido e você me conhece, eu adoro ficar mudando de vidas. Muito tempo em uma vida só me enjoa.

- Já eu acho que todos são muito curtas. Acho que você ta falando besteira. As tristes são mais divertidas, tem mais opções. A felicidade é sempre uma só, enquanto a dor e o sofrimento ocorrem de várias formas.

- Creio que nós não vamos conseguir convencer um ao outro né?

- Pelo visto, acho que sim. Vamos deixar essa conversa de lado. Acabou de sair a lista das novas vidas que vamos poder escolher, tô de olho em uma que parece que vai ser divertida: um cara que ao final da vida morre abandonado pelos filhos, não li o resumo completo, mas só esse pedaço já me chamou a atenção.

- Você e essas suas vidas tristes, hehe. Eu ainda não sei o que escolher, vou dar uma olhada na lista, mas com certeza, não tenho os mesmos gostos que você.

- É uma pena, mesmo porque você sabe que eu sou maioria. A maioria de nós acha mais divertido as vidas tristes, por isso essas sempre tem de sobra pra escolher.

Na saúde e na doença

sexta-feira, 3 de junho de 2011 | Published in | 1 comentários

O dia amanheceu e ele pode sentir os primeiros raios da manhã entrando pelo quarto. Não importava se era dia da semana, feriado ou domingo, ele sempre acordava na mesma hora, anos acordando sempre cedo acostumaram o seu corpo a isso. Olhou pro lado e viu a esposa deitada, ainda dormindo e roncando baixinho. Ainda a amava tanto quanto na primeira vez que a olhou dormir ao seu lado e sabia que eram um caso cada vez mais raro nesse mundo.

Já estavam juntos a mais de cinqüenta anos. Ele era Arnaldo José, o “seu Arnaldo”, ela era “dona Maria” sua esposa, e juntos tinha sete filhos, mais de trinta netos e já contavam com alguns bisnetos. Muitos anos juntos, muitos momentos compartilhados, e no saldo geral mais bons momentos do que ruins.

Seu Arnaldo se levantou com as dores no corpo que a velhice traz. Ainda estava bem forte para a idade que tinha, e achava que isso se devia as caminhadas logo pela manhã, aos livros que costumava ler e as palavras cruzadas, paixão que tinha vindo com a aposentadoria.

Trocou de roupa e saiu para sua caminhada matinal. Ao retornar, abriu a porta e sentiu o cheiro de café penetrando suas narinas. Dona Maria já tinha se levantado e estava com um roupão velho e puído, mas que ela adorava, e mesmo com os sinais da idade marcados no rosto, seu Arnaldo ainda achava sua esposa linda. Lhe deu um beijo e passou a ler o jornal em cima da mesa da cozinha. Moravam os dois sozinhos naquela casa simples mais confortável que ele tinha construído. Os filhos cresceram e foram embora criar sua própria família, mas sempre voltavam para aquela casa, trazendo os netos nos fins de semana.

Os netos... Bem, tinha-os de todas as idades. Alguns não moravam mais na mesma cidade que eles, outros ainda passavam lá depois da escola, e outros ainda nem tinha idade para saber direito o que acontecia ao redor. Ele e a esposa amavam a todos, vivam em função dos netos e até mesmo aprenderam a usar um computador para estar sempre em contato com os mais distantes... E justamente por conta desse amor não só aos netos como também a toda a grande família que a tragédia daqueles dias tornou tudo mais difícil.

Era um dia calmo, no meio da semana e no meio da manhã, seu Arnaldo estava deitado no sofá da sala fazendo algumas palavras cruzadas quando o telefone tocou. Era um de seus filhos, um que morava em outra cidade ligando. Estava ofegante, desesperado e com voz chorosa e perguntava se os dois idosos estavam bem. Seu Arnaldo respondeu que sim, deu um estranho olhar para dona Maria que tricotava ao seu lado, e perguntou o porquê de todo aquele desespero. Seu filho se limitava a pedir para ligarem a televisão.

Um noticiário, desses plantões urgentes, estava passando. Uma repórter, no centro da cidade onde viviam, informava que algum tipo de doença tinha atingido algumas pessoas. Ao fundo via-se dezenas de pessoas correndo desesperadas, cada uma numa direção, e ao fundo algumas outras pessoas pálidas, mancando, vinha em direção das outras. Aquela cena não fazia sentido algum, e a repórter falava coisas completamente sem sentido, como “mortos vivos”, “zumbis” e sabe-se lá o que mais. Para seu Arnaldo era algo completamente absurdo, e a única coisa que ele pensava é que deveria ser uma doença ou coisa assim. Falou com o filho que não tinha com que se preocupar, que a casa deles era longe do centro, que eles estavam bem e que a policia não ia deixar nada acontecer. O filho se acalmou, se despediram e desligaram o telefone.

Seu Arnaldo ficou pensando no que vira. Era uma doença estranha a daquelas pessoas e não conseguia entender porque corriam dos infectados. Tentou assistir um pouco mais daquela notícia, mas chegou a conclusão de que não fazia sentido e que o desespero era exagerado. Desligou a TV, terminou as palavras cruzadas e depois foi ajudar a esposa com o almoço, afinal alguns dos netos iriam para lá logo após saírem do colégio que ficava não muito longe.

Foi uma tarde normal, apesar das notícias vistas de manhã. Brincou com os netos durante a tarde e no começo da noite dois de seus filhos estiveram lá para buscar as crianças. Recebeu ligações de familiares durante toda a tarde, perguntando se estavam bem, respondeu que sim, que as coisas do noticiário eram num local longe, e que a policia já devia estar cuidando daquilo. Tudo parecia bem.

De noite, ligou a televisão novamente, a mesma notícia nos jornais. Mas as pessoas pareciam agora mais preocupadas. O centro da cidade era um caos, com carros virados e pegando fogo. A repórter falava sobre o caso, mas ao fundo os tiros chamavam mais atenção, ouviam-se muitos e a polícia parecia ter problemas para controlar a multidão que corria, bem como as pessoas infectadas com aquela estranha doença. Avisos foram dados para que ninguém saísse de casa e seu Arnaldo começou a ficar preocupado. Ligou para os filhos para ver se estavam bem, trancou as portas de casa, deu um beijo na esposa e ambos foram dormir.

Foi uma noite estranha. Não se ouviam muitos barulhos naquela região da cidade, mas algo parecia estar errado e o sono vinha difícil, agitado, isso quando vinha. Na manhã seguinte seu Arnaldo se levantou com os primeiros raios de sol da manhã, ainda estava preocupado e foi ligar a televisão.

Ainda se falava daquela estranha doença. Uma outra repórter dizia que a praga havia se alastrado e que a policia não conseguia impedir a confusão, e nesse momento seu Arnaldo achou melhor não sair de casa para caminhar. Ficou vendo o jornal, preocupado com sua família, tentou usar o telefone para ligar para os filhos, mas estavam mudos... Pegou o celular, ligou para um dos filhos, era estranho, mas o celular funcionou. Falou com os filhos que moravam naquela mesma cidade, estavam todos com medo, trancados em suas casas, e conversando decidiram que o melhor era esperar. A essa altura o exército já deveria estar fazendo alguma coisa.

Seu Arnaldo deixou portas e janelas trancadas e foi continuar a ver o noticiário. Sua esposa já havia levantado e via as notícias junto com ele. Conversavam e dividiam a preocupação com o restante da família. Ainda com medo e, a essa altura já sem muita vontade de conversar, almoçaram e dessa vez sem esperar a chegada dos netos, pois sabiam que estes estavam com os pais, trancados em suas casas esperando essa onda de terror passar. Tentou ligar novamente para os filhos, mas agora os celulares estavam mudos... Não sabia o que tinha acontecido e a preocupação só aumentava...

Pensou em sair e ir até a casa de um dos filhos que morava nas proximidades, mas enquanto tentava superar o medo e se preparar para sair começou a ver pela janela sinais de fumaça, negras, erguendo-se no horizonte e barulhos do lugar onde vinha a fumaça. Parecia que a confusão e aquela doença tinham chegado até eles. O medo tomou conta e o casal achou melhor não sair e esperar as coisas se resolverem. Se abraçaram e ficaram vendo as notícias na televisão...

O barulho apenas se aproximava deles, cada vez mais alto, mais forte, com mais gritos de dor e medo. Os dois idosos choraram abraçados, vendo as notícias. Eram mais estranhas ainda, a doença contaminava outras pessoas por meio de mordidas e arranhões, e os novos contaminados passavam a ficar também com a pele pálida, lábios escuros e olhos amarelados e sem vida, e depois disso passavam a ir atrás de novas pessoas que ainda não tinha a doença. Falava-se muito de como a doença agia e que deveriam correr de quem a tivesse, mas não falavam de onde essa doença tinha vindo. E no meio de uma dessas explicações, a televisão subitamente saiu do ar. Chuviscos preenchiam a tela e antes mesmo que pudessem trocar de canal, a luz da casa acabou.

Ficaram os dois ali abraçados, em silêncio, ouvindo o som de pessoas correndo na rua e gritando, e ambos tinham medo até de olhar pela janela. Pensavam nos filhos, nos netos, nos bisnetos e até em parentes distantes que não viam a anos.

Nessa hora ouviram o som de algo ou alguém batendo na janela. Olharam para o local e viram uma das pessoas infectadas, com todas as características que a televisão disse que tinham. Essa pessoa tentava entrar, e seu Arnaldo, mesmo com muito medo, se levantou, pediu para a esposa fica de olho e foi até os fundos casa. Ia procurar alguma coisa pra defender sua mulher caso aquela pessoa entrasse, ele estava velho, mas ainda era um homem que sabia defender sua família. Não tinham armas de fogo em casa e a melhor coisa que seu Arnaldo encontrou foi uma grande chave inglesa dentro de sua caixa de ferramentas.

Pegou a ferramenta, e medindo o peso, achou que seria o bastante para afastar alguém que lhes tentasse fazer algum mal. Nessa hora ouviu o som de vidro se quebrando e o grito de sua esposa. Correu para a sala onde estavam e viu a pessoa infectada mordendo o braço de dona Maria. Sem pensar duas vezes, seu Arnaldo bateu forte na cabeça daquela pessoa, mais monstro que humano, acertou a chave inglesa uma, duas, várias vezes, até aquilo cair no chão e parar de se mexer. O sangue escuro, quase negro, escorria pelo chão junto com pedaços do cérebro de um homem... Seu Arnaldo passou a tremer, nunca tinha matado uma pessoa, e mesmo tremendo pediu para sua esposa ter calma, pegou um kit de primeiros socorros e fez um curativo no braço machucado de dona Maria.

Depois de estancar o sangramento, choraram abraçados após se trancarem num depósito, um quarto sem uso e sem janelas onde guardavam algumas coisas velhas. Depois de um tempo, seu Arnaldo sentiu a pele da esposa ficando cada vez mais fria, ela tremia, e ele tentou confortá-la, e pouco tempo depois, dona Maria olhou para ele com aqueles olhos amarelados e sem vida e tentou mordê-lo. Seu Arnaldo se afastou rapidamente, aquela não parecia mais ser sua esposa, ela tinha sido infectada por aquela estranha doença.

Ela voltou a atacá-lo, ele a empurrou para longe. Ela se levantou e tentou atacá-lo de novo, e ele, mais por medo do que por qualquer outro motivo, agarrou a chave inglesa e acertou com força na cabeça da esposa. Destrancou a porta, saiu, trancou sua esposa dentro e foi tentar conseguir ajuda. Ter feito aquilo o abalou bastante, em mais de 50 anos nunca tinha seque ameaçado bater em dona Maria, e justamente naquele momento de desespero havia feito aquilo. Resolveu sair para a rua e ver se conseguiria alguma ajuda.

Na rua, parecia que o caos havia tomado conta. Poucas pessoas haviam, e essas corriam desesperadamente. As pessoas que tinham sido infectadas estavam parecendo animais, devorando algo que a muito parecia ser um dos vizinhos da rua. Seu Arnaldo sentiu nojo e quase vomitou, voltou em desespero para dentro de sua casa. Tentou os telefones, todos mudos. Não havia energia elétrica, num antigo rádio a pilha que encontrou, somente conseguia ouvir estática. Parecia que o mundo estava acabando, era o Apocalipse bíblico chegando até eles. Pensou nos filhos, nos netos, na esposa trancada e começou a chorar. Um turbilhão de emoções tomou conta dele e chegou a conclusão de que jamais veria sua família de novo. O fim dos tempos finalmente havia chegado e não havia nada do que ele pudesse fazer.

Nessa hora e com tais pensamentos em mente, seu Arnaldo tirou a camisa que usava. Nesta hora percebeu que era uma camisa azul, de manga curta e de botões, havia ganhado a mesma no seu aniversário do ano anterior, e havia sido justamente presente de sua esposa. Chorou mais ainda ao se lembrar disso. Pensou nos bons anos de casamento que tivera, nos bons momentos com a família, no sorriso dos netos...

Foi em direção ao quarto no qual a esposa estava trancada. Abriu a porta e o monstro que estava lá dentro olhou para ele e foi em sua direção. Deixou ser atacado e enquanto sentia os dentes de sua esposa entrando em seu pescoço, conseguiu repetir apenas para si mesmo: “na saúde e na doença”.