Guias - Segunda Parte

quinta-feira, 12 de novembro de 2009 | Published in | 0 comentários

Peço desculpas pela demora em postar. Férias e alguns problemas pessoais (resumindo, falta de saco também). Segue abaixo mais um trecho da história que comecei a um tempo atrás.
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O tempo passa para a nossa personagem assim como para qualquer outra pessoa. O peso dos anos nos torna aos poucos diferentes... O primeiro namorado, a primeira relação sexual, as primeiras decepções. Ao abrir o coração para outro ser humano nos expomos e com isso um leve sofrimento passa a nos acompanhar, mesmo que esse leve sofrimento esteja sempre ao lado de uma alegria.

A aranha gigante ainda acompanhava nossa personagem nos primeiros anos de faculdade. Os olhares desconfiados que existiam no segundo grau passaram a não mais importar, a opinião dos outros passou a não mais importar, afinal a aranha gigante dava confiança para que essa jovem cuja história eu estou narrando enfrentasse qualquer coisa. No emaranhado de suas próprias teias nossa personagem era a rainha e ao seu redor nada mais importava. A aranha ao seu lado era a melhor companhia que ela poderia ter, afinal ninguém mais via a criatura ao seu lado e todos estranhavam quando ela se fechava sozinha no quarto, ou melhor, nem tão sozinha assim.

A faculdade veio, como já disse acima. O curso? Bem, essa é outra coisa que não importa no momento, só precisamos lembrar que o gosto por ficar sozinha ainda era presente nessa garota, que nesse momento já devemos chamar de mulher. O problema, é que mesmo para os que gostam de ficar sozinhos, uma turma cheia de alunos nos obriga a ter um contato maior com outras pessoas. E desse contato veio uma característica diferente, que nossa personagem até o momento achava que não tinha, uma agressividade e uma capacidade para se impor que assustava algumas pessoas. Era como se, nos momento que fosse necessário, ela atacasse com uma tremenda fúria para defender seus interesses, e devemos sentir pena dos que tentavam ficar pelo caminho.

Essa transformação não foi brusca. Ou melhor, não houve transformação. Apenas em um outro momento da vida, uma característica inata aparece mais do que em outros momentos, e nesta altura da vida, essa característica que acabei de descrever se sobrepôs as outras. E devido a isso, o diálogo que transcrevo abaixo ocorreu numa noite de lua cheia igual a da primeira vez que elas se viram:

- Deixe-me olhar pra vc. Levante-se... – disse a aranha com voz suave. E continuou:

- Você está diferente agora, parece que não mais se esconde ou prefere ficar a sós comigo. Agora você anda altiva, como se ninguém mais pudesse te atacar, impondo sua vontade.

- O tempo passa e temos que aprender a reagir de outras formas em diferentes situações. Não mais podia deixar os outros de lado, tive que começar a me impor. – disse a nossa personagem.

- Eu sei, e sei também o quanto isso lhe faz bem... Só lamento que por causa disso eu tenho que ir embora...

- Mas por quê? Disse a garota, ou melhor, a mulher, num tom de voz choroso e com lágrimas começando a saltar aos olhos.

- Eu ainda sou parte de você, mas não mais sou a sua principal. Não chore, a vida é assim, já aconteceu antes e ainda acontecerá de novo. Durma, e amanhã acorde para uma nova vida.

E triste, nossa personagem resolveu dormir, e uma última vez tocou nos pelos grossos da aranha e encarou aqueles olhos que piscaram em sinal de satisfação. Ela fechou os olhos, enxugou as lágrimas e por fim disse adeus a sua melhor amiga.

No dia seguinte nossa personagem acordou com um tremendo sentimento de perda latejando fundo em seu peito. Mas esse sentimento não durou muito, afinal ela pode ver um enorme tubarão branco que parecia nadar pelo céu sobre sua cama piscar seus profundos olhos totalmente negros e dizer numa voz estridente, que mais parecia dentes cortando aço, mas ainda feminina:

- Bom dia...

Girls Along The Road

domingo, 4 de outubro de 2009 | Published in | 1 comentários

Um breve intervalo na história que estou a contar apenas para contar outra história. O álcool que percorre meu sangue é a única coisa que me mantém lúcido o suficiente para poder destilar com todo o ódio que habita em mim os acontecimentos dessa noite. E antes de entrar em maiores detalhes da desgraça, sou obrigado a dizer que o único alvo de todo o ódio que sinto nesse momento é apenas uma pessoa: eu mesmo.
Num determinado show que ocorreu nesta cidade eu encontrei com uma mulher com a qual já tinha ficado mas que ainda conseguia mexer comigo. O simples sorriso que ela me deu serviu para que as semanas seguintes fossem diferentes, pois sempre me lembrava dela com uma alegre, e idiota, expressão de felicidade em meu rosto. Devido a essa expressão eu tomei a coragem de voltar a manter contato com ela, fazendo com que aquele antigo endereço de MSN, a muito esquecido voltasse a ser utilizado. A semana foi ótima, com uma longa troca de e-mails e algumas conversas interessantes. E falar com ela me fez bem, pois a simples possibilidade de encontrá-la alegrou meu fim de semana.
Antes de encontrar com essa mulher me vi envolvido numa festa de família. E esta de festa de família me causou extrema agonia, pois o tempo não passava e a vontade de ver essa mulher me corria por dentro. Sai as pressas dessa festa, com o único intuito de ver a mulher dos cabelos vermelhos num bar dessa cidade. No carro fui ensaiando o que falar pra ela e podia já sentir os lábios dela tocando nos meus. Mas infelizmente o mundo não é perfeito e eu muito menos, assim que vi essa mulher que mexeu tanto comigo eu tive a mais inesperada das reações: eu travei! Não conseguia falar com ela direito, não conseguia me expressar, e somente tinha poucas frases desconexas balbuciadas ao tentar impressioná-la. Eu não conseguia ser eu mesmo e tudo isso devido a apenas um sorriso que ela me deu, um sorriso que me desmontou e me transformou num outro ser cujo dom da fala fora negado.
Eu somente podia olhar pra ela e sentir meu peito quase explodindo com as batidas do meu coração. Todas as frases ensaiadas foram esquecidas em instantes. Eu conseguia conversar com os meus amigos, conseguia dar cantadas na moça do bar, conseguia até mesmo “alugar” uma completa desconhecida, mas não conseguia falar diretamente com a mulher que me fez atravessar a cidade só para vê-la.
E assim terminou a noite, eu despejando cantadas baratas numa mulher que eu nuca tinha visto, que estava a turistar por Brasília, enquanto que a única pessoa com quem eu realmente queria estar, estava do meu lado, vendo a cena acima descrita e com ela eu mal conseguia falar. Alguém que me despertou uma profunda paixão me deixou mudo, e uma mulher qualquer ouviu tudo que eu queria ter dito para outra pessoa.
Nessas horas eu penso o quanto eu detesto realmente gostar de alguém, pois os caminhos qu eu sigo nessas horas são sempre os mais errados possíveis. Parece que meu subconsciente me sabota, apenas para não me ver mais feliz. E assim, mais uma vez, eu suponho que perdi alguém que eu poderia ter amado. Mais uma mulher passou pela estrada da minha vida e não foi aquela que eu queria.

Guias - Primeira Parte

sexta-feira, 11 de setembro de 2009 | Published in | 0 comentários

Existe algo de muito estranho no que eu escrevo, e quando digo estranho me refiro ao fato de que raramente batizo meus personagens. A explicação pra isso é simples, afinal espero um certo tipo de identificação com meus personagens, e a partir desse momento eu não os batizo para que cada pessoa possa inserir seu próprio nome na lacuna deixada por esse vazio. Na presente história não poderia ser diferente, e por mais bizarra que ela pareça a princípio, espero dessa vez conseguir algum tipo de identificação por menor que esta seja. Mas essas conversas com os leitores não contribuem em nada para o desenrolar da história e justamente por isso, não me alongo demais nesse “bate-papo” e sigo com meu objetivo principal que é contar histórias.

E dizia-se que ela passava muito tempo sozinha. Mas não era sozinha, sozinha como esperamos que seja o significado de ficar sozinha, como se ela fosse excluída ou como se ela fosse uma solteirona, encalhada ou feia. Na verdade quem se excluía era ela, pois o silêncio lhe era agradável e a maioria das pessoas, falando o tempo todo, sempre alto e sempre sem parar doía, incomodava, por esse motivo ela preferia ficar sozinha. Por essas razões a hora do dia que ela mais gostava era a noite, pois era a hora que no escuro ela poderia ficar quieta no quarto, sentindo o silêncio e apreciando essa paz que somente a escuridão poderia trazer

Nessas horas em que ficava a sós consigo mesma, ela sempre se sentia confortável. Era quase como se houvesse alguém em meio a escuridão que, silenciosamente, lhe fazia companhia. E o mais interessante era que essa companhia era extremamente agradável. Desde criança ela sentia essa companhia quando ficava sozinha, como se um amigo tivesse sempre de olho nela, vendo se tudo estaria certo e agradável pra ela, isso tudo sem nunca dizer uma palavra.

O grande problema disso tudo é que essa simples sensação, que ela encarou como a sua resposta ao silêncio não era nada do que ela pensava, mas isso ela só descobriu quando já estava na adolescência. O tempo passa, crescemos, as companhias alegres da família aos poucos parecem chatas e entediantes quando se entra nessa fase, sempre acompanhada de contestação e fúria, mas para alguém como nossa personagem, que sempre preferiu ficar sozinha, a adolescência veio acompanhada de receios de outras jovens e de outros jovens e não se sabe muito bem os motivos para isso, se era pela roupa preta, pelo espírito contestador ou se apenas pelo fato de que se interessava por coisas diferentes demais da maioria. Somente se sabia que a solidão agradável dos anos de criança, ainda era agradável nos anos de adolescência, mas que agora possuía um sabor mais amargo, um leve ponta de solidão que, dessa vez, poderia ser compreendido no sentido estrito (e mais cruel) da palavra solidão.

Numa noite solitária, onde um coração se sentia frio como montanhas cobertas de neve, foi que aconteceu. Silêncio... ela tinha uns 15 anos pelo que se lembra e o dia tinha sido excepcionalmente ruim. Hoje lembrar os motivos pelos quais o dia tinha sido ruim não são mais relevantes, e acho que ela nem mais se lembra, deveria ser algo relacionado a falsas amigas, a olhares discriminatórios devido ao jeito de ser, qualquer preconceito que um adolescente fora do padrão sofre, mas ao certo não há como saber. Naquele dia excepcional a solidão e o silêncio e a escuridão serviam para aplacar a dor e o peso em seu coração, e justamente, no momento em que uma única lágrima furtiva escorria pelo seu rosto ela viu o reflexo da luz da lua entrando pela janela em oito bolas negras que fixamente olhavam pra ela.

Ao perceber a tais “bolas negras”, foi como se estas piscassem, com uma leve expressão de perplexidade. A nossa personagem teve um breve susto, aceitável até, por não saber o que era aquilo ou o que estava acontecendo. Após respirar fundo ela se levantou de sua cama procurando acender a luz, e antes mesmo que pudesse colocar o primeiro pé no chão ela ouviu uma voz, feminina, lhe dizer suavemente:
- Por favor, não.

Com toda certeza, agora ela poderia ter certeza de que havia algo ou alguém com ela e que esse alguém era responsável pelas pequenas bolas negras que ela via soltas no ar e que brilhavam ao reflexo da luz da lua que entrava pelas frestas da cortina. Mas apesar dessa certeza, a voz que ouviu lhe confortou ao ponto do susto ter ido embora, e uma estranha sensação de paz tomar conta dela. Nesse momento ela ouviu a mesma voz lhe dizer:
- A luz costuma me incomodar, por isso não acenda.
E mais uma vez pareceu que as bolinhas negras piscavam pra ela.

A nossa personagem, com certa, naturalidade, ao invés de perguntar um “quem é você?” ou um “o que você faz aqui”, preferiu como primeira pergunta apenas dizer:
- Deixe-me olhar para você.

E ainda sentada em sua cama, a garota pode perceber uma haste negra com pêlos afastar as cortinas e deixar que toda a claridade da luz entrasse no quarto. Ela pode ver, sob a pálida luz da lua, que na verdade as bolas negras olhavam para ela de verdade pois eram olhos, e que na verdade eram oito bolas negras/olhos e que a haste que abriu as cortinas eram uma enorme pata com pêlos negros. Ela estava diante de uma aranha, negra e com pêlos negros tão negros quanto seus olhos, patas longas que faziam com que a aranha tivesse quase um metro de altura, e ela era monstruosa e linda aos olhos da nossa personagem.

Ela, a garota, não sentiu medo, apenas esboçou um leve sorriso, sentindo dentro de si uma felicidade estranha e uma sensação de amizade como ela nunca havia antes sentido. A nossa garota se limitou a olhar para a aranha e dizer com calma:
- Agora que eu te vi, eu não preciso perguntar quem você é. Eu sei exatamente quem você mas não consigo explicar com palavras, apenas sei e isso é que importa, e me sinto feliz de poder te ver. Quero apenas que me diga se era você das outras vezes.
E a aranha respondeu:
- Na maioria das vezes sim, houve outro antes de mim, mas foi por pouco tempo.

E ambas, a garota e a aranha, ficaram em silêncio novamente. Sentiam que não precisavam, e nem queriam, conversar, mas apenas a presença de uma já fazia bem a outra e fazia com que o sentimento de solidão se dissipasse.

Estações

quarta-feira, 2 de setembro de 2009 | Published in | 0 comentários

Existe um problema sério com relação a estações que infelizmente é difícil de ser resolvido. Não, não estou falando de estações do ano, mas sim das estações pessoais. OK, isso ta começando a ficar confuso, vou explicar melhor: assim como o ano, as pessoas também possuem diferentes estações, sendo que algumas possuem mais do que primavera, verão, outono e inverno. Ainda confuso? Tá bom, explico mais ainda, as vezes uma determinada pessoa está passando por uma época na qual fica apaixonada mais fácil, ou que as vezes fica mais distante, e essas alterações de humor não tem nenhuma relação com problemas pessoais, a pessoa simplesmente está numa outra estação, num período em que ela reage de forma diferente ao que o mundo lhe mostra e lhe faz passar.
As vezes tudo se resumo a estação em que você se encontra. As reações a um problema que hoje foi difícil de resolver, numa outra época teria sido mais fácil. As vezes algo que você não liga hoje, pode faze com que você se importe depois de um tempo e mais pra frente ainda voltar a não se importar. E isso é muito interessante de se observar, o problema é quando se começa a observar isso nos relacionamentos e um evento dessa semana me fez refletir muito sobre isso.
A alguns meses estive numa festa em um bar, uma banda de alguns grandes amigos iria tocar e aproveitei a oportunidade pra ouvir boa música e rever pessoas que tinha um certo tempo que eu não via. Cheguei por lá por volta das 11 e meia da noite, tinha apenas tomado um banho frio no parque da cidade depois de um treino de Kung Fu Wyng Tjun (das 19:30 as 21:00) e de um treino de rugby (das 21:00 as 23:00). Aqui cabe um pequeno a parte: eu realmente tenho gostos estranhos e sei que aqueles que me lêem agora vão concordar depois dessa breve relato das minhas atividades. A música estava ótima, cerveja gelada, bons amigos... mas foi outra coisa que marcou essa noite pra mim.
Eu a vi de longe, vestido branco e laranja, dançando ao som da banda, cabelos na altura dos ombros, vermelhos. Como os que me lêem por aqui sabem, eu tenho um fraco por essa cor. Cheguei mais perto para vê-la, queria poder ver seu rosto afinal, e a achei linda. Mas tudo isso não foi o que me chamou mais atenção, pois ao passar do seu lado eu vi que ela era apenas um pouco mais baixa que eu, e pra mim com os meus 1,90 era difícil ver uma mulher tão alta. Sei que passei a noite toda olhando pra ela, mas não tive coragem de chegar, afinal, eu me sentia sujo e fedendo depois das atividades que já mencionei, mas pude vê-la conversando com uma amiga minha e isso foi excelente para o que veio a seguir.
Passei um tempo longo enchendo o saco dessa amiga minha para saber quem era a “ruiva alta daquele dia”. Troquei algumas informações com conhecidos e em pouco tempo já sabia o nome dela e a simples possibilidade de encontrar com ela já me fazia sair de casa.
Um tempo depois a encontrei numa festa, em outro bar. Mais pro fim da noite, olhei pra ela, tomei aquele último gole de cerveja e fui falar com ela. Foi divertido, ela foi simpática, alegre e eu adorei cada minuto. Tê-la beijado nesse dia deixou meu fim de semana mais alegre, até mesmo mandar uma mensagem de celular, as 04:30 da manhã pra um amigo que sabia dessa história toda, comentando que tinha ficado com a “ruiva alta” eu mandei, só pra perceber o nível de euforia que fiquei.
Mas infelizmente, quando nos encontramos pouco tempo depois, não sei por que motivo, mas acho que foi justamente por causa da estação em que me encontrava naquela época, não consegui botar pra fora e conversar com ela direito e expor como eu me sentia. Queria ter ficado com ela novamente, mas não sei os motivos ao certo, algo em mim não estava na estação certa. E a oportunidade passou e não mais senti os lábios dela nos meus.
O tempo passou, pessoas entraram e saíram da minha vida, e essa semana vi algo que me fez pensar nessa história toda. Através de uma dessas mídias sociais, (mais precisamente Orkut e aquele trocinho chamado “buddy poke” o qual eu nunca vi graça até então) eu pude ver que ela colocou a seguinte mensagem: “procurando por um amor”. Ao ver isso, a única coisa que eu pude pensar foi que gostaria de estar na mesma estação que ela quando nos beijamos, pois dessa forma poderia ter começado uma bela história.

Roxo

quarta-feira, 26 de agosto de 2009 | Published in | 1 comentários

Eu não consigo nem mesmo fantasiar com mulheres que não estão ao meu alcance. Ao olhar a capa de uma revista masculina, o primeiro pensamento que me vem a mente é que falta algo... Está lá, uma mulher estonteante, perfeita, mas que não sabe meu nome e que jamais saberá, e justamente por isso é que falta algo: saber que nunca a conhecerei, saber que ela nunca nem mesmo saberá o meu nome corta totalmente qualquer tesão que eu venha a ter por ela. E esse é o motivo pelo qual eu não gosto de revistas masculinas (vulgarmente conhecidas como “de mulé pelada”) muito menos de modelos de anúncios publicitários.

Sou mais fã da beleza real, essa encontrada nas ruas. A beleza verdadeira, onde cada defeito integra uma pequena parte de um todo perfeito. E foi por pensar assim que tudo aconteceu. Essa história já tem alguns anos, mas merece ser lembrada. Eu a vi pela primeira e última vez. Sentado numa parada de ônibus, eu a vi... A primeira coisa que me chamou a atenção foi o tênis all star roxo (diga-se de passagem ,essa cor não é muito comum, mesmo para tênis all star). As meias brancas davam um belo contraste, subi o olhar pelas longas pernas brancas que há muito não viam sol e me detive na saia marrom já meio desbotada. O olhar continuava a subir e percebi a blusa preta e branca listrada bem agarrada ao corpo, os cabelos pretos um tanto quanto mal cuidados desciam até o meio das costas. E eu estava ali, esperando meu ônibus e implorando em meus pensamentos para que ela se virasse e eu pudesse ver o seu rosto. E minhas preces foram atendidas, a pele do rosto muito branca chocava com os cabelos pretos que eu já havia reparado. Não era bela como as modelos das revistas, mas tinha aquela beleza real que todas as mulheres possuem. Propositadamente estava com uma roupa surrada, despojada, e justamente por isso parecia mais bonita ainda. Se a colocassem num vestido ou numa roupa diferente, com toda certeza el não seria capaz de chamar a atenção por onde andasse, mas para mim aquele visual é que a deixava deslumbrante. E ao mesmo instante que vi essa beleza eu senti uma onda que me invadiu o peito.

Era estranho, a primeira vista parecia que eu estava apaixonado a primeira vista. E fiquei em conflito comigo mesmo, tentando criar a coragem para me levantar e ir direção dela, tentando ao menos um telefone para um encontro mais tarde. As pernas adormeceram e eu não conseguia reunir a coragem para me levantar e ir até ela. Timidez, vergonha ou mera covardia... não sabia qual desses me segurava ao duro banco da parada de ônibus enquanto eu desejava ardentemente aquela anônima na minha frente.

Meu ônibus passou, e eu fiquei sentado ao banco esperando o ônibus dela passar. Quem sabe eu poderia pegar o mesmo ônibus e tentar uma conversa insossa, ou ao menos um olhar eu poderia tentar conseguir antes de me aproximar. E mais uma vez plantado fiquei no meu lugar, olhando para ela e vendo os seus cabelos negros, suas longas e grossas pernas brancas e seu all star roxo.

Ela se moveu lentamente em minha direção, me arrepiei pensando do que se tratava, e que talvez viesse para falar comigo. Estava enganado, ela só andou em direção ao seu ônibus que acabara de chegar, e a mim faltou coragem para pegar o mesmo ônibus. Ela se foi e eu fiquei para trás com tudo que sentia.

Eu a amei desesperadamente durante aqueles poucos minutos. Ela se foi, levando consigo o all star roxo que primeiramente me chamou a atenção e eu fiquei em pedaços para trás, me repreendendo por não ter a coragem de ir falar com ela. E durante o resto daquele dia e dos dias seguintes a paixão ainda existia e a imagem do all star persistiu em minha mente, e quando eu fechava os olhos eu ainda via: roxo. Mas essa mesma paixão, que me percorreu durante poucos minutos e que me seguiu durante alguns dias foi embora. Anos depois reli a primeira parte deste texto e nem mais me lembrava da bela garota de all star roxo que eu amei desesperadamente por poucos minutos, e assim descubro que meus sentimentos são de extremos, são como um fogo que arde forte e que depois apaga sem nem mesmo deixar cinzas como lembranças fazendo com que um amor se extinga como o ponto final que termina esta frase.

O Vento

segunda-feira, 10 de agosto de 2009 | Published in | 0 comentários

O tempo que fiquei sem postar nada foi um breve luto pela morte de um amigo querido. Voltemos a programação normal deste blog.

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O Vento

Numa estrada de terra, durante o fim de um dia frio, um andarilho seguia seu caminho. Em suas costas carregava uma velha sacola de couro pendurada em um dos ombros, nela carregava antigas lembranças de coisas boas e ruins. O peso era visto em seu rosto, que em cada ruga poderia se ver cada lágrima que já derramou e cada sorriso que um dia dera.

Seguia relembrando as cidades pelas quais já havia passado e as pessoas que tinha encontrado pelo caminho e deixado para trás. Tais pensamentos apenas aumentavam o peso da sacola em seu ombro.

O vento soprava frio e forte em suas costas, levantando a poeira da estrada, formando riachos de pó ao redor de seus pés com pequenos redemoinhos de pó vermelho a sua frente.

A estrada já estava lá, e ele apenas a seguia. O caminho já estava feito e era o mais fácil a fazer. Seguir o caminho determinado, mesmo que ele seja feio e sujo, era mais fácil que fazer sua própria trilha, e seguir um caminho pré-determinado era o que prendia seus tornozelos a grilhões invisíveis que foram arrastados por toda uma vida.

O vento soprava cada vez mais forte e frio, o peso em sua sacola de lembranças era cada vez maior, as marcas em seu rosto cada vez mais profundas... O cansaço era evidente e mesmo o vento frio não impedia gostas de suor escorrerem pelo rosto como se fossem lágrimas que não mais seriam derramadas.

Cheiro de chuva era cada vez mais forte e o vento varria a poeira da estrada com o sol se pondo ao fundo. O vento corria livre, sem os grilhões que prendiam o andarilho a sua estrada.

A dor no peito, a sensação de solidão mesmo sabendo que vários andarilhos se encontravam na estrada, a vontade de morrer, o cheiro de poeira e o vento cortante se misturavam aos pensamentos do andarilho e a imensidão da estrada. O andarilho seguiu toda a sua estrada atrás de uma liberdade que nunca iria conseguir, preso aos grilhões que não conseguia ver. E em meio aos pensamentos sobre a estrada, o cansaço, o peso da sacola em seu ombro e o vento que corria, o andarilho apenas parou olhando o sol se pondo, sentindo o vento cortar-lhe levemente o rosto. Deixou a sacola cair no meio da estrada empoeirada e abriu os braços sentindo o vento entrar em suas roupas, e assim ele saltou para acompanhar o vento em sua corrida louca sem direção, deixou para trás velhos grilhões e uma sacola de lembranças boas e ruins que não mais serviam para coisa alguma e assim finalmente pode se sentir livre.

Amigos

segunda-feira, 20 de julho de 2009 | Published in | 0 comentários

Aproveito o assim chamado "Dia do Amigo" para essa postagem.


_____________________________________________________________________________________ Lembro de uma noite regada a muito uísque onde eu ouvi uma história de um amigo meu. Esse amigo meu é tio de um outro grande amigo, e regularmente nos encontramos, os três, para algumas doses de uísque e uma noite de conversa de bêbado. Numa dessas conversas, esse “tio amigo” nos contou a história do seu casamento e do fim deste. O que mais chamava a atenção era que ele falava que somente havia se casado porque todos os outros amigos estavam casados, com filhos pequenos e não mais se encontravam para tomar cerveja ou coisas assim, ele encontrava com os amigos em festas de criança e tomando refrigerante. No fim das contas ele dizia que somente havia se casado pra poder continuar a ter coisas em comum com os amigos.

Quando ele terminou de contar essa história, eu fiquei pensando que isso era um motivo pra lá de idiota pra um casamento. Passei uma semana pensando nisso e, indignado, não conseguia entender porque alguém se casava por motivo tão fútil, e ficava pensando... Enfim, não conseguia entender os motivos dele ter se casado e a idiotice do ato em si.

Não conseguia entender mesmo, até este fim de semana que se passou. Fui convidado para um chá de fraldas de uma amiga minha e um grupo de amigos que se conhecem a mais de 10 anos se reuniu. Todos, mas todos mesmo, estavam casados ou com namoros estáveis de vários anos. Confesso que eu me senti completamente deslocado no meio deles, todos falavam sobre assuntos relacionados a vida à dois, a terem filhos ou sobre como estavam com os filhos pequenos. Eu via no jeito deles de agir que até mesmo o comportamento mudava, pareciam preferir ficar correndo atrás das crianças do que conversar, e qualquer um deles que passava muito tempo longe da companheira, imediatamente era chamado de volta pra perto dela e assim se encerrava os papos puramente masculinos que antes teriam durado horas.

Eu acabei indo embora mais cedo e enquanto dirigia de volta pra casa, pude perceber os motivos que fizeram o “tio amigo” se casar. Depois desse chá de fralda, os motivos dele não mais pareciam tão idiotas assim. Eu provavelmente acabaria fazendo a mesma merda se não tivesse ouvido a história antes, e é triste constatar que o tempo passa e que os objetivos seus e de seus amigos se divergem.