Cinema

segunda-feira, 4 de abril de 2011 | Published in | 4 comentários

Eu adoro cinema. Não tem jeito, não importa o quanto uma televisão fique grande, a maior TV do mundo nunca irá ser tão legal quanto ver um filme numa sala de cinema. É simples assim, um fato incontestável, a tela grande do cinema é incomparável.

Contudo, esse simples prazer vem se tornando cada vez menos prazeroso. Não que haja alguma coisa errada com o cinema em si, muito pelo contrário, o que atrapalha o cinema hoje em dia é o todo o ritual que agora se tornou obrigatório para se assistir um filme. E esse ritual está tirando toda a graça de ver um filme na tela grande.

Mas que ritual é esse? Você me pergunta, e eu respondo. Mas para isso vamos contar uma pequena história.

Você decidiu sair de casa para ver um filme. Pois bem, os problemas começam antes mesmo de sair de casa, afinal de contas escolher a sessão do filme é parte importante do ritual. Em qualquer filme, se a sessão for antes das 22 horas, você corre o risco de ficar cercado por adolescentes com hormônios em fúria, os quais irão gritar quando verem qualquer cena de beijo, de sexo ou quando um determinado ator e/ou atriz aparecer. Como eu detesto essa gritaria toda, e sei que, por mais bagunça que esses moleques façam o máximo irá acontecer com eles é ter um gerente que gentilmente irá pedir para eles se comportarem, só me resta ter a certeza de que é impossível ver um filme antes das 22 horas sem se irritar. Após as 22 a probabilidade desses problemas ocorrerem é menor, mas ainda existem.

Pois bem, escolhida a sessão das 22 horas, podemos passar a outro problema: ter que sair de casa pelo menos às 20 horas. Sim, duas horas antes. Como não mais existem cinemas que não estão dentro de shoppings, temos sempre que contar com o congestionamento para se chegar ao shopping, afinal não existe shopping em Brasília que não tenha congestionamento para chegar. Após o congestionamento para chegar ao shopping, temos a fila do estacionamento, a fila para comprar ingressos, a fila para entrar na sala de cinema, isso sem mencionar a fila para comprar pipoca a qual eu geralmente deixo de lado, afinal já estou de saco cheio de enfrentar filas.

Depois disso, finalmente podemos sentar para ver o filme. Vamos ignorar completamente o chão sujo e grudento do cinema e o fato de que cada passo é difícil, afinal os pés sempre ficam grudados na sujeira do chão.

Passemos direto pra parte boa, de sentar e ver o filme. Lembro de uma época que só existiam trailers antes do filme, agora é propaganda de bancos e sei lá mais o que. Sério, são quase meia hora de propaganda antes do filme começar de verdade.

Após ver o filme, o qual vamos supor aqui que foi tranqüilo e não teve nenhum imbecil gritando dentro da sala do cinema, vamos a mais filas: para sair da sala de cinema, para pagar o estacionamento, para sair do shopping...

São dezenas de filas para um simples ato de ver um filme. Chegamos ao ponto de que ver um filme no cinema se tornou uma atividade estressante. Precisamos passar por todo esse ritual apenas para vermos um simples filminho.

Sinceramente, depois de tudo isso, ainda tem gente que vem reclamar de pirataria. Um filme pirata me afasta desse ritual moderno e bizarro. Mas eu admito, se resolvessem os problemas acima descritos eu pagaria até o dobro pra ver um filme.

O Primeiro Beijo

domingo, 6 de março de 2011 | Published in | 2 comentários

- quer se casar comigo?

A frase foi dita de forma súbita, seca, sem o mínimo preparo. E justamente por isso ela soou tão autentica. Era algo que já vinha sendo amadurecido no fundo da mente de Carlos, mas até então ele nunca havia pensado em dizê-la, ainda mais dessa forma.

Estavam ele e Mariana, sua namorada de já 4 anos, deitados no sofá, vendo um filme na televisão. Estavam na casa de Carlos, que ainda morava com seus pais, e o filme que viam não fazia a menor referência a casamentos ou a romance. Para falar a verdade, Carlos nem mesmo prestava atenção ao filme. Estava sentindo o cheiro dos cabelos de Mariana, e isso o distraia, e justamente em meio a esse cheiro inebriante que ele, sem nem pensar duas vezes, virou sua namorada para si, de forma que pudesse olhar no fundo dos olhos verdes dela, e soltou a frase que começou toda essa história.

Mariana, simplesmente olhou fundo nos olhos de Carlos, mais profundamente do que ele olhava nos olhos dela. Ela sabia que eles namoravam já a bastante tempo, mas ficou de certa forma desconcertada com a pergunta e principalmente por esta ter acontecido de forma tão súbita. Contudo, respondendo no tom mais natural possível, simplesmente perguntou:

- Por que essa pergunta justamente agora?

- Bem, eu te amo. Namoramos a bastante tempo e agora eu consegui um emprego melhor, ganhando bem melhor. Acho que está na hora de nos casarmos.

Essa resposta de Carlos foi bem direta, e extremamente correta. O casamento sempre foi visto pelos dois como um plano distante, algo a ser discutido e pensado no futuro, quando ambos estivessem melhores consolidados em suas respectivas profissões. Ocorre que o futuro a tanto adiado finalmente chegou e ambos sabiam que casar seria o próximo passo lógico.

Por um tempo ficaram os dois ali, em silencio, olhando nos olhos um do outro. Estranhos pensamentos passavam pela cabeça dos dois. Na de Carlos, ele pensava em como seria sua vida dali em diante, alugar apartamento, comunicar aos amigos, etc. A mente de Mariana estava em outro lugar, distante, e num único pensamento, o qual saberemos mais tarde. Por fim, Mariana respirou fundo, e ainda olhando nos olhos de Carlos disse:

- Preciso de uma semana pra te dar a resposta. Nesse tempo, preciso que você me deixe só. Ao final dessa semana, eu te direi minha resposta.

Dessa vez foi Carlos quem ficou desconcertado. Não esperava por essa resposta, afinal eles estavam juntos a anos, dormiam na casa um do outro e se viam praticamente todo dia. Não haviam motivos para a recusa. Carlos tentou controlar o que sentia, se fechou com suas dúvidas. Ele sempre foi tímido e calado, do tipo que mal conseguia dividir problemas com amigos mais próximos. Além disso, sempre foi muito racional e calmo. E justamente devido a essas duas últimas características é que Carlos também respirou fundo, conteve a frustração e disse:

- Se é o que você precisa, então tudo bem...

Mariana e Carlos se beijaram, de forma simples e rápida. Esse beijo não passou de um simples selo, apenas lábios se tocando. Mariana pegou suas coisas e saiu e ambos não disseram mais nenhuma palavra com o outro durante a semana seguinte.


- Você ainda me ama?

Essa frase foi dita também de forma seca, direta, quase bruta... As mesas ao redor do bar onde estavam pareciam não prestar atenção ao que acontecia naquela mesa, onde uma mulher de profundos olhos verdes olhava fundo nos olhos de um homem de longos cabelos pretos e olhos castanhos. Paulo, esse homem, sentiu as pernas levemente bambas ao ouvir a pergunta de forma tão direta. Jamais imaginava que ouviria aquelas palavras ainda mais depois de tanto tempo. Na verdade Paulo amava Mariana, ou pelo menos já tinha amado... No dia em que se conheceram, ainda no primeiro semestre da faculdade que faziam juntos, Paulo sentiu algo diferente. Mariana vinha pelo corredor, andando e procurando uma determinada sala, ela estava de vestido rosa que realçavam ainda mais o verde de seus olhos e Paulo se apaixonou por ela nesta simples e primeira visão, pois ao vê-la, parecia que não haviam mais de mil calouros ao redor dos dois naquela manhã.

Descobriram que faziam o mesmo curso e uma amizade começou, ou melhor, uma amizade começou para Mariana, pois Paulo, mesmo não acreditando em amores a primeira vista, amava Mariana cada vez mais a cada nova característica dela que conhecia. Na época Paulo namorava, e Mariana acabara de terminar um longo namoro, e nos 10 anos que se conheciam nunca ambos estavam solteiros ao mesmo tempo. Parecia um desencontro programado feito para que nunca desse certo. A amizade dos dois era estranha, mesmo não tendo os mesmos gostos, eram mais parecidos do que imaginavam, chegando quase a completar frases um do outro, ou nem mesmo precisar falar para que um soubesse que o outro estava feliz ou triste. Para Paulo, ver Mariana tornava o dia melhor. E todo esse turbilhão de sentimentos Paulo guardava dentro de si durante todo esse tempo, pois nunca falara para Mariana o que sentia.

A cabeça de Paulo fervilhava. E se perguntava como ela poderia saber? Mas essa pergunta já tinha resposta, que Paulo sempre soube: era impossível não perceber na forma como ele olhava para Mariana. Ela sempre o flagrava olhando pra ela quando no meio de reuniões de amigos eles se encontravam. Era óbvio os sentimentos de Paulo, pelo menos para Mariana. Ela sempre soube, e ele sempre soube que ela sabia. Aqueles olhos verdes eram capazes de ver o mais íntimo dos sentimentos de Paulo, e era isso que fazia com que Paulo amasse mais ainda Mariana.

Nesse momento Paulo respirou fundo, olhou no fundo dos olhos de Mariana, aqueles olhos que ambos sabiam que ele nunca conseguia mentir quando olhava dentro deles, e disse:

- Já amei. Hoje em dia, acho que não mais.

As palavras de Paulo saiam espontâneas e eram ouvidas por Mariana que simplesmente olhava no fundo dos olhos dele. Mariana apenas disse:

- Achava que a resposta seria essa, a forma como seus olhos me olham mudou nos últimos anos.

E realmente mudaram. Não fazia muito tempo, um ano no máximo. Estavam ambos em um churrasco na casa de um amigo em comum. Paulo estava solteiro, e Mariana estava com Carlos. Cabe aqui um adendo: Carlos nunca soube dessa conversa e nunca soube dos sentimentos de Paulo. Carlos até tinha profunda amizade por Paulo assim como Paulo por Carlos.

Voltando a história do churrasco. No fim do dia, todos já estavam meio bêbados e o churrasco chegava ao fim, nessa hora Mariana sentou no colo de Carlos e lhe deu um beijo e passou um tempo olhando pra ele e acariciando seu cabelo, enquanto Carlos encostava seu rosto junto ao peito de Mariana. Era uma cena de carinho, de amor, e de profundo tristeza para Paulo que assistia a tudo. Aquela cena mostrou para Paulo que Mariana nunca olharia para ele daquela forma, e nessa hora a tristeza tomou conta dele e ele ficou remoendo uma série de sentimentos dentro de si. Em pouco tempo Paulo se levantou, avisou a todos que iria embora. Ninguém estranhou por conta do estado de fim de festa. Paulo se levantou, saiu, sentou em seu carro e chorou por saber que nunca teria Mariana olhando para ele daquela forma, mas ao mesmo tempo se sentia bem por saber que alguém a fazia feliz. E chorando ele deu a partida em seu carro, chorando ele dirigiu para casa e nunca mais seus olhos olharam para Mariana do mesmo jeito. Todo o amor que ele tinha pareceu se esvair com cada uma das lágrimas que derramou.

Paulo contou a história acima para Mariana, que ouvia a tudo atenta, esperando pelo desfecho que já contamos. Esse relato expôs os sentimentos de Paulo de forma a qual ele nunca tinha feito em sua vida. Era estranho falar de forma tão aberta sobre um segredo que a muito vinha sendo guardado e que, a medida que ia sendo revelado, perdia a sua importância. Ao fim do relato um profundo silêncio se abateu sobre os dois, um silêncio que não incomodava, mas na verdade parecia aliviar os sentimentos de ambos. No meio desse silencio os olhos pararam de se encontrar, na verdade passaram até mesmo a se desviarem. Uma verdade a muito guardada fora dita, mas mesmo se sentindo aliviado, Paulo não queria olhar nos olhos de Mariana, e Mariana também não se sentia confortável para os olhos de Paulo. E continuaram assim por um tempo, e em silêncio pagaram a conta e saíram do bar onde estavam.

Paulo acompanhou Mariana até o carro dela, ainda em silêncio. Antes de entrar no carro, Paulo e Mariana se olharam novamente, navegando nas profundezas dos olhos de cada um. Seus rostos de aproximaram, eles se abraçaram e finalmente se beijaram longamente. O mundo pareceu parar durante aquele beijo, um beijo que estava a mais de 10 anos sendo aguardado e se consumou num momento único para os dois.

Aquele beijo continha todas as respostas que precisavam. Aquele simples beijo mostrou a ambos que, talvez, se tivesse ocorrido anos antes uma história de amor poderia ter acontecido. Mas infelizmente todas as coisas tem um tempo, e o tempo de ambos havia passado. Poderiam ter sido um casal feliz, mas o tempo para isso já havia ocorrido. Os lábios colados tinham a resposta de que Paulo e Mariana jamais deveriam ficar juntos.

Os lábios de Paulo e Mariana se separaram, mas ainda continuaram abraçados sentindo o calor um do outro. Por fim se separaram de vez. Mariana entrou em seu carro e foi direto para a casa de Carlos, onde aceitou o pedido de casamento.

A amizade de Paulo e Mariana continuou, sendo Paulo padrinho de casamento de Mariana. A prova de que o sentimento entre os dois havia acabado foi o beijo que selou o fim de um amor de uma década e ambos, Paulo e Mariana, foram felizes em suas vidas, ou pelo menos felizes na medida que a felicidade é possível para as pessoas.

vaga na ABL

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011 | Published in | 0 comentários

Neste fim de semana tivemos uma notícia triste para aqueles que admiram a literatura. Apesar de que ler é um hábito cada vez mais raro, a morte de Moacyr Scliar será sentida, mas ele ainda viverá por meio de seus trabalhos.

Conduto, neste momento surge uma questão bem mais mundana do que a falta que um escritor fará. Neste momento a cadeira número 31 da Academia Brasileira de Letras encontra-se vaga.

Tudo bem, eu sei, é cruel. O enterro de Moacyr Scliar será nesta segunda feira e mal o defunto esfriou, já estamos cotando o próximo ocupante de sua cadeira na ABL. Contudo, mesmo assim, pretendo começar aqui uma campanha para o próximo imortal da nossa Academia de Letras.

Minha sugestão é algo que irá revolucionar a literatura brasileira, algo que irá trazer novamente a ABL à tona das discussões na mídia. Minha sugestão é alguém hábil com a poesia cantada, um músico, alguém que tocou o coração das pessoas por meio de suas belas palavras, e com sua fez com que suas palavras se espalhassem com o vento.

Minha sugestão para ocupar a cadeira 31 da Academia Brasileira de Letras é alguém cujo nome não é encontrado nos anais do Google e ele é conhecido apenas pela alcunha de: Avassalador. Isso mesmo, o garoto compositor, músico e arranjador do mega hit “Sou Foda!”.

Eu até mesmo já consigo imaginar a posse dele na ABL. Toda a imprensa filmando, reportagens com flashes ao vivo da Globo, Record, Bandeirantes. E o garoto dos Avassaladores, usando o fardão da ABL, um Nike shox falsificado e o já conhecido boné virado pra lado. Ele sobe na tribuna para seu discurso perante os outros imortais. Todo o Brasil o vê pela televisão. E nessa hora, ele calmamente vira para as câmeras e diz:

- Sou Foda!

Anti-tesão

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011 | Published in | 4 comentários

Em Brasília existe uma longa e larga avenida que corta a parte central da cidade de uma ponta a outra. Esta avenida sai da ponta da Asa Sul e termina na ponta da Asa Norte e é simplesmente conhecida como “Eixão”.

O Eixão é conhecido por conta da facilidade, afinal ele atravessa uma boa parte da cidade e em linha reta. Também é conhecido por ficar fechado aos domingos e a ampla área servir de lazer para os moradores da região. Contudo, de uns tempos pra cá, o Eixão está ganhando uma nova característica: a prostituição.

Estamos falando do baixo (muito baixo mesmo) meretrício. Mulheres com corpos longe de serem esculturais fazendo programas na beira da pista e em horário comercial.

Passando por essa breve explicação, posso contar a coisa terrível que me aconteceu.

Vinha eu dirigindo tranqüilo e faceiro pelo Eixão na Asa Sul quando vi a cena que quase me cegou. Uma dessas mulheres na beira da pista, pra confirmar a regra seu corpo estava longe de ser escultural e para somar a isso, ela, a muito, já deveria ter passado dos 40 anos. Usava uma saia vermelha, de imitação de couro, e um top preto deixando os seios quase à mostra. Não preciso nem dizer que mesmo usando um top extremamente apertado, podia-se perceber que os seios eram bastante flácidos. E para piorar toda a cena, ela, com o intuito de chamar clientes, ficava dançando na beira da pista, e a cada carro que passava ela dava uma reboladinha.

Ver essa cena quase me deixou cego. Nessa hora eu senti o contrário do tesão, algo sem explicação, mas que todos os homens sabem como é. Deveria se chamar anti-tesão, atesão, intesão ou qualquer coisa no mesmo sentido. O fato era que senti o meu, bem... digamos membro viril desintumecer-se. Era quase como se ele tivesse encolhido, entrado para dentro do meu corpo e sido devorado por minhas entranhas. Todos os pensamentos sexuais sumiram de minha mente e nem mesmo a imagem da Kate Perry pulando corda poderia me recuperar num momento como esse.

Segui o meu caminho, descrente na humanidade, sentindo que não havia mais futuro. Cheguei a sonhar, e até mesmo a desejar, um fim do mundo em 2012. Virei em direção ao Setor de Autarquias Sul, ainda sem qualquer fé na humanidade. Nessa hora, parei num semáforo e olhei para o lado. Nessa hora pareceu que tinha sido atingido por um raio e um sorriso voltou a habitar meu rosto. Ela era loira com o cabelo preso numa trança que descia até o meio das costas, usava um desses macacões para academia, peça única, preto, colado ao corpo. Eu podia ver cada contorno de seu corpo, os seios quase saltando para fora do decote, as pernas torneadas, e enquanto ela passava pude ver e bela bunda que gingava de forma a quase me hipnotizar.

Nessa hora, o sinal abriu, segui o meu caminho, levantei as mãos para o céu e disse:

- Obrigado Senhor! Restaurastes minha fé na humanidade.

Quarta de manhã

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011 | Published in | 2 comentários

Mais uma vez a vida me prova de que coisas bizarras tendem a acontecer comigo. Plena quarta feira, vindo pro trabalho, ouvindo o noticiário no rádio e curtindo os (poucos) prazeres de um começo de dia. Como sempre, calor infernal e o vidro fechado juntamente com o ar condicionado do carro se tornam o único alívio pra uma cidade que parece que faz 30° as 8 da manhã.

Mas continuando. Quase chegando ao trabalho, parado no início da W3 norte, no congestionamento nosso de cada dia, para do meu lado um ônibus (não faço idéia de qual companhia, mas era dos amarelos).

Todas as portas e janelas do ônibus estavam abertas. Até aí nada demais, a não ser o motorista do ônibus que começa a gesticular feito um doido na minha direção. Sim, ele conseguiu me chamar a atenção devido a tantos gestos, e eu logo achei que meu pneu estava furado ou algo acontecia no meu carro, afinal sempre pensamos o pior nessas horas. O motorista fez sinal para que eu abaixasse o vidro, o que só aumentou minha preocupação. Assim que abaixei o vidro, o motorista grita:

- Ei. Pra você ver né? A diferença do rico e do pobre é que o pobre abre todas as janelas por causa do calor e o rico fecha as janelas do carro e liga o ar condicionado!.

Nessa hora o motorista começa a rir, e eu começo a rir junto com ele. Não que a piada tenha sido engraçada, mas sim pela situação. Tal fato foi tão bizarro que não me sobra absolutamente nada pra fazer a não ser rir e seguir meu dia. Pelo menos a alegria do motorista ao me contar essa simples piada acabou por deixar meu dia mais divertido.

Definitivamente, algumas coisas só acontecem comigo.

Salada

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011 | Published in | 1 comentários

A minha família, bem como alguns amigos, sempre reclamam que não estão com uma alimentação muito saudável e que precisavam comer mais saladas. Saladas...sempre elas o problemas. Não existe pessoa nesse mundo que nunca teve suas expectativas alimentares frustradas por conta de uma salada.

Venhamos e convenhamos, saladas não tem gosto. Se eu posso comer carne pra que eu vou comer folhas? Creio que a evolução nos mostrou que a alimentação a base de carne nos foi muito mais útil. Se ainda comêssemos só vegetais aposto que ainda estaríamos nas árvores, ou melhor, creio que não teríamos nem subido nas árvores e seríamos todos roedores morrendo de medo dentro de nossas tocas.

Mas esse não é um argumento válido quando conversamos com nutricionistas, e lá vão eles novamente nos mandar comer cada vez mais folhas e deixarmos as coisas realmente boas de comer de lado. Nutricionistas chegam ao cúmulo de proibir que misturemos pedaços de bacon na alface, e isso não é uma atitude justa.

Por conta desse tipo de coisa, resolvi pesquisar mais sobre o que é uma salada, e o Google me veio com a seguinte definição:

“prato que se serve geralmente frio, preparado com verduras e legumes crus ou cozidos, ovos cozidos, etc., temperados com molho de azeite e vinagre, maionese, ou outro”

Baseado nessa definição eu comecei a pensar nos alimentos que consumo com certa freqüência e cheguei a uma brilhante conclusão: eu como saladas! Pra falar a verdade eu adoro uma salada.

Vejam só, se salada é um prato servido frio preparado com vegetais e outros ingredientes posso tranquilamente chegar a conclusão de que uma banana split é um tipo de salada. Genial essa conclusão, mudou minha vida. Agora toda vez que disserem que eu preciso comer mais saladas a única coisa que eu posso dizer é:

- Você tem toda razão.

A Revolta dos Invisíveis

quinta-feira, 25 de novembro de 2010 | Published in | 0 comentários

As Lojas Minha Casa eram a maior rede de lojas de venda de móveis no Brasil. O problema é que “Minha Casa” era um nome que não representava a verdadeira natureza da empresa. O nome verdadeiro, ou melhor, vamos usar a nomenclatura correta: o nome empresarial era “Souza de Oliveira Utilidades” e o nome vinha do fundador da empresa, Afrânio Souza de Oliveira, que fundou a empresa ainda nos anos 30. Mas o mais importante pra história não é o sr. Afrânio, e sim seu filho, Evilásio Souza de Oliveira, que nos anos 60 transformou cerca de 5 lojas espalhadas por São Paulo em um império, com lojas espalhadas por centenas de cidades em todos os estados do Brasil.

O gênio para negócios de Evilásio vinha de sua admiração por empresas norte-americanas. Sempre pensando em formas de cortas custos e aumentar lucros, instalando novos modelos de gestão ao ponto da Souza de Oliveira Utilidades ter se tornado referência de administração e gestão em todo o mundo.

Evilásio era alguém que se orgulhava de sua vida e de todas as conquistas que tinha, de toda sua riqueza. Sua única decepção era seu filho, Evilásio Jr., que nunca mostrou ter tino para os negócios e acabou descambando para se tornar um herdeiro profissional, mas as esperanças do sr. Evilásio estavam em seu neto, Afonso, que tinha o mesmo empreendorismo do bisavô, mas com a visão administrativa do avô e uma coragem que todos os jovens tem. Nem precisamos dizer que a muito Afonso, ao completar 18 anos, abandonou a convivência com o pai e foi morar com o avô e desde então vinha sendo treinado para herdar a administração da empresa da família.

Essa administração atualmente se dava da seguinte forma: Evilásio, mesmo com mais de 70 anos, era o presidente do conselho de administração, e devido ao caráter familiar da empresa também exercia o cargo de CEO. Abaixo dele estava, Carlos Eugênio, que era um executivo de carreira, já exercendo a liderança em diversas outras empresas e tinha sido contratado exatamente para a função de Executivo Chefe de Operações, cargo logo abaixo o de Evilásio. E logo abaixo diversos outros Chefes Executivos. E toda essa estrutura que sustentava, com grandes lucros, a cadeia de lojas Minha Casa, a líder na venda de móveis baratos no Brasil.

E foi diante desse quadro que uma mudança mais que inesperada ocorreu.

No fim do ano, antes de um breve recesso para o natal e o ano novo, era sempre feita uma grande reunião do conselho administrativo. Nessa reunião se apuravam os lucros anuais e as diretrizes para o próximo ano eram demonstradas e dezenas de decisões eram tomadas. Era uma reunião longa, que costumava entrar noite a dentro, e, no momento o qual se passa a presente história, já eram mais de oito da noite, e o prédio-sede da empresa encontrava-se praticamente vazio. Lá estavam apenas seguranças e faxineiros, todos funcionários de uma empresa prestadora desses serviços, afinal contratar uma empresa para se prestar esses pequenos serviços, de forma terceirizada, representava uma economia e uma preocupação a menos com um bando de funcionários de baixa renda.

Mas voltemos a falar sobre e reunião, no meio de um tópico importante sobre o aumento das vendas nos estados do nordeste, a porta da sala de reuniões foi aberta de forma abrupta e por ela entraram três funcionários da empresa terceirizada. Com seus macacões azul e marrom, eles rapidamente travaram a porta com um rodo e fitaram a cara de espanto dos membros do conselho administrativo.

No meio dos três funcionários terceirizados estava um senhor, que aparentava mais de 50 anos. Negro, com cabelos apenas nas laterais da cabeça, e estes completamente grisalhos. Ele também tinha uma expressão facial que somente aqueles que muito trabalharam na vida possuem. Os outros dois não são relevantes para este momento da história, basta você saber que eles estavam lá.

O velho negro, de dentro do seu macacão azul e marrom, diante da expressão de espanto de todo o conselho diretor começou a falar numa linguagem bem simples e condizente com sua classe social:

- Boa noite com os senhores.

- Que boa noite nada! Como você interrompe uma reunião como essa?! Isso é um ultraje! – respondeu Evilásio com uma fúria ainda sob controle.

- Descurpa seu Evilásio, mas é que nois temos algo muito importante pra falar com os senhores. Eu estou aqui representando todo mundo da Avis Terceirizados pruquê cada um de nois quer receber uns 5 mil dos senhores todo mês.

Nessa hora todos os membros do conselho diretor fizeram uma cara de espanto maior ainda. E alguns segundos depois as caras de espanto foram substituídas por metade cara de raiva e a outra metade por um riso levemente contido (mas não muito).

Evilásio foi o único que não conteve o riso. E após recobrar a seriedade, perguntou diretamente para o líder do grupo:

- Qual o nome do senhor?

- João. – respondeu o velho negro.

- Seu João – disse Evilásio – mas por que o senhor está nos fazendo esse pedido? – e disse isso ainda tentando conter o riso.

O velho João sorriu de volta, um sorriso meio malicioso, e disse:

- O senhor sabe, a gente ganha só salário mínimo. Todo mundo tem uns meninos pra criar e eu sei que se juntar ceis tudo, 5 mil pra cada um dos 20 da faxina e mais o 5 cinco da segurança não é muita coisa não. Nem pesa no bolso dóceis. Afinal a gente limpa a bagunça que ceis fazem, a gente já viu os extratos do banco doceis. A gente sabe quanto ceis ganham por mês.

Nessa hora a expressão do rosto de Evilásio mudou, assim como a de todo o conselho. A coisa parecia ser séria, não era uma piada de mal gosto. Se recobrando do susto Evilásio se antecipou a todos e perguntou o que todos pensavam:

- E por que nós faríamos isso?

E João calmamente respondeu:

- Olha, pra oceis nós somos todos uns invisíveis. Passamos por oceis e ninguém nos vê. Estamos ali e ninguém nunca nem fala com a gente. Por conta disso ceis esquecem que nós temos ouvidos e olhos. Nós sabemos tudo que oceis fazem e se oceis num quiserem que a gente conte pra todo mundo é bão ceis pagarem.

João parou pra respirar e continuou:

- Nois sabemo que o seu Ailton (um breve aparte, Ailton era uma dos Chefes Executivos. Alto e gordo, sempre muito sério e reservado) vive ligando pra uns garotos de programa. A gente já viu ele até mesmo sair daqui do prédio com uns deles. Isso sem falar nas vezes que ele fica chamando os Office-boy pra ir na casa dele de noite.

E nessa hora Ailton ficou pasmo e quase sem conseguir respirar.

- Nois sabemo também que a Dona Mariana (outra dos Chefes Executivos) é uma outra que gosta duns rapaiz novo. O último que a gente viu com a senhora num devia ter nem 18 anos.

E nessa hora Dona Mariana ficou completamente branca, como se não tivesse mais nenhum sangue em suas veias.

Depois dessas revelações, foi Carlos Eugênio quem começou a falar, ou melhor, gritar, com um ódio ensandecido em sua voz:

- Mas isso é chantagem!!! Vocês vão pra cadeia por conta disso!!!

E João calmamente respondeu:

- Seu Carlos, olha pra nois. Somos pobres, ganhamos um salário mínimo mas não somo burros. Eu já tirei umas dúvida com o povo do jurídico, tipo assim como quem não quer nada e eles num percebero nada tamém. Ceis que tem estudo acham que nós que não temos muito somos idiotas. Mas no fim das contas fica difícil doceis prova que essa conversa realmente aconteceu, afinal dentro dessa sala num tem câmera. Depois, tem outra coisa. Isso que nois tamo fazeno é meio complicado de se dizer exatamente o que é.

- Pelo que eu já falei com o povo do jurídico, isso num é extorsão, pois ninguém aqui ta usando de violência. Também num é ameaça. Isso aqui pode ser o que voceis chama de constrangimento ilegal e a pena pra isso é pequena. Num vale a dor de cabeça que vamos dar proceis, e voceis sabem disso. Voceis sabem que no fim das contas voceis tem muito mais a perder do que nois.

Nessa hora, Evilásio respirou fundo, já tinha percebido a seriedade da situação, já tinha percebido o que estava acontecendo, e começou a pesar os prós e contras de realmente acatar o pedido daquele senhor.

Quase que percebendo o que se passava na cabeça de Evilásio, João continou falando:

- Seu Evilásio, de todos o senhor é o que mais tem a perder. Todo mundo sabe do amor que o senhor tem pelo seu neto e dos pobrema com seu filho. O que seu neto ia achar se soubesse que o senhor manda investigar as namorada que ele arruma na facurdade? Nois já ouvimos conversas suas com detetives, e o senhor mesmo manda ele continua um namoro ou acaba por causa do que o detetive te fala. Fico pensando como o senhor se sentiria se seu neto nunca mais falasse com o senhor.

E com esta fala direta, João conseguiu tirar as últimas dúvidas que existiam no coração de Evilásio. Não havia outro caminho, os riscos envolvidos eram grande demais, e Evilásio sabia que seu neto jamais o perdoaria, mesmo que lhe explicasse que foi pro seu próprio bem. Nessa hora, o presidente da empresa, esgotado, jogou-se na cadeira e disse:

- Tudo bem, concordamos com a sua proposta.

E nessa hora vários outros diretores da empresa se levantaram, quase que em fúria. O mais indignado deles foi Carlos, que esbravejou:

- Como você pode compactuar com isso!! Estamos sendo chantageados e a chantagem vai ser aceita.

- Cale-se Carlos – emendou Evilásio –todo temos podres aqui. Não são crimes, mas são coisas que podem arruinar nossa reputação, que podem acabar com nossas famílias e com o respeito que arduamente conquistamos. O melhor mesmo é pagar...

No fundo Carlos sabia que Evilásio tinha razão, e por fim, também se jogou em sua cadeira. Sem dizer nenhuma palavra, todos sabiam que ele concordava em pagar o que lhes era exigido.

Com a condescendência dos mais importantes membros da diretoria, os demais diretores nada puderam fazer. Somente dinheiro poderia calar a boca daquelas pessoas, que sabiam os segredos mais profundos dos mais importantes membros da empresa.

Todos ali se perguntavam por que não foram mais cautelosos. Mas quem iria se importar com simples faxineiros? E por não se importarem, todos ali iriam pagar. Somente dinheiro pode fazer com que imundices morais continuem enterradas, longe dos olhos julgadores das demais pessoas. No fim, todos sabiam que todos tinham segredos, todo ser humano tem segredos imorais que se pudesse, pagaria (e muito) para que estes jamais fossem revelados.

E assim, o pagamento começou a ser feito.

O tempo passou. Evilásio continuava a vigiar o neto, os demais membros da diretoria continuavam a praticar seus atos sórdidos e a manter seus segredos sujos. A única grande mudança foi na vida de um grupo de pessoas pobres, que passaram a poder viver mais dignamente. Nenhum segredo jamais foi revelado e ninguém nunca mais falou sobre aquela conversa na sala da diretoria, mas todos se reuniam para pegar a sua parte quando a mala com dinheiro vivo era colocada na sala da limpeza.

E assim, a vida de um grupo de pessoas pobres mudou para melhor.